A farsa da prisão em massa de ‘milicianos’ no Rio

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Familiares protestaram contra prisões arbitrárias.  Foto: Gabriel de Paiva

O povo pobre sempre foi o alvo das políticas do Estado no suposto combate ao tráfico varejista de drogas. Para responder ao clamor por sangue das classes reacionárias, as polícias mantêm uma permanente operação de militarização e massacre nas favelas e bairros pobres da cidade. No caso dos grupos paramilitares, o modus operandi tem sido o mesmo. Dias depois do anúncio de que as chamadas “milícias” teriam participação no assassinato da vereadora Marielle Franco, policiais civis invadiram um show de pagode promovido por milicianos em um sítio em Santa Cruz, região metropolitana do Rio, e prenderam 159 pessoas.

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Em uma operação atabalhoada, policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) e 35ª DP (Campo Grande), invadiram o evento atirando e matando quatro homens, seguranças do evento. Todos os homens que estavam na festa foram impedidos de sair do local e, em seguida, levados sob custódia para o Complexo de Gericinó, em Bangu. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no afã de alardear resultados da intervenção militar, declarou solenemente que a operação havia sido um duro golpe na “milícia” e que todos os presos tinham envolvimento com o crime organizado.

No entanto, não demorou muito para que parentes dos presos viessem a público comprovar que seus familiares não tinham envolvimento com a milícia, já que o evento era aberto, inclusive com anúncios em rádio e venda de ingressos.

— Estávamos junto com os convidados da banda. Os policiais mandaram que nós deitássemos no chão. Chutaram meu marido na minha frente, perguntaram se ele estava armado e se eu estava escondendo a arma dele. Nos separaram, me levaram para uma cozinha, onde só ficaram as mulheres, que foram liberadas mais tarde. Para que ficássemos caladas, deram tiro para o alto. O que aconteceu ali foi uma humilhação — disse a comerciante Veronilda Galdino, que foi ao evento com o marido, Vinicius Santos Araújo, de 33 anos, um dos presos.

Outro preso na festa foi o técnico de telefonia Edilson Pereira, de 51 anos, que trabalha em uma empresa de instalação de interfones. Na ocasião, ele comemorava o aniversário de 60 anos de uma vizinha.

— Ele levou junto o sobrinho, deficiente auditivo, que só foi liberado pelos policiais porque o Edilson pediu por ele. Ia mais gente da família, mas desistimos de última hora. Poderia ter mais gente presa, porque tínhamos mais convites para o show. O que aconteceu ali foi muito injusto — diz Marli Pereira dos Santos, sua irmã.

O caso que mais chamou atenção foi do repositor de mercadorias Renato da Silva Moraes Júnior, de 23 anos, que trabalha em um sacolão. Segundo familiares de Renato, o rapaz é portador de deficiência mental, o que comoveu o advogado Leonardo Souza, que saiu em defesa do jovem trabalhador e sua família.

— Após 15 anos advogando, mexeu comigo! A lição principal desse caso é que estamos invertendo os valores mais importantes que temos. Existe uma vontade coletiva de punição a qualquer custo, desde que não seja dentro da casa de quem prega esse rigor. Quando o problema é dentro da sua casa, aí os critérios mudam. Quando a constituição não é respeitada vemos este tipo de injustiça — diz o advogado.

No dia 27 de abril, o juiz Eduardo Marques Hablitschek, da 2ª Vara Criminal de Santa Cruz, determinou a soltura de 137 detidos a pedido do Ministério Público do estado. No entanto, somente às 22h do dia seguinte todos os presos haviam sido libertados do Complexo Penitenciário de Gericinó. O jovem Renato foi o último.

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