Teatro político que atrai o povo

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Difícil encontrar grupo teatral que se aproxime tanto do povo quanto o Tá Na Rua , que há 25 anos leva espetáculos de teor político às praças do Rio de Janeiro, interagindo de maneira permanente com o público — que entra e sai de cena quando bem entende —, seja um texto de Brecht, cordel, traços da carnavalização na idade média, ou a Commedia Dell´ Arte.

Atribuindo aos atores o improviso, o Tá Na Rua tem como maior influência o teatro medieval, sempre com preferência para a narração e em determinadas circunstâncias trabalha com arquétipos, noutras monta textos que recordam a direita, para mostrar para o povo como os seus opressores se organizam.

As atividades do grupo começaram em 1974, quando vários atores/pesquisadores — entre eles o diretor teatral Amir Haddad, que o dirige até hoje — se reuniram para explorar as possibilidades de fazer um teatro verdadeiramente popular. A princípio pretendiam desenvolver um trabalho de pesquisa, puramente, sem cogitar a montagem de espetáculos. Mas bastou trabalhar com o texto Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, para mudarem de idéia e trataram da montagem, o que aconteceu em abril de 1980, quando passaram a existir oficialmente como companhia teatral.

Morrer pela pátria fala de uma família dividida entre o ideal comunista e a ditadura militar. Dois irmãos — um militar e herói da família, outro, comunista — mergulham num conflito de idéias até que o oficial, para defender a sua ideologia, mata o comunista com um tiro no peito. O ponto forte desse texto é evidenciar para o público o modo pelo qual o opressor se organiza, e isto foi levado à cena no período da gerência militar (1964 - 1985), quando o medo e a tensão caracterizavam o panorama teatral brasileiro em consequência da perseguição a todo e qualquer movimento democrático.

Licko Turle, coordenador e um dos atores do grupo, conta que exatamente por este motivo o grupo sentiu-se motivado a montar este texto. — Foi alterado na montagem, revelando como pensava a extrema direita do Brasil, para que o povo visse a verdade e tirasse as suas próprias conclusões. Para se ter uma idéia, não houve nenhuma represália por parte dos militares: estava dentro do pensamento deles, defendia o seu ponto de vista.

Ainda na década de 80 o grupo passou a trabalhar com cordel, montando A revolta de São Jorge contra os invasores da lua, uma sátira à primeira viagem do homem à lua, em 1969. A peça conta a guerra de invasores ianques contra São Jorge, que, conforme o dito popular, mora naquele satélite. — Os ianques chegam à Lua, encontram São Jorge e põem-se em guerra com o santo, que resiste à invasão e os expulsa de seu território na base da pancada. Porém eles, de volta à Terra, se proclamam vencedores. São Jorge acaba morrendo, infectado com as doenças que eles espalharam pelo satélite.

Este espetáculo foi remontado há três anos, diferentemente das primeiras peças, apresentadas em espaço fechado. A primeira apresentação na rua foi "por acaso": Amir Haddad viajou para o exterior e deixou o grupo ensaiando um espetáculo. Em determinado dia, os atores resolveram sair do ensaio e apresentá-lo a quem passasse pelo Largo da Carioca, no centro do Rio. O enorme sucesso obtido estimulou a todos. Voltando ao Brasil, Amir decidiu que passariam a se apresentar nas ruas, com a denominação de Tá Na Rua.

Foi quando o grupo resolveu montar um novo "texto de direita" para denunciar o que os opressores pensam do povo. Foi Para Que Servem os Pobres, do filósofo ianque Hebert Gans, abordando a importância da existência de pobres no mundo: precisa-se deles para que votem; para fazer serviços braçais que os ricos não querem fazer; para serem mandados à guerra e morrer no lugar dos ricos; para poder existir ISS, INSS; entre outros. Licko ressalta que o autor, em seu livro, diz que o texto não foi feito para pobre ler, acrescentando:

— Este Herbert Gans, se não era de direita, no mínimo gostava de ficar em cima do muro, e resolveu comprovar a necessidade de existir pobre no mundo. Um pensamento meio George Bush. Diante disso, naturalmente o público reage, porque vê a verdade sem disfarces. Mostramos a verdade e ele pensa o que quer. Mas, pensar não é o bastante. Gostamos de fazê-lo refletir e interagir.

Troca de papéis

O Tá Na Rua vê o teatro como uma pedagogia de ação transformadora, quando o espectador se converte em ator e passa a dominar a discussão e feitura do seu destino. O grupo se esforça para que o povo não seja apenas espectador, mas agente de transformação do que está em seu redor. Parte da população permanece passiva para que a outra, ativa, domine.

— O espetáculo — explica Licko — pode ativar o espectador e torná-lo ator com liberdade de entrar e sair de cena em qualquer momento. Ele leva o espectador a ter opinião, e lhe dá liberdade para transforma-se em agente dentro daquilo que faz parte da sua vida. Se alguém está assistindo e resolve entrar do meu lado, por exemplo, eu começo a jogar com ele naturalmente. Se ele sair, tudo bem.

O Tá Na Rua possui um diferenciado repertório de espetáculos de rua, compreendendo desde Uma Casa Brasileira, com Certeza, de Wilson Sayão, às criações dramatúrgicas como A mulher que grita rodopia e cai e O galã, o negro, o patrão, além de teatralização de poemas, cordéis, contos populares e uma revisita à obra de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, em Febeapá — Festival de Besteiras que Assolam o País , revisado. Essas peças são apresentadas em eventos e festivais de teatro no Brasil e exterior. Em 1986 o grupo recebeu o prêmio Shell especial pelo conjunto de seu trabalho.

A dramaturgia é feita a partir de um processo chamado colaborativo. Consiste em ter, dentro do grupo, além do dramaturgo, pessoas que durante o processo de construção e ensaio, trazem material que entra na discussão, transformando-se em dramaturgia.

O espetáculo atual fala de acontecimentos políticos, culturais e artísticos que aconteceram no país durante o período da gerência militar. Dar Não Dói, O Que Dói é Resistir narra um país esmagado pela ditadura, ao mesmo tempo em que revela uma resistência cultural que não sucumbiu à vontade dos ditadores.

— Existem algumas interpretações dentro deste título, mas a que fazemos é a de que a resistência cultural ou resistência política à ditadura militar foi extremamente dolorosa, não submetendo seus ideais, e por isso, atraindo contra si prisões, torturas e assassinatos, ao passo que para quem foi cooptado não se tornou um processo tão doloroso assim. Inclusive, podemos ver muitos remanescentes da ditadura, que até hoje estão aí, no poder. Quer dizer, conseguiram sobreviver a ela, se oferecendo e se inseriram no chamado "processo democrático". Para os submissos não doeu, mas resistir, para nós, doeu muito e ainda dói — conta Santini.

Censura econômica

Santini ressalta que a resistência daquela época, por parte de alguns grupos, ainda persiste, porque a censura continua na forma de censura econômica, tentando impedir a carreira de muitos grupos de teatro popular, roubando-lhes espaço, tanto no mercado carioca quanto no nacional. — O trabalho do Tá Na Rua é uma resistência a essa censura sofisticada, econômica. Um trabalho de grupo, com coerência e proposta de pesquisa de criação, é um tipo de experiência que não pode se reger pelos padrões de mercado. Por isso, se desenvolve menos do que os outros que não têm esse compromisso. Para as empresas que fazem patrocínio cultural, existe somente a categoria do retorno publicitário, de bilheteria e imagem — explica.

Para Alexandre Santini, a parte da experiência concreta do trabalho do Tá Na Rua é perceber que Brasil Oficial e Brasil Real, de que falou Machado de Assis no Século 19, continuam existindo: — O Brasil oficial é o país de teatro fechado, do departamento de lucro das empresas de patrocínio cultural. O Brasil real é o da cultura popular e democrática, da manifestação do povo, de uma expressão popular que é extremamente cênica, colorida, grandiosa. Neste sentido, nós consideramos mais interessante o Brasil do povo, que é o Brasil real, do que o Brasil oficial.

Licko Turle observa que, para continuar a trabalhar para o Brasil real, o grupo tem que pagar um alto preço:

— O Tá Na Rua sempre viveu e vive com dificuldades financeiras. Os grandes patrocinadores, geralmente empresas de capital estrangeiro, não se interessam porque não pensam no povo, mas no lucro. Eles não acreditam que terão lucro com os nossos espetáculos de rua, gratuitos. Geralmente conseguimos alguns financiamentos concorrendo em editais públicos, e nos apresentando em eventos de atividades populares. Mas essas verbas não são seqüenciais e isso é muito prejudicial à pesquisa e ao nosso trabalho em geral.

Depois de ressaltar que todos têm problemas de moradia, mal conseguindo pagar aluguel com vários meses de atraso, explica:

— Nós somos povo, sofremos dos mesmos males. Se pegarmos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para estimar quanto se precisa para viver em uma sociedade como a do Rio de Janeiro, será fácil comprovar a necessidade de quase cinco mil reais. E nós ganhamos na faixa de quatrocentos reais por mês.

O grupo tem atualmente um núcleo de 12 pessoas, mas em torno dele giram mais 50 alunos da escola de teatro Tá Na Rua, que forma novos atores, através de oficinas de teatro. Vários já atuam nos espetáculos que envolvem, em média, 25 pessoas. As próximas apresentações do grupo devem acontecer em Brasília, São Paulo e interior. No Rio, voltarão a se apresentar no Largo da Carioca, no segundo semestre do ano, dependendo de acordos com a prefeitura local.

Para Licko Turle, o Tá Na Rua é um bom lugar para defender suas idéias, discutir o momento social ou o que não foi bem discutido ao seu tempo, já que hoje não existem muitos espaços para isso, quase nenhum, quando o que está em discussão é contra os interesses do imperialismo.

— Nós já fomos, mas não somos mais de nenhum partido político. Contudo, fazemos a nossa política na rua. Atualmente, o jovem não tem mais nenhum espaço para exercer a sua cidadania, vida política, pensamento e discussão, porque o que tinha de movimentos estudantis enfraqueceu, e partidos sérios já não existem mais. Neste sentido, o Tá Na Rua tornou-se um local para se fazer política, e permite aos seus integrantes se manterem como seres políticos.

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