Vidas Secas: ‘o grande romance sertanejo’

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Graciliano Ramos, o ciclo ficcional (continuação)

— Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Sabe como elas fazem?

— Não.

— Elas começam com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam, e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.

Graciliano Ramos, conversa com o jornalista Joel Silveira.

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Vidas secas narra como a semifeudalidade seca, endurece,flagela e empobrece o sertanejo
Vidas secas narra como a semifeudalidade seca, endurece,flagela e empobrece o sertanejo

Graciliano Ramos foi libertado da prisão em 13 de janeiro de 1937, após dez meses de encarceramento. Jamais foi interrogado e nenhuma denúncia foi apresentada contra ele. Este foi o caso, aliás, de numerosas pessoas detidas pela todo-poderosa polícia política comandada por Filinto Müller. Conta-se que Vargas, instado a libertar o autor de Angústia, teria dito: “Neste caso de comunismo eu não mandei prender ninguém, mas também não mando soltar ninguém”1. Anos mais tarde, em Memórias do Cárcere, Graciliano diria sobre ele, sarcasticamente: “Era um prisioneiro como nós; puxavam-lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais”.

Não nos deteremos sobre este ponto agora. O que importa é notarmos as condições de Graciliano nesta época: desempregado, fichado pela polícia, com família numerosa para sustentar. Ainda preso, decidira-se a não regressar para o Nordeste e viver de literatura. Passaria a compor, como um operário, contos e crônicas para diferentes veículos de imprensa, de resto, nem sempre suficientes para cobrir as parcas necessidades. Escritor consagrado, moraria em pensão modesta no Catete, em companhia de jovens estudantes ou intelectuais em princípio de carreira.  

Instado a participar de um concurso de contos infantis do Ministério da Educação e Cultura (que ganharia com a obra A terra dos meninos pelados), topou com o então Ministro, Gustavo Capanema – um dos próceres do futuro Estado Novo – no elevador do MEC, no dia da inscrição. Registrou assim este episódio em carta a Heloísa: “Zélins (José Lins do Rego) acha excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje(Colônia Correcional de Dois Rios, a terrível prisão de Ilha Grande) e fale com ministros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro”2.

Neste período de privações, escreveria, em tempo relativamente curto, o monumental Vidas secas,publicado em 1938. Trabalho inovador pela sua técnica, pois cada capítulo possui independência dentro da obra, constituindo-se como um  “romance desmontável”. Contudo, a totalidade do texto não se perde, firmemente tecida pelas mãos habilidosas do seu autor. Inovação devida, talvez, menos a uma preocupação estética que aos apuros financeiros de Graciliano:

“A conta da pensão e as despesas duplicadas com a vinda da família o obrigariam a escrever os capítulos como se fossem contos. Era um artifício para ganhar dinheiro, publicando-os isoladamente em jornais e revistas, à medida que os produzia. Às vezes, republicaria o mesmo conto, com título alterado, em outros periódicos”3.

Nesta época, a esposa e duas filhas menores dividiam o quarto de pensão com Graciliano. Sobre as condições precaríssimas em que foi escrito este clássico da nossa literatura, contaria sua filha Clara:

“Além da mesa, solidária com o dono, bamba, uma perna apoiada num dicionário, há no quarto mais duas cadeiras, um armário; uma cama, grande, de casal; outra estreita, solteira. (...) Entre a porta e a parede, a mulher e as duas meninas, Graciliano escreve sua novela. Trabalha de preferência de madrugada. Levanta-se por volta das três horas e entra escrevendo manhã adentro. Pela janela, única, intromete-se uma paisagem de gatos num telhado de garagem. Para que “o velho Graça” possa dormir à tarde, Heloísa leva as crianças à praça do Largo do Machado. (...) Mais quatro pessoas enchem então o espaço exíguo: um vaqueiro, sua mulher, dois meninos. Baleia ressuscitou, anda espalhando os gatos num telhado de garagem”4.

Tamanhas eram as suas privações que não tinha sequer dinheiro para pagar a passagem do seu filho Márcio (fruto do primeiro casamento) de Alagoas para o Rio, onde este buscava tratamento psiquiátrico. Diria, em carta cheia de preocupações:

“É possível a sua entrada numa casa de saúde aqui no centro, mediante a contribuição de quatro mil-réis por dia. Mas como você poderá vir? (...) Por enquanto, isto é o mais difícil”5.

Este é o preço que nosso grande escritor pagava para não se vender ao regime vigente. E, também, por tentar viver da sua arte, em país que, ainda hoje (imaginem naquele tempo), não enxerga a literatura como profissão, mas como passatempo de ricos, ou ofício de cortesãos.

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