Cidade de Deus protesta contra matança de pobres

A- A A+

No Rio de Janeiro, o ano mal começou e os gerenciamentos de turno já mostraram como pretendem tratar os pobres em 2018: aprofundando a guerra civil reacionária contra o povo, sitiando territórios e tornando cada dia mais insuportável a vida dos milhões de trabalhadores que habitam estas áreas. Somente em janeiro, 380 tiroteios foram registrados em todo o estado. Na favela Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, foi registrado ao menos um tiroteio por dia. Segundo o aplicativo Fogo Cruzado, foram 36 situações de confronto entre policiais e traficantes varejistas do dia 1º ao dia 31 de janeiro.

Pedro Teixeira
No Vidigal, ônibus é incendiado por manifestantes após criminosa operação policial (foto: Pedro Teixeira)
No Vidigal, ônibus é incendiado por manifestantes após criminosa operação policial

E foi exatamente no último dia do mês de janeiro que a paciência dos moradores da Cidade de Deus se esgotou. Por volta das 7h da manhã, policiais militares do 18º Batalhão (Jacarepaguá) chegaram à favela enquanto milhares de crianças e trabalhadores deixavam o local. Não demorou muito para começar um intenso tiroteio, que terminou com três mortos e várias pessoas feridas. Um dos mortos, identificado como Rodolfo Pereira da Silva, chegou a ser levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Cidade de Deus, mas morreu antes de chegar ao local.

Alguns minutos depois que PMs deixaram a favela, moradores bloquearam a Linha Amarela — uma das principais vias expressas da cidade — e ergueram barricadas para retardar a chegada da polícia. Pneus e caixas foram incendiados na via. Policiais tentaram reprimir manifestantes, mas foram respondidos com pedras e fogos de artifício. Foi o prenúncio de um ano de mais violência do Estado contra o povo, mas também de resistência das massas e levantamentos da população pobre contra a carestia e a opressão.

Mais ataques contra o Jacarezinho

No dia 12 de janeiro, o delegado de polícia Fábio Monteiro foi encontrado morto e com marcas de tiros dentro do porta-malas de um carro a mais de 500 metros da favela do Jacarezinho, ao lado do viaduto de Benfica, na zona norte do Rio. Apesar da distância entre o local e a favela, o crime foi a senha para que 250 policiais de todas as 31 delegacias especializadas do Rio de Janeiro invadissem o Jacarezinho despejando todo seu ódio contra o povo e sua sanha de vingança contra os mais de 100 mil trabalhadores que vivem no local.

No fim da tarde, cerca de 40 pessoas foram levadas presas em fila indiana sob a mira dos fuzis de policiais até a Cidade da Polícia, que fica a 100 metros dali. Contra elas não havia nenhuma acusação. No entanto, os presos só foram liberados na tarde do dia seguinte. Um deles, que preferiu não se identificar, enviou uma mensagem à reportagem de AND pelo Whatsapp.

— Quando começou o tiroteio, eu entrei em uma loja e fiquei aguardando a chuva de balas passar. Quando vi que estava tudo tranquilo, saí caminhando. Foi quando eu escutei lá do fundo: “Entra porra! Cambada de vagabundos! Levanta a blusa!”. Eu disse a ele [o policial] que não precisava ser agressivo, pois eu era trabalhador e mostrei o cartão da empresa onde trabalho. Foi quando ele me deu um chute na perna e jogou o meu cartão no chão — denuncia o montador de móveis.

— Eu encostei na parede e mandaram eu entrar para uma fila, onde tinha gente com uniforme da Casas Bahia, metalúrgicas, pessoal com roupa de uma loja de açaí. Disseram que eu era suspeito, mas suspeito de quê? Suspeito de ter colocado um parafuso a menos no guarda-roupas? Suspeito de ter demorado 30 minutos a mais na montagem de um painel? E os rapazes do açaí? Será que colocaram granola ao invés de amendoim? Eu fui andando na fila e eles gritavam “olha para baixo, porra!”. O homem que estava na minha frente levou um tapa na cara. E assim íamos, alguns homens debaixo de porrada, e algumas mulheres debaixo de xingamentos baixíssimos. Será que minha escolha de ser trabalhador foi errada? — pergunta a vítima.

Foram dias de operações, com inúmeros relatos de invasões de casas e estabelecimentos comerciais. Um homem, disse que dois computadores foram roubados de sua tabacaria por policiais que, segundo ele, estavam visivelmente alterados.

— Quando eles saíram, eu entrei torcendo para que não tivessem mexido em nada. Quando cheguei lá dentro, vi que tinham levado dois computadores e destruído a loja toda. Eu entrei em desespero e fui atrás, mas por causa dos tiros preferi voltar. Para eles todo favelado é bandido, animal. Estou revoltado — diz o homem em mensagem à redação.

— Eu nunca tinha visto uma demanda tão grande de moradores querendo vender e alugar suas casas e sair da comunidade, o povo está com muito medo. Violência tem em tudo que é lugar, eu concordo. Mas nós queremos viver em um lugar onde possamos ser respeitados como cidadãos, onde a polícia não vai entrar na sua casa e sair quebrando tudo, se escondendo e outros absurdos que sabemos que acontecem — diz o morador Carlos Regis pelas redes sociais.

No dia 30 de janeiro, uma operação da Polícia Civil com cerca de 300 agentes das forças de repressão, resultou em ao menos três mortes e um intenso tiroteio que aterrorizou os moradores.


Semana de terror na Rocinha

No dia 25 de janeiro, moradores do Morro da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, viveram horas de terror nas mãos das mais letais tropas da polícia do Estado. Logo pela manhã, enquanto milhares de crianças saiam de casa para a escola e trabalhadores saiam para mais um dia de labuta, 300 policiais do Choque, Bope e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) invadiram a Rocinha dando início a um interminável confronto com traficantes varejistas.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

No início da tarde, o confronto se alastrou para a favela vizinha do Vidigal, onde quatro moradores foram baleados. Líderes comunitários enviaram fotos e relatos à redação de AND dando mostras do desespero vivido por moradores durante quase seis horas de tiroteios. Revoltados, moradores incendiaram um ônibus na avenida Niemeyer no final da tarde.

— O que mais querem de nós? Se querem melhorar a vida dos moradores que seja com a paz, com a garantia dos direitos básicos de cidadania e não com fuzil na nossa cara. Que venha a Light e conserte à eletricidade, que a Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro] libere nossa água, que a Oi conserte os telefones, que o saneamento chegue em nossas casas. Fora isso é genocídio — protesta o morador Davison Coutinho pelas redes sociais.

Nos dias seguintes, as operações continuaram acontecendo e os relatos desesperados de moradores infestaram as redes sociais e os noticiários de TV. Em mensagem pelo Whatsapp um homem, que preferiu não se identificar, enviou um relato e fotos dos estragos que os tiros fizeram em sua casa no dia 30 de janeiro. Ele morava na Rua 2, na localidade Pocinho, e disse que teve que se arrastar pelo chão de casa para proteger sua esposa e filhos.

— A cena era chocante. Um mar de cápsulas, carcaças de bombas, corpos e restos de corpos, casas pegando fogo. Só no beco em que eu morava havia quatro mortos. Eu e minha família nascemos de novo. Morei 29 anos na Rocinha, mas agora não consigo mais — diz o homem, que se mudou da Rocinha dias depois.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, de 18 de setembro de 2017 a 31 de janeiro de 2018, 37 pessoas foram mortas pelas polícias do estado somente no Morro da Rocinha.

tag:

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait