O segundo ato da farsa

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Concluído o segundo turno da farsa eleitoral podemos reafirmar algumas questões que o AND vem destacando desde seu primeiro número. Primeiro, a chantagem feita ao eleitor impondo-lhe o voto obrigatório e, ao mesmo tempo, responsabilizando-o pelos destinos de sua cidade. A insistente lenga-lenga, envolvendo artistas e até jovens inexperientes mandando o povo votar, é o sinal mais evidente da falência deste sistema representativo dos interesses da burguesia, do latifúndio e do imperialismo em nosso país.

Os meios de comunicação e suas pesquisas são utilizados para coagir o eleitor a votar e, o que é pior, votar em um determinado candidato. As opções de votar branco, nulo ou até mesmo de escolher não comparecer, nada disso é apresentado ao eleitor. Ele tem que comparecer e votar.

Mesmo assim, neste segundo turno, o somatório entre brancos, nulos e a abstenção ficou numa média de 25%, chegando, em alguns casos, como em Salvador, a ultrapassar os 30%.

Segundo: a confirmação do caráter monopartidista das eleições no Brasil. Os candidatos de todos os pseudo-partidos se esforçaram ao máximo para dizer as mesmas coisas e fazerem as mesmas propostas com palavras diferentes. Não podia ser de outro jeito, haja visto que o verdadeiro programa a ser cumprido pelo eleito, como veremos a seguir, já estava traçado pelo Banco Mundial e pelo sistema financeiro internacional.

Terceiro: a briga entre as frações da classe dominante reflete-se no fracionamento do poder entre as várias siglas, o que dá uma aparência de pluripartidarismo, mas na essência revela a falta de legitimidade de cada uma delas para, isoladamente, estabelecer sua hegemonia. Nenhuma das frações tem uma presença verdadeiramente nacional e nenhuma conseguiu ultrapassar a marca de 16% do eleitorado nacional.

A cada voto um arrependimento

Passado o festival de demagogia e falsas promessas, o eleitorado começa a voltar a realidade e constatar que, no dia seguinte ao do momento mágico do voto, as coisas continuam as mesmas. Aos trinta dias, os novos administradores dirão que estão tomando pé da situação, aos sessenta dias dirão que estão arrumando a casa e seguirão dando desculpas para o não atendimentos das demandas da população. Ao expirarem os primeiros prazos, vem o desencanto do eleitor e o arrependimento chega cada vez mais cedo.

As recentes eleições foram, por sinal, muito ilustrativas deste arrependimento: Porto Alegre, São Paulo, Goiânia, Belém, para não falar de Ribeirão Preto, terra de Palocci, cujo candidato nem alcançou o segundo turno, negaram um novo mandato ao PT à frente do gerenciamento destes municípios. Em S. Paulo, a prefeita Marta Suplicy com a força do cargo municipal e todo apoio da gerência federal na pessoa de Luís Inácio nos palanques, mais o aparelho da CUT e o apoio declarado e ostensivo de Paulo Maluf, não conseguiu convencer os paulistanos a levá-la de volta à chefia do município.

Não é que Serra fosse a melhor opção, o problema é que nesta falsa democracia o eleitor não tem opção. É bem provável que em 2008, diante do péssimo desempenho de Serra, Marta se eleja prefeita de S. Paulo. Alguns analistas de meia tigela colocarão a tese sobre a memória curta do eleitor, mas este tipo de alternância entre as frações da classe dominante é a essência da farsa eleitoral.

Venceu o esoterismo

Na tentativa de disfarçar a identidade de seus programas, os candidatos usam de vários subterfúgios. Tomemos por exemplo a prefeita eleita de Fortaleza, Luizianne Lins, a qual, em entrevista à imprensa, qualificou-se como marxista esotérica e martelou durante todo o segundo turno que "a lôra na prefeitura é o povo no poder".

Examinemos por partes, para entender o que se passa. Vejamos, no Aurélio,o significado de esotérico e, em seguida, em Marx, como o povo chega ao poder. Enquanto o primeiro define esoterismo como "doutrina ou prática baseada em fenômenos sobrenaturais" o fundador do marxismo afirma, concretamente, que "Ao chegar a uma determinada fase de progresso, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais do que a expressão jurídica disto, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até aí. Das formas do progresso das forças produtivas, estas relações se convertem em suas travas. E se abre, assim, uma época de revolução social."

Assim, não é difícil concluir que a Lôra (era assim mesmo que estava escrito na sua propaganda), embevecida por seu eleitoralismo esotérico, ilude o povo, pois, ao assumir o gerenciamento do poder burguês, revela unicamente o mais descarado oportunismo.

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