Folias D'Arte para o povo

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Mais um grupo de teatro surge no cenário da resistência cultural, através de suas peças voltadas para a crítica social. Espetáculos circenses, contato com a comunidade vizinha, debates, oficinas e publicações editoriais, que levam o teatro para quem não pode ir ao teatro, são alguns dos trabalhos desses empreendedores paulistas.

O núcleo fundador do grupo de teatro Folias D'Arte começou em 1995, quando um pequeno grupo de pessoas, entre eles a atriz Renata Zhaneta, o dramaturgo Reinaldo Maia e o diretor teatral Marco Antônio Rodrigues, estrearam o espetáculo Verás que tudo é mentira, uma adaptação livre de Reinaldo Maia do livro de Theòphile Gautier. Mais tarde, a cada trabalho que faziam juntos, outras pessoas se incorporavam a sua atitude.

Com o tempo o núcleo básico foi estabelecido e, a partir da montagem de Cantos Peregrinos, de José Antônio de Souza, em 1996, o grupo sentiu necessidade de se estruturar fisicamente, com sede, telefone, página na Internet, nome, etc. Em 1998, esse grupo de pessoas se assume como uma companhia e assim surge o Folias D'Arte.

Em um galpão abandonado, no Bairro de Santa Cecília, São Paulo, também conhecido como Bairro do Bexiga, a companhia conquistou o espaço para construir sua sede e, após um ano de reforma, em abril de 2000, inaugurou o Galpão do Folias, com a assinatura do cenógrafo J.C. Serroni.

Happy End, uma co-produção com o Grupo Tapa, marcou a inauguração do Galpão do Folias. A peça, escrita em 1929 por Elisabeth Hauptman — colaboradora de Bertolt Brecht — com canções de Kurt Weill e Brecht, se passa em Chicago, USA, durante os anos 30. É um musical brechtiano, que apresenta uma sociedade tomada pelo crime organizado, o proselitismo religioso e as corporações de defesa, todos unidos em prol do crescimento e fortalecimento do capital especulativo — situação do capitalismo contemporâneo. No espetáculo, o gangsterismo americano e a polícia escondem em si agentes de uma economia que trabalha para o lucro máximo com um mínimo de ética.

— Apreciamos a maneira como Brecht levava a termo as suas propostas de direcionamento de um trabalho teatral. Acreditamos que a forma chamada épica nos possibilita um aproveitamento de todos os recursos característicos do teatro, tais como a música, a ópera, o circo, o cinema e, em nossos dias, o vídeo, ou seja, recursos que são originalmente oriundos do fazer teatral e que com o passar da história foram sendo retirados de dentro dele, declara Dagoberto Feliz, um dos diretores do Folias.

Constituído de criadores teatrais, o Folias acredita que o teatro tem função e responsabilidade social que vai além dos espetáculos que produzem. Para eles, a capacidade de transformar a compreensão social e política da realidade em “bens simbólicos”, que a traduzam para os espectadores que querem atingir, é que lhes pode tornar socialmente necessários.

Em sua trajetória já apresentou uma variedade de gêneros: de melodramas à tragédia, sempre mantendo o propósito de espetáculos permeados por uma profunda crítica social. O grupo escolhe seu repertório pela excelência e qualidade do trabalho, não fazendo distinção entre o considerado erudito e o popular. Para tanto, contam com um Conselho Artístico interno que analisa, discute e orienta todo o processo criativo do grupo, além de produzir ensaios, críticas e estudos sobre o seu processo criativo e cênico.

— Acreditamos que ofício de artista está diretamente ligada à presença dele na sociedade em que vive, logo não há como não ser crítico. Somos didáticos no sentido de levantar hipóteses para o espectador tirar suas conclusões. Não didáticos para baixarmos regras de conduta, explica Dagoberto. No currículo do Folias aparecem prêmios como APCA, Molière, Mambembe. Uma co-produção com o grupo Tapa; o Seminário A Cidade Que Queremos; o projeto Estações Teatrais — 1ª Mostra Itinerante de Teatro; além das atuações no Arte contra a Barbárie, o Programa de Fomento ao Teatro e a Mobilização pelo Fundo Estadual de Arte e Cultura de São Paulo, que juntamente com: Companhia do Latão, Tapa, União e Olho Vivo, Monte Azul, entre outros grupos e artistas individuais, lutam a favor da construção de uma política pública democrática, que não deixe a cultura restrita ao simples comércio de entretenimento.

O grupo afirma categoricamente que a política de cultura praticada no Brasil se dá através das leis de incentivo à cultura que, baseadas na renúncia fiscal, transferem para a iniciativa privada o fomento das atividades culturais. Mas, o empresariado só costuma apoiar os eventos artísticos comerciais, deixando de lado tudo aquilo que não considera comercial e que acredita não ter grande visibilidade. Para o Arte Contra a Barbárie, a cultura é prioridade do Estado.

Envolvimento com a sociedade

O Galpão do Folias não foi fundado apenas para ser sede do grupo, mas também como um meio de produção cultural que contribuís-se com a população, trazendo-lhe humanidade e criatividade, e fazendo com que um equipamento cultural, assim como em outras grandes metrópoles do mundo, sirva como instrumento de vitalização, dentro do espaço urbano.

Passado um ano da inauguração do galpão, o grupo iniciou projetos com o intuito de aproximar os moradores de Santa Cecília do seu Teatro. Atualmente conta com um cadastro de trezentos associados-vizinhos, sem considerar dependentes e cônjuges que freqüentam debates, oficinas, festas e espetáculos.

Entre as atividades oferecidas estão o Coro do Folias, o PACA — oficinas de circo para crianças e adolescente — e as oficinas de reciclagem de papel e mosaico, todas gratuitas. Leituras de textos sobre teatro e sobre os espetáculos da companhia, e dos livros O Ator Criador e Brecht Visto da Rua, ambos de Reinaldo Maia.

— Temos um envolvimento bem grande em volta do Galpão. Não tanto ainda quanto desejamos. Queremos que os cidadãos que residem aqui na região apropriem-se desse espaço, pois acreditamos que ele nasceu para ser público. Nós nos propusemos a administrá-lo e fazê-lo existir no que mais achamos que sabemos fazer: teatro. Estamos o tempo todo de nossas vidas pensando nisso. Mas todo esse esforço só valerá a pena se a sociedade compactuar conosco desse ideal,diz Dagoberto. — Com a visão que temos de cultura só poderíamos fazer espetáculos a preços populares. Por exemplo, os moradores da região (Amigos do Folias) cadastrados, pagam em nossos espetáculos, no momento, R$ 5,00 enquanto o preço normal é de R$ 20,00,continua.

Ainda fazendo parte do contato, fora dos palcos, que o grupo se propõe a ter com a sociedade, e desta vez para além do bairro de Santa Cecília, está a publicação editorial quadrimestral do Folias, o Caderno do Folias, que desde 2000 apresenta as programações do grupo, e também serve de espaço para discussão e análise do fenômeno teatral, enfocando diferentes aspectos.

Além do Caderno, o grupo, juntamente com mais cinco grupos de teatro — Companhia do Latão, Fraternal Companhia de Artes Malas-Artes, Parlapatões e Vertigem — participou da criação do jornal O Sarrafo. Lançado em março de 2003 e distribuído gratuitamente, O Sarrafo surgiu com o objetivo de servir de instrumento para a abstração sobre o fazer teatro contemporâneo. Com o slogan Um jornal pau-pra-toda-obra, o grupo atingiu toda a periferia de São Paulo, levando o teatro para pessoas da camada mais pobre da população.

Segundo Dagoberto Feliz, no momento o jornal interrompeu sua produção, mas os grupos estão sempre em conversa para ver a real possibilidade de reedição d' O Sarrafo.

Entre os seus espetáculos mais marcantes estão: Folias Fellinianas, de Reinaldo Maia; Ressuscita-me, de Rodolfo Santanna; Enq, O Gnomo, espetáculo para crianças, de Marcos de Abreu; Las Muchachas, de Dagoberto Feliz; Cantos Peregrinos, de José Antônio de Souza; Verás Que Tudo é Mentira,adaptação de Reinaldo Maia; A Maldição do Vale Negro, de Caio Fernando Abreu e Luis Arthur Nunes; Pavilhão 5, de Reinaldo Maia; Happy End, de Elizabeth Hauptmann; Single Singers Bar, de Dagoberto Feliz; Babilônia, de Reinaldo Maia; Tronodocrono, espetáculo para crianças de Gabriela Rabelo e José Rubens Siqueira; Surabaya, Johnny, musical com canções de Kurt Weill e Bertold Brecht; Pássaro da Noite, de José Antonio de Souza; e Otelo, de William Shakespeare.

Teatro e espetáculos circenses

Uma das características do Folias é desenvolver uma linha própria de teatro, trabalhar com autores nacionais, em sua maioria, e adaptar-se a espaços não convencionais, como aconteceu, por exemplo, no café do teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, com o espetáculo Single Singers Bar — roteiro e direção de Dagoberto Feliz — em que atores do Folias cantam 23 canções dentro de um café, apresentando os sentimentos individuais de cada personagem focado. A peça músico-teatral se passa em um cabaré decadente, em que artistas vivem em uma guerra de egos.

Outra característica marcante do Folias é espetáculos circenses.

— Acreditamos, utopicamente, que os componentes do Folias fossem (como na Commedia Dell’Arte) instrumentistas, bailarinos, produtores, autores, músicos, cantores, bilheteiros, figurinistas, costureiros, cabeleireiros e circenses. Logo, tentamos conhecer todas as técnicas do fazer teatral. Claro que, em dado projeto, pode ser salientado este ou aquele aspecto, mas no geral essas várias modalidades estão contemplados nos espetáculos, conta Dagoberto.

A Commedia Dell'Arte é uma forma teatral desenvolvida na Itália, no século 16, e difundida por toda a Europa nos séculos seguintes. Considerada única no mundo, a Commedia Dell'Arte contribuiu para a construção do teatro moderno. Baseada em um teatro espetacular, com improvisação, personagens estereotipados e uso de máscaras, a Commedia é um gênero antinaturalista e antiemocionalista que, devido as suas origens totalmente populares, não dispunha de espaços próprios para as suas encenações. Seus espetáculos foram encenados em palcos improvisados em lugares públicos até o século 17, quando a Commedia começou a se apresentar em teatros.

A partir deste ano o Folias inaugurou um novo espaço: o Praticável do Folias, destinado para cursos, oficinas e leituras, e ainda no primeiro semestre estreou o espetáculo Nada Mais Foi Dito Nem Perguntado, uma adaptação do livro do escritor e advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho. Na peça, o grupo experimentou a encenação colegiada, com a ação de vários diretores — Aílton Graça, Atílio Beline Vaz, Bruno Perillo, Carlos Francisco, Gabriel Carmona e Dagoberto Feliz — dirigindo os treze contos, que formam o espetáculo que mostra as contradições da lei dos homens, através de seus personagens: o juiz, o promotor, o júri, o advogado e o réu.

Para este segundo semestre o Folias prevê as estréias de quatro novos espetáculos, além do próximo número do Caderno do Folias: o número 6. No momento, até o dia 28 de Novembro, eles estarão em cartaz com a peça O Banho, de Reinaldo Maia, que fala de luta de classes e faz o espectador refletir sobre hipocrisias.

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