Uma carta de Graciliano Ramos

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Murilo Miranda,

Estou muito agradecido a você, aos membros do júri que me conferiu o prêmio Lima Barreto, aos colaboradores que, no último número da Revista, contribuíram para melhorar a situação dum romance que nasceu infeliz e arrasta nas prateleiras das livrarias uma existência bastante precária. Se, depois de tantos trabalhos e tantos artigos, ele continuar inédito, a culpa não terá sido dos generosos amigos que tencionaram publicá-lo: você, Aníbal Machado, Álvaro Moreyra, Mário de Andrade, Rubem Braga, Peregrino Júnior, Tavares Bastos, Oswald de Andrade, Emil Farhat, Jorge Amado, Aydano do Couto Ferraz, Bezerra de Freitas, João da Silva Mello, José Bezerra Gomes, Paulo Saraiva, Portinari, Adami e o misterioso Nicolau Montezuma...2

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Esse caso do prêmio Lima Barreto é diferente dos outros. Parece que não houve precisamente a intenção de julgar um romance nem de saber se o autor dele poderia fazer trabalho menos mau. Estou convencido de que me quiseram dar uma compensação. Aníbal Machado, Álvaro Moreyra e Mário de Andrade desfizeram agravos e combateram moinhos reais. Eu estava sendo triturado por um desses moinhos. E a solidariedade de alguns intelectuais brasileiros teve para mim significação extraordinária.

Refletindo bem, penso que o prêmio não foi concedido a mim, mas a várias centenas de criaturas que se achavam como eu3. Não se tratou de literatura, evidentemente. O que não quer dizer que, achando a decisão injusta, como acho, eu não considere um ato de coragem indispensável num momento de covardia generalizada, ato imensamente útil, se não a mim, pelo menos a outros, que poderão respirar com alívio e dizer o que pensam.

Abraços de Graciliano Ramos

Rio, 11 de junho de 1937


Notas

1. Escrito como agradecimento público ao prêmio literário Lima Barreto, que em 1937 foi concedido ao romance Angústia. Este prêmio cumpriu papel de desagravo político, pois Graciliano há pouco saíra da cadeia. Retirado da coletânea Garranchos.

2. Nicolau Montezuma era o pseudônimo de Carlos Lacerda, então, jovem jornalista ligado ao PCB. Os demais intelectuais colaboraram com a Revista Acadêmica, de maio de 1937, inteiramente dedicada à obra de Graciliano.

3. Referência aos presos políticos do regime de Vargas. Nesse momento, caminhava-se para a instalação do Estado Novo, o que ocorreria no final daquele ano.

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