Graciliano Ramos: o ciclo ficcional

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http://anovademocracia.com.br/205/19.jpg“Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. (...) Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital, coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis – Caetés, publicado em 1934, S. Bernardo em 1934, e Angústia em 1936. Evidentemente isso não dá para uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances”. 

Os anos de formação

Quando tinha dez anos, Graciliano foi iniciado na literatura pelo tabelião Jerônimo Barreto, um sertanejo que contava histórias de Robespierre e tinha muitos livros em casa. Suas primeiras crônicas apareceram em 1915 (nessa época morava no Rio de Janeiro), nos jornais Parayba do Sul e Jornal de Alagoas. Obrigado a retornar para Palmeira dos Índios (AL), devido a uma tragédia familiar (perdeu três irmãs vitimadas por um surto de peste bubônica), colaborou, no princípio dos anos de 1920, no jornal local Os Índios. Entre o fim da década de 1920 e início da década de 1930 desempenhou diferentes funções públicas em Alagoas: diretor da Junta Escolar de Palmeira dos Índios em 1926, prefeito da mesma cidade entre 1927-1930, diretor da Imprensa Oficial de Alagoas entre 1930 e 1931 e diretor da Instrução Pública de Alagoas entre 1933 e 1936. Somente o primeiro cargo foi cumprido sem maiores sobressaltos: dos demais, ou renunciou ou foi exonerado, por chocar, com suas medidas e posicionamentos, alguns interesses das oligarquias locais. Graciliano foi, realmente, uma figura sui generis a frente destas instituições.

Dois exemplos: como responsável pela instrução pública, suprimiu o canto do Hino de Alagoas nas escolas, por “emburrar os alunos”; determinou o fornecimento de uniformes e sapatos às crianças; instituiu a merenda escolar (isso só se tornaria lei federal vinte anos depois); efetivou as professoras rurais, equiparando-as às filhas de famílias abastadas que lecionavam na capital. Antes disso, como prefeito, desafiou os interesses dos latifundiários locais ao questionar os seus métodos brutais de roubos de terras. Em relatório ao governo do estado de Alagoas sobre as atividades da prefeitura, entre 1928-1930, dizia: “Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”.

Não só pelo conteúdo, mas pela forma literária, estes relatórios causaram sensação e foram publicados pela imprensa. Nesta época Graciliano já trabalhava em seu primeiro romance, Caetés, que tem como pano de fundo as querelas e o ambiente opressivo de cidade pequena, como a Palmeira dos Índios de seu tempo. Lançado em 1934, este livro seguro, sério, apenas indicava o autor que, nos anos seguintes, revolucionaria a literatura brasileira, publicando uma sequência quase inacreditável de obras-primas, enquanto a sua própria vida virava pelo avesso.

O ciclo ficcional

Graciliano escreveu São Bernardo na torre de uma igreja vazia, durante a convalescença de complicada cirurgia na barriga, em época de desemprego. É a história de Paulo Honório, um “cabra criado no eito”, alfabetizado na cadeia, obcecado por tornar-se um grande proprietário. Quando consegue apropriar-se das terras de São Bernardo, casa-se com Madalena, uma professora de ideias progressistas, que se recusa a ser apenas mais uma das propriedades do marido. Disso, nascem ciúmes, tormentos e, por fim, a desestabilização completa do aparentemente inabalável protagonista. Como pano de fundo daqueles conflitos, a formação do latifúndio pela subjugação ilimitada da massa camponesa, que vive sob um despótico sistema de opressão semifeudal. Nas suas terras, Paulo Honório é prefeito, juiz, chefe de polícia e padrinho.

A linguagem de São Bernardo é concisa e extraordinariamente viva. Lendo-o, acreditamos mesmo que tenha sido Paulo Honório quem o escreveu. Sobre o processo criativo desta obra, disse Graciliano:

“O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para o brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. (...) O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários.”1.

Aqui já aparece uma crítica que Graciliano faria repetidas vezes aos autores da cidade: estes buscavam emprestar aos seus personagens do campo uma linguagem que lhes era estranha, postiça, enfraquecendo a sua ficção. Qual a fonte viva da linguagem popular, afinal? As próprias massas, apontadas nesta carta como “dicionários de brasileiro”. Isso não significa menosprezo à norma culta da língua, que Graciliano dominava solidamente, mas o seu enriquecimento pela experiência direta junto ao povo.

*

No atribulado ano de 1936 apareceria o livro Angústia, publicado durante a prisão do seu autor. Nise da Silveira e Eneida de Morais, companheiras de cárcere, organizaram uma pequena cerimônia de lançamento na enfermaria do presídio, junto a Heloísa Ramos, esposa de Graciliano.

Segundo Nelson Werneck Sodré, trata-se de “um romance difícil e denso, livro importante em nossa história literária, profundo, sério”2. A história articula-se em torno de três personagens: Luís da Silva, o protagonista-narrador, filho de uma família de senhores de terras decadentes que exerce funções públicas modestas na cidade; Marina, uma mulher jovem, cheia de sonhos, sua vizinha e futura noiva; Julião Tavares, sujeito rico, “reacionário e católico”, que atravessa o romance de Luís da Silva, seduz Marina, engravida-a e depois abandona-a. Na aparência, uma estória simples, com temática tantas vezes abordada; na essência, um livro excepcional, que sobre base tão singela tece duras críticas à ordem vigente, contando várias estórias simultaneamente. Aparecem referências explícitas ao golpe de 1930, à repressão política então desatada, como neste trecho, narrado pelo protagonista:

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“Muitos crimes depois da revolução de 30. Valeria a pena escrever isto? Impossível, porque eu trabalhava em jornal do governo. Moisés se tinha ausentado: a polícia incomodava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam baixo.”.

Em outros trechos, a carestia de vida, a intelectualidade corrompida. A condição feminina também se destaca, como um dos fios condutores do romance. No final, Luís da Silva mata Julião Tavares, enforcado, o que não poderia ser mais significativo. Conta-se que Sobral Pinto, advogado dos presos políticos, teria dito a Graciliano durante uma visita na cadeia: “Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo”. Angústia é mesmo um livro que, desde o título até a última página, recria o pesado ambiente do período marcado, no plano interno, pela repressão feroz que se seguiu ao Levante Popular de 1935 e, no plano externo, pela ascensão do fascismo. Esta preocupação com as grandes questões do seu tempo, fonte também de inspiração, aparece em carta a Heloísa:

“O meu Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 – e eu só penso nos romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar.”.

Pois esta fornalha, e somente ela, poderia gerar obras deste quilate, feitas de “sangue e carne”.


Notas:

1. Ver a compilação “Cartas”.

2. Ver, deste autor, “Em defesa da cultura”, ótima referência para o estudo da literatura brasileira da época.

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