Arte engajada à vida do povo

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Em 25 de novembro passado, aos 84 anos, faleceu o artista do povo Gontran Guanaes Netto. Homem de vida simples e alegria contagiante, foi um comunista e artista de grande sensibilidade, retratando os camponeses, seu trabalho e luta contra o latifúndio, demonstrando assim compreender o elevado papel dessa classe na revolução brasileira. Um dos quatro filhos de Gontran, Pedro Guanes, nascido na França durante o exílio do pai, é um admirador da arte e da vida desse importante artista.

Gontran na abertura
da exposição Paysans
Gontran na abertura da exposição 'Paysans'

— Defino meu pai em quatro palavras: artista, militante, combatente e resistente. Posso dizer que ele não é meu pai somente, ele é pai de muitos. Além dos filhos biológicos tem os filhos ideológicos, e ele nunca fez diferença de todos os filhos ideológicos: os camaradas, os amigos, os apreciadores da sua obra – declara Pedro.

— Eu costumava brincar com ele dizendo que achava meio arrogante quando ele falava que era “anônimo da consciência universal”, mas, hoje entendo isso. Realmente meu pai além da alegria que tinha, era um humano, com toda a nobreza da palavra. E isso é uma coisa muito forte que eu senti nas homenagens que fizeram durante seu funeral – conta.

— Todas as coisas que estão acontecendo agora que ele faleceu, as pessoas que estão falando sobre ele, os amigos, as homenagens, enfim, em tudo percebo a força de um ser humano que acreditava na humanidade. Ele colocava a sua arte e sua militância na frente de si mesmo – diz.

Gontran costuma não assinar suas obras, não se importando com possíveis sucessos e glórias.

— Acredito que esse anonimato não era natural em si, ele surgiu depois do AI-5, que fez com que meu pai e outros artistas brasileiros tivessem que ir para a clandestinidade, e suas obras, é claro, não poderiam ser assinadas. Nessa época ele até passou a produzir usando o codinome André, porém, passado esse momento, ele deu continuidade ao anonimato – conta Pedro.

— Ele passou a aceitar que o reconhecimento não era pela pessoa e sim pela mensagem que a pessoa vinculava. Ele não aceitava essa coisa da glorificação do artista. Ele se via como um porta-voz de uma mensagem, e não tinha que ser glorificado pela mensagem que portava, que no caso era a mensagem de sofrimento dos povos oprimidos – diz.

— E quando começou a fazer as obras do metrô de São Paulo, foi marcante para mim o fato dele não assinar por acreditar que a obra era coletiva: pessoas davam suas opiniões e ele absorvia e colocava no quadro. Dessa forma ele achava que teve influência desses anônimos em cima da sua pintura, então a obra não era só dele, foi uma realização coletiva, foi porta-voz de uma consciência coletiva – fala.

Gontran com seu filho, Pedro
Gontran com seu filho, Pedro

Foi exatamente por conta desse admirável painel que retrata as massas camponesas em luta pela terra, painel exposto na estação do metrô de São Paulo, que o jornal A Nova Democracia teve seu primeiro contato com Gontran em 2009. No mesmo ano, o pintor recebeu-nos em sua residência e ateliê, em Itapecirica da Serra, e participou das inaugurações de nossa sucursal em São Paulo e sede do Rio de Janeiro, para a qual doou um belo painel em quatro partes, que se encontra até hoje instalado em nossas dependências.

Arte e engajamento político: foco principal

Pedro diz que a família também ficava em segundo plano diante da arte e ideologia política de Gontran.

— Como filho, posso afirmar que durante muitos anos isso foi uma coisa até muito difícil de lidar: as mulheres, os filhos, todo mundo passava em segundo plano, porque primeiro era a arte e o engajamento. E, na verdade, a arte era o engajamento político. Ele nunca fez uma obra que não fosse engajada, via as duas coisas interligadas. Para ele a luta de classes e o combate era uma coisa obrigatória – conta.

— Para se ter uma ideia disso, quando ele estava no hospital fazendo a reabilitação, eu conversei com ele sobre voltar a pintar, e ele disse: “voltar a resistir”. [Para Gontran, pintar era uma ato de resistência]. Eu perguntei “como assim?”, e ele me respondeu: “porque a resistência nunca acaba”. Eu afirmei que ele estava debilitado e o indaguei então sobre como ele continuaria. Ele respondeu: “resistir não é uma opção, é uma obrigação” - recorda.

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