Um rio de denúncias

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Desde 1997 um relatório da FAB já apontava a inviabilidade do VLS-1. Logo após a falha no lançamento do VLS-1 — V01 em 2 de novembro de 1997, o Diretor-Geral do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Aeronautica — DEPED, Tenente-Brigadeiro-do-Ar José Marconi de Almeida Santos, constituiu uma comissão de investigação para, no prazo de trinta dias, realizar uma análise das causas do acidente. A comissão de investigação teve como Coordenador Geral o Major-Brigadeiro-do-Ar Aluizio Weber e como Adjunto do Coordenador Geral o Brigadeiro-do-Ar Tiago da Silva Ribeiro.

O Relatório levanta uma série de suposições sobre as causas para o não acendimento do motor D do primeiro estágio do foguete, fato esse que provocou a sua desintegração 29 segundos após a decolagem, e assim, depois de uma série de elucubrações, chega à seguinte e redundante "conclusão": "Dos dados levantados e dos ensaios realizados com componentes similares aos utilizados na rede pirotécnica de ignição do VLS1-PT01, pode-se afirmar que o motivo do não acendimento do motor-foguete D foi a dupla falha na transmissão da ordem pirotécnica, entre os detonadores e os reforçadores do Dispositivo Mecânico de Segurança ( DMS ) ."

Traduzindo, as duas espoletas de acionamento elétrico do motor D não detonaram, como fizeram as dos motores A,B e C, ou, se detonaram, seus fogos não chegaram ao ignitor que, por este motivo, não acendeu, ato contínuo, o bloco de propelente do motor D também não.

Porém, faz uma única e seríssima afirmação:

..."Finalmente, o próprio bloco de propelente é passível de não acendimento, mesmo que o ignitor opere normalmente." Esse postulado nos leva facilmente a concluir que o foguete VLS -1 apresenta um nível tal de incerteza no seu funcionamento que nenhuma autoridade pública, por mais desqualificada ou incompetente que seja, pode se decidir pela execução e continuidade do seu projeto, aplicando nele, até hoje, mais de R$ 2 000.000.000,00 — Dois bilhões de reais.

Porém, encontramos aí uma séria e grave contradição. Como o bloco de propelente pode ser passivel de não acendimento, mesmo que o ignitor opere normalmente? Qual a probabilidade de que isso aconteça? Estatisticamente, talvez uma em dez milhões de tentativas ou mais? Se matematicamente é tão baixa a probabilidade, por que tal observação constou desse Relatório? Mas, por outro lado, se é tão alta como afirmaram os membros que integraram a "Comissão de Investigação da Falha" e que produziu o documento, o VLS, um foguete de R$ 30.000.000,00 nem deveria ter sido projetado e muito menos construído e lançado. Entretanto, o contido no Relatório sobre a causa da explosão do VLS-1 – V03, em 22 de agosto de 2003, diz exatamente o contrário: "Que uma pequena corrente elétrica, espúria, também pode ignitar o bloco de propelente do motor."

O combustível do VLS é constituído por um bloco cilíndrico e oco feito com uma pólvora especial de queima lenta fabricada sob rígido controle de qualidade. Por isso, todas as bateladas apresentam rigorosamente sempre as mesmas características físicas e químicas. Assim, imaginemos um individuo, armado com um maçarico óxido-acetileno cuja temperatura da chama alcance 2.500 graus centígrados, parado em frente de uma esteira transportadora por onde passem dez milhões de pequenas amostras do propelente do VLS e sobre cada uma delas ele aplique essa mesma chama pelo período de aproximadamente um segundo. Assim sendo feito, quantas dessas amostras deixariam de inflamar? Resposta: Nenhuma.

Agora, como um grupo de técnicos, engenheiros e militares, altamente qualificados — composto por Ariovaldo Felix Palmério, Toshiaki Yoshino, Milton Oliveira da Silva, Luiz Roberto Del Mônaco, Arnaldo Wowk, Afonso Paulo Monteiro Pinheiro, Pedro Paulo de Campos, João Cláudio Freymann, Múcio Roberto Dias, Janio Kono, Luiz Alberto de Almeida e Filho e José Jorge de Mendonça — pode afirmar que os blocos de propelente dos motores do VLS são passíveis de não acendimento? Mesmo que os seus ignitores operem normalmente, se os ignitores dos motores do VLS funcionam exatamente como o maçarico acima descrito, só que atuando confinados no interior do bloco de propelente produzindo maior temperatura, quantidade de calor e por mais tempo? Qual o propósito de terem colocado no Relatório essa absurda afirmação? Desqualificá-lo? Se foi com esse objetivo, obtiveram pleno sucesso. Se não foi, então não tinham competência para redigi-lo, o que também o desqualifica. Por isso, é imperativo que a Justiça abra novos inquéritos para que se apurem as verdadeiras causas que levaram a destruição dos nossos três VLS's e, principalmente, para identificar os culpados pela morte de 21 compatriotas.

As Comissões constituídas pelo DEPED para tal mister, até hoje, não determinaram os fatores causais para os três fracassos, muito menos apontaram os nomes dos seus responsáveis. Pelo contrário, a primeira comissão, ao recomendar que:

(.....)

2— Em particular, revisar o projeto do DMS e seus componentes. Fazer as alterações de projeto necessárias e realizar uma nova qualificação para vôo, cometeu um gravíssimo erro ao induzir, sem saber qual a causa do problema, o IAE/CTA a suprimir do projeto do foguete o Dispositivo Mecanico de Seguranca — DMS -. De acordo com o relatorio sobre a explosão do VLS-1 – V03, se esse dispositivo tivesse sido mantido, a ignicão prematura do motor A do primeiro estágio do VLS-3 não teria acontecido e a operação São Luís certamente não teria se transformado em uma tragédia.


Ronaldo Schlichting — É administrador de empresa e membro da Liga da Defesa Nacional — www.ligadadefesanacional.org.br

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