João do Vale, a voz do povo

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Meu samba é
a voz do povo

Se alguém gostou
eu posso cantar de novo

Em 11 de outubro de 1933, no Lago da Onça, município de Pedreiras, Maranhão, nascia o quinto filho de Cirilo e Leovigilda. “Meu nome é João Batista Vale. Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou é Ribamar. Eu saí Batista. Nasci na cidade de Pedreiras, Rua da Golada. Modéstia à parte, a Rua da Golada, hoje, chama rua João do Vale”*.

João do Vale

Para reforçar o caixa doméstico, ainda criança, vendia bolos, pirulitos, carregava água, vendia frutas, fazia pequenos serviços. Seu sonho era estudar, mas não pôde realizá-lo. Chegou a iniciar os estudos, mas foi impedido de dar prosseguimento, forçado a ceder seu lugar na escola ao filho de um coletor de impostos recém-chegado em Pedreiras.

Mudou-se com a família para a capital São Luiz, onde vendia frutas na feira da Praia Grande. Juntava um pouco de tudo que via e ouvia para compor seus primeiros versos, cantados no “Linda Noite”, grupo local de bumba-meu-boi. O jovem João Pé de Xote, como era conhecido, alegrava a todos com suas pernas tortas e seu bailado inconfundível. Apesar de gago, cantava muito bem e poucos sabiam dessa sua característica.

Era irrequieto, amigo de todos, com uma rara percepção para as anedotas, mas também para os sérios problemas de seu povo e de sua terra.

“Minha terra tem muita coisa engraçada, mas o que tem mais é muita dificuldade pra viver. Mas a coisa que mais ficou gravada na minha memória desse tempo foi o negócio do Aralém. Quando o rio Mearim enche, dá sempre a sezão, febre de impaludismo. Lá em casa, meu avô estava com a sezão. Ele era bem velho, tinha sido escravo. O remédio que cura a febre é o Aralém. É dado pelo governo. Mas chega lá, os chefes políticos dão pra quem é cabo eleitoral deles. Eles vão e trocam o Aralém por saco de arroz. Lembro que muita gente fez isso. Muita gente. Ficou marcado isso em mim, ver um saco de arroz que custou dois meses de trabalho capinando, brocando, ser trocado com um pacotinho com duas pílulas que era pra ser dado de graça”, comenta João do Vale.

João do Vale

Também sonhava em se mudar para “o Sul”, ir para o Rio de Janeiro. E João fugiu com o circo. Mas sua aventura circense foi curta. Abandonou a trupe em Teresina (PI) e empregou-se como ajudante de caminhão. De boleia em boleia, chegou a Salvador (BA), onde ficou por algum tempo e aprendeu o ofício de pedreiro. De lá para Minas Gerais, arriscou-se no garimpo, em Teófilo Otoni. “Cavei, cavei buraco de três, quatro metros no chão. Cristal não achei, Pedra Azul também não. Achei foi formigueiro. No quinto formigueiro desisti de ser rico e vim de ajudante de caminhão até o Rio.” .

Em dezembro de 1950, então com 17 anos, trabalhava e dormia em um canteiro de obra em Copacabana. “Me empreguei numa obra como ajudante de pedreiro. Dormia na obra, só saía de noite. Sem família, sem amigo, sem ninguém.” .

Noite após noite, ia até uma emissora de rádio para mostrar suas músicas. O ainda pouco conhecido Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, impressionou-se à primeira vista com as composições daquele pedreiro matuto. O cantor Luís Vieira resolveu dar atenção às insistências de João do Vale. Tornaram-se amigos e parceiros cuja obra mais famosa é o Xote Na Asa do Vento. Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga, também gravou uma canção sua dando impulso ao seu início de carreira. João era cantado, mas ainda desconhecido. Certa vez, ao ver uma mulher na janela de casa ouvindo Estrela Miúda, um sucesso nacional cantado por Marlene (uma conhecida cantora do Rádio) ele perguntou à mulher se ela sabia quem era o compositor. Quando disse que era dele aquela música, a mulher o olhou incrédula.

João do Vale com Clara Nunes e Chico Buarque
Com Clara Nunes e Chico Buarque

Suas composições foram ficando conhecidas e ganharam espaço na indústria do cinema, integrando a trilha sonora de vários filmes. E por falar em filme, João também foi ator. Fez pontas em Mãos Sangrentas, de Carlos Hugo Christensen e No Mundo da Lua, de Roberto Farias.

Compôs em profusão. Há quem diga que foram mais de quatrocentas músicas. Algumas nem foram gravadas. Muitas ele vendeu. Outras converteram-se em sucessos estrondosos como Peba na Pimenta, em parceria com José Batista e Adelino Rivera, Coroné Antônio Bento com Luís Vanderlei e gravada por Tim Maia, A Voz do Povo, com Luís Vieira, O Canto da Ema, com Ayres Vianna e Alventino Cavalcante, Zé da Onça, Minha História, O Segredo do Sertanejo (Oricuri), Sina do Caboclo, e muitas outras.

Em 1964, foi apresentado por Zé Kéti ao consagrado sambista Cartola e a Dona Zica, proprietários do restaurante Zicartola. E foi no palco do Zicartola que João do Vale teve sua estreia como cantor das multidões. Impressionado com a desenvoltura daquele maranhense que dançava xote e cantava maravilhosamente, Oduvaldo Viana Filho, um dos idealizadores do “Show Opinião”, o convidou para compor seu espetáculo junto de Zé Kéti e Nara Leão.

A voz do povo

Meu samba é a voz do povo
Se alguém gostou
Eu posso cantar de novo
Eu fui pedir aumento ao patrão
Fui piorar minha situação
O meu nome foi pra lista
Na mesma hora
Dos que iam ser mandados embora
Eu sou a flor que o vento jogou no chão
Mas ficou um galho
Pra outra flor brotar
A minha flor o vento pode levar
Mas o meu perfume fica boiando no ar

Estreia no teatro de um shopping em Copacabana, em 1965, o espetáculo musical “Show Opinião”. Apesar de não ser o grande revelador do talento de João do Vale, foi o “Show Opinião” que deu a sua voz a imagem e o movimento que o tornaram conhecido nacionalmente. Carcará, uma parceria sua com José Cândido, foi imortalizada no espetáculo pela impactante interpretação de Maria Bethânia - que substituiu Nara Leão no espetáculo: “Carcará, pega, mata e come!”. No “Show Opinião”, João do Vale contou e cantou sua história. Sua presença, encarnando o camponês e o operário, foi fundamental para este que foi um importante palco de resistência da cultura popular contra o regime militar-fascista.

João do Vale em dueto com Gonzaguinha, década de 1980
João do Vale em dueto com Gonzaguinha, década de 1980

Com o fim do “Show Opinião”, e sob a constante censura e perseguições, João do Vale não conseguia gravar discos, deixou os holofotes e os palcos e passou por dificuldades financeiras. Mas isso não foi obstáculo para que mantivesse estreito vínculo com seu povo, compondo e resistindo como podia. Manteve presença militante junto aos movimentos populares de resistência ao regime militar. Em 1978, participou do ato de apresentação da chapa de oposição do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem e cantou para os trabalhadores.

Sina do caboclo

Mas plantar pra dividir
Não faço mais isso, não.
Eu sou um pobre caboclo,
Ganho a vida na enxada.
O que eu colho é dividido
Com quem não planta nada.
Se assim continuar
vou deixar o meu sertão,
mesmo os olhos cheios d’água
e com dor no coração.
Vou pro Rio carregar massas
Pros pedreiros em construção.
Deus até está ajudando:
está chovendo no sertão!
Mas plantar... (refrão)
Quer ver eu bater enxada no chão,
com força, coragem , com satisfação?
É só me dar terra pra ver como é:
eu planto feijão, arroz e café;
Vai ser bom pra mim e bom pró doutor.
Eu mando feijão, ele manda trator.
Vocês vai ver o que é produção!
Modéstia à parte, eu bato no peito:
eu sou bom lavrador!
Mas plantar... (refrão)

No começo dos anos de 1980 se apresentou e foi o mestre de cerimônias da casa de espetáculos Forró Forrado, no Rio de Janeiro. Promoveu arte e música de qualidade para os frequentadores da casa, muitos trabalhadores e gente simples como ele. Frequentaram o palco do Forró Forrado: Mercedes Sosa, Chico Buarque, Clara Nunes, Nara Leão, Gonzaguinha, Fagner, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Dolores Duran e outros grandes nomes.

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No final de sua profícua vida, João do Vale sofreu com os males do alcoolismo. Em 1986, um primeiro acidente vascular cerebral golpeou rudemente sua mente brilhante. E ele ainda sofreria um segundo derrame. De volta a Pedreiras, em uma cadeira de rodas, reuniu-se aos seus amigos e familiares. Encarava com serenidade as dificuldades que o impossibilitava de compor: “já tenho muitas músicas”, dizia.

Jamais esqueceu seu torrão natal. Sua terra, seus amigos de infância, os bichos e plantas, os lugares onde viveu e por onde passou são os protagonistas de suas canções. Nos intervalos entre os espetáculos e apresentações, João do Vale retornava sempre a Pedreiras. Gostava de sentar-se nos botequins e recordar as histórias. Era o João Batista que jamais deixou de ser. Então eu voltei pra Pedreiras. Fui recebido como se eu fosse o presidente. Puseram meu nome na rua da Golada. Foi tudo bem, menos minha terra, que continuava a mesma depois de todo esse tempo.” .

Minha Historia

Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
Minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção
Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:
- O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
- O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
Hoje todo são “doutô”, eu continuo João ninguém
Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
Ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
Ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
E dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz
E dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz
Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
Que também foram meus colegas, e continuam no sertão
Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião

Parece inacreditável, mas João do Vale, pessoalmente, gravou apenas um disco, em 1965. Algumas coletâneas de música popular também reúnem seus maiores sucessos. Num grande gesto de solidariedade ao músico e compositor, que enfrentava dificuldades e problemas de saúde, dois outros discos foram gravados em 1981 e 1994, com músicas suas interpretadas por Chico Buarque, Gonzaguinha, Alceu Valença, Paulinho da Viola, Geraldo Azevedo, João Bosco, Ednardo, Miúcha, Fagner, Nara Leão e outros importantes nomes da música brasileira.

João do Vale faleceu num hospital de São Luiz, em 6 de dezembro de 1996.

João Batista, João Pé de Xote das rodas de bumba-meu-boi, João do circo e garimpeiro de formigueiros, João que rodou meio mundo batendo enxada, em boleias de caminhão, carregando cimento nas obras em construção. João do Vale, incomparável poeta, repentista, ator, compositor, cantor de envergadura maior que a do Carcará! E muita gente desconhece...


*As citações foram extraídas de Opinião, texto completo do Show, Edições do Val, Rio de Janeiro, 1965.

Pesquisa:

“João do Vale, Muita Gente Desconhece”, documentário com roteiro de Miriam Cris Carlos e dirigido por Werinton Kermes, 2005; “Pisa na Fulô, mas Não Maltrate o Carcará - Vida e Obra de João do Vale”, livro de Márcio Paschoal, editora Lumiar, 2000.

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