O assassinato de Marcondes Namblá esconde mais que preconceitos

A- A A+

O assassinato de Marcondes Namblá, indígena do povo Xokleng Laklãnõ em Santa Catarina, ocorrido no primeiro dia deste ano (a morte foi confirmada no dia seguinte), pelo assassino confesso, preso no dia 12 de janeiro, Gilmar César de Lima, no Balneário de Penha (SC) é revelador de um processo de violência sistemática contra os povos indígenas.

Luiz Fernando Ne-gatxá Patté
Assassinato de liderança revela violência histórica contra indígenas (foto: Luiz Fernando Ne-gatxá Patté)
Assassinato de liderança revela violência histórica contra indígenas

A investigação não está concluída, motivo pelo qual não há como apontar o motivo do assassinato. O delegado responsável pelo caso, em pronunciamento à imprensa, apenas informou extra-oficialmente que o motivo teria sido torpe, resultado de a vítima ter molestado seu cachorro. Hipótese contestada por familiares, amigos e lideranças das comunidades indígenas, já que o assassino conhecia a vítima e frequentava a terra indígena. No momento, apenas o delegado acredita nessa versão. Nosso objetivo não é especular sobre os motivos do caso concreto, mas buscar compreender o fato em contexto mais amplo.

Caso semelhante ocorreu em 30 de dezembro de 2015, quando o bebê Vitor Pinto Kaingang, que ainda amamentava no colo da mãe, foi brutalmente assassinado por Matheus Ávila Silveira, condenado a 19 anos de prisão - fato denunciado em AND 164. O assassino alegou problemas mentais e foi classificado como crime torpe. Os contextos se assemelham, já que os dois ocorreram fora das terras indígenas quando as vítimas (no caso de Vitor, os pais) estavam trabalhando na praia durante a temporada de verão e as cidades litorâneas, palco dos crimes, distam cerca de 200 km.

Contextos de violência

Os povos indígenas no sul do Brasil (Guarani, Kaingang e Xokleng) vivem contextos particulares de violências. Região em que a colonização concluiu o roubo das terras indígenas ainda no século XIX, restou a eles pequenas frações de seus antigos territórios. Inclusive nas terras reservadas a redução foi paulatina, como a extinção de várias glebas, transferências e assassinatos de lideranças que se opunham aos processos, de modo que atualmente os indígenas ocupam menos que 0,50% do sul do Brasil. A efetiva recuperação das terras a partir da década de 1970 pouco alterou o quadro atual das ocupações. Estima-se que há outros 0,50% de terras em processo de demarcação paralisadas na esfera administrativa ou judicial, que se demarcadas alcançariam cerca de 1% das terras no sul do Brasil. No total são aproximadamente 150 terras, sendo que apenas 45% delas estão demarcadas, mas isso não significa ainda a posse das mesmas pelas comunidades.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait