Graciliano Ramos e sua condição de revolucionário

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A militância no Partido Comunista do Brasil

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Graciliano Ramos na cerimônia de filiação ao Partido Comunista prestes a entregar o carnê para consumá-la, 1945
Graciliano Ramos na cerimônia de filiação ao Partido Comunista prestes a entregar o carnê para consumá-la, 1945

“O ingresso do maior romancista brasileiro, um dos maiores escritores contemporâneos no PCB é mais uma prova concreta de que não existe divergência entre o conceito individual de liberdade e do trabalho de um romancista com os princípios do Partido Comunista... O romancista que fez a análise em profundidade de tipos e situações sociais da vida brasileira, que escreveu a história do sertanejo na densidade trágica de Vidas secas, caminhava para uma confissão plena e indiscutível, a de que só um Partido Comunista pode lutar contra aquela situação social em que se debate a maior parte dos personagens tão vivamente fixados naqueles romances. Por isto o romancista pede inscrição e é aceito nesse Partido”.

(Jornal Tribuna popular, órgão do Partido Comunista do Brasil, agosto de 1945).

O culminar de uma longa trajetória

Naquele segundo semestre de 1945, Graciliano saboreou alguns acontecimentos mais felizes que os seus inseparáveis cigarros Selma: no mesmo dia em que ingressou no PCB, com ficha de filiação avalizada pelo próprio Prestes, lançou Infância, obra autobiográfica que constitui verdadeira obra-prima no gênero. Antes, no livro Histórias de Alexandre (1938) já havia incursionado, em parte, no universo memorialístico, ao compilar estórias que compõem o folclore nordestino, muitas delas ouvidas nos seus idos tempos de Quebrangulo e Palmeira dos Índios1

Era uma época de avanço das correntes democráticas e revolucionárias em todo o mundo, após a demolidora vitória da União Soviética, dirigida por Stalin, contra o nazi-fascismo. No Brasil, o Partido Comunista, recentemente saído da ilegalidade, gozava de grande prestígio, não só entre as massas de trabalhadores como entre a intelectualidade progressista. O PCB chegou a ter 200 mil filiados, e nos estádios do Pacaembu (em São Paulo) e São Januário (no Rio de Janeiro) multidões aglomeraram-se para saudar Prestes, saído recentemente da cadeia.

A esposa de Graciliano, Heloísa, e seus filhos Ricardo e Clara filiaram-se ao Partido antes do escritor. Em declaração à Tribuna Popular, o “velho Graça” esclareceu nestes termos a sua demora a decidir-se:

“Quando, em 1936, fui viver no Pavilhão dos Primários, na Sala da Capela, na Colônia Correcional de Dois Rios e em outros lugares semelhantes, encontrei os excelentes companheiros que hoje trabalham no Partido Comunista. Sempre me senti perfeitamente ligado a eles, e se até agora me limitei a apoiá-los, sem tomar posição de militante, foi por não saber se poderia ser útil, nesta agitação em que nos achamos, o trabalho de um sujeito que mal sabe contar histórias chochas”.

“Histórias chochas”, imaginem... Na verdade, a paixão pelo socialismo, parafraseando expressão de Jack London, nasceu muito cedo em Graciliano: há relatos de alunos seus, dos tempos de sertão, sobre o entusiasmo com que acolheu a Revolução de Outubro. Nos difíceis anos de 1930, o escritor manteve-se sempre crítico feroz do regime de Vargas, coincidindo plenamente com a posição do Partido Comunista. Seus filhos mais velhos, Márcio e Júnio, militaram nas Juventudes Comunistas nesta época. Mesmo sem ser filiado, sofreu na pele as consequências da repressão ao Levante Popular de 1935, mantendo na cadeia uma dignidade que alguns militantes de carteirinha não souberam conservar. Nesta época conturbada, escreveu à Heloísa, em bilhete:

“A encrenca política está num beco sem saída: ninguém sabe como esta porcaria vai acabar. É melhor pensar em outra coisa. Enfim, tudo vai muito mal, no pior dos mundos possíveis. É preciso que o Alberto endireite isso”2.

“Alberto” é Alberto Passos Guimarães, então secretário político do Partido Comunista em Alagoas.

Está claro que o ingresso em 1945 teve bases sólidas, muito antigas. Quando o Partido voltar à ilegalidade (fim de 1947) e vários de seus militantes forem perseguidos, outros debandarem, Graciliano poderá demonstrar a firmeza de sua decisão, que sustentará até o fim da vida.

A cisão entre os intelectuais

As ilusões acerca de um novo período de “paz e democracia” duraram pouco. No plano externo, em março de 1946, Churchill profere o famoso discurso de Fulton, que marca a hostilidade aberta dos “aliados” contra o campo socialista. É o início da “guerra fria”. No plano interno, a consigna do PCB, de “Constituinte com Vargas”, é de fato derrotada, pois Vargas é deposto por golpe militar e substituído pelo ultrarreacionário general Dutra. Este, que havia sido um dos elementos germanófilos do Estado Novo, converteu-se, durante a guerra, em agente ativo do imperialismo ianque. A repressão aos comunistas então recrudesce: primeiro, ideologicamente, logo, com medidas que culminarão, ao fim de 1947, com a cassação dos seus mandatos parlamentares e a decretação da ilegalidade do Partido. A partir daí, o PCB iniciará um processo autocrítico, acerca das ilusões constitucionais3.

Tudo isto não poderia deixar de refletir entre os intelectuais, como separação entre comunistas e progressistas de um lado e meros oportunistas de outro, que abandonaram o “antifascismo” ocasional assim que os ventos mudaram, não raro substituindo-o por feroz anticomunismo. Graciliano Ramos não apenas tomaria posição inequívoca na luta, como seria levado para o centro da polêmica, através da sua atuação na Associação Brasileira de Escritores (ABDE). O que lhe custaria, inclusive, rupturas com amigos de vida inteira, como José Lins do Rego.

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