Ruy Faria e Carlinhos Vergueiro: Em dupla com a música popular

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Dois grandes nomes da MPB investem na força da música brasileira, recriam sucessos de duplas do passado, como: Mário Reis e Francisco Alves; Zé e Zilda; Joel e Gaúcho; Cascatinha e Inhana, entre outras, lançando o seu primeiro CD, Só Pra Chatear , depois de dois anos de trabalho. Amigos há muito tempo, companheiros de futebol no Politeama, time de Chico Buarque, e avessos a todo tipo de modismos alienantes, Ruy Faria e Carlinhos Vergueiro têm em comum o amor pela autêntica música popular brasileira.

A idéia de formar uma dupla partiu de Ruy, o que Carlinhos topou na hora. Ruy queria realizar um projeto antigo seu, que era de cantar em dupla com alguém que, igual a ele, entendesse e lutasse pela sobrevivência da música popular cultural brasileira, em tempos difíceis, de músicas descartáveis e muito charlatanismo. Carlinhos e Ruy têm uma vivência muito grande com importantes compositores brasileiros, entendem mesmo do assunto e, da união desses dois, só poderia sair algo muito bom.

O CD Só Para Chatear, que foi gravado ao vivo durante duas apresentações da dupla no Teatro Rival, no centro do Rio de Janeiro, traz dezesseis páginas que fazem parte do imaginário popular. Na sua maioria, sambas de grandes autores, como: Seja Breve, de Noel Rosa; Se Você Jurar, Ismael Silva; Foi Uma Pedra Que Rolou, Pedro Caetano; Sou Jogador, Luiz Barbosa; Peçam Bis, Ismael Silva; Deixa a Menina e Injuriado, Chico Buarque, e o samba título Só Pra Chatear, de Príncipe Pretinho. Amor de Cinema , composição de Ruy e Carlinhos, também está no disco.

Para chegar ao CD, a dupla contou com a colaboração de gente brilhante, como as cantoras Cristina Buarque de Holanda e Cynara (do Quarteto em Cy), que fizeram uma profunda pesquisa de repertório, basicamente entre o trabalho de duplas que se formaram nos anos 30, 40 e 50, a Era de ouro da rádio brasileira. Os dois, depois de escolherem o repertório, passaram a fazer pequenos shows pelo Rio e por várias cidades do Brasil. O CD, que é produção independente, teve o patrocínio da Petrobras, com três mil cópias prensadas.

—Começamos a ensaiar há dois anos. Gravamos uma fita demo. Procuramos gravadora, não encontramos. Mesmo assim continuamos a apostar em nosso trabalho. Mas ainda estamos tentando uma gravadora, mesmo porque o CD está fazendo um enorme sucesso de vendas, sem praticamente nenhuma divulgação, o que nos faz imaginar que, se tivermos uma gravadora para nos dar retaguarda, venderemos todos os discos e poderemos produzir outros. E há planos de fazer um outro bom trabalho, porque temos um nome a zelar — conta Carlinhos.

E um bom nome dentro do cenário da música popular brasileira, esses dois têm mesmo. Carlinhos Vergueiro, 53 anos, cantor e compositor, parceiro de Vinícius de Moraes, Toquinho, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, entre outros, começou a estudar piano e teoria musical ainda criança e aos 16 anos já estava compondo e tocando violão. Em 1974 trocou um emprego estável na Bolsa de Valores de São Paulo pela vida de músico, e neste mesmo ano gravou o seu primeiro LP, Brecha. No ano seguinte, ficou conhecido no Brasil inteiro quando venceu o Festival da Abertura, Rede Globo, com a música Como um Ladrão. Entre suas composições mais conhecidas estão Torresmo à Milanesa, com Adoniran Barbosa e Camisa Molhada, com Toquinho.

A carreira de Ruy Faria, 66 anos, é de grande sucesso e compromisso com a música brasileira.Cantor, diretor e produtor musical, durante quatro décadas foi uma das vozes do MPB-4, quarteto vocal que teve impressionante destaque na música brasileira. Estava insatisfeito há algum tempo. Ficou desempregado. Mas sua vigorosa personalidade, juntamente com a certeza da força que tem a música brasileira diante dos modismos fez crescer a idéia de montar dupla com um amigo. — Foi um salto no escuro, mas estou mais feliz agora.Temos feito apresentações em várias partes do Brasil e apostando na força da música brasileira — afirma Ruy.

A dupla, que parece ter sido formada há décadas devido à perfeita sintonia, é acompanha por uma banda formada por: Chico Faria (bandolim/cavaquinho), João Faria (contrabaixo), Pretinho (percussão), respectivamente filhos e genro de Ruy; André Estrela (violão), sobrinho de Carlinhos; e João Cortez (bateria).

—É nepotismo puro e descarado! — satiriza Ruy.

Donos de um humor com tiradas imprevisíveis e inteligentes, Ruy e Carlinhos se completam, sendo praticamente impossível permanecer perto deles sem rir. O show Só Para Chatear, só poderia ser bem diversificado, dinâmico e muito alegre.

—Nós nos divertimos muito no palco, inclusive por estarmos fazendo aquilo que mais gostamos: cantar. Logicamente que temos um roteiro nas apresentações, mas fazemos muitos improvisos. A nossa carreira é assim.— conta Ruy.

Duplas sempre

Com a pesquisa que fizeram sobre duplas na música brasileira, durante a década de ouro da rádio, Carlinhos e Ruy descobriram que era muito comum grandes estrelas da época formarem associação entre duas pessoas. Eram: Mário Reis e Francisco Alves, Joel e Gaúcho, Zé e Zilda, Jackson do Pandeiro e Almira, Jonjoca e Castro Barbosa, e muitas outras.

— Ao homenagearmos essas duplas aprendemos muitas músicas lindas, mas desconhecidas. São páginas incríveis e duplas extraordinárias. Mergulhar em um repertório assim é maravilhoso —diz Carlinhos.

— Nesta pesquisa que a Cristina Buarque e a Cynara fizeram para nos ajudar, descobrimos que além das duplas oficiais, existiam também as esporádicas, feitas por artistas que se associavam sem compromisso, somente pelo prazer de cantar com alguém. Elas duravam uma temporada e depois se separavam. Entre elas, existiu a Dupla Verde e Amarela, formada por Wilson Batista e Ernani Silva. O Luis Barbosa, por exemplo, que é compositor do samba Sou Jogador, que nós cantamos no disco, fez dupla com vários artistas diferentes. Aracy de Almeira, Ciro Monteiro, Guilhermano Pinheiro, também formaram duplas esporádicas. E cantavam músicas de grande qualidade — continua Carlinhos. Além das duplas que se formaram, quase todas, nas décadas de 30, 40 e 50, Ruy e Carlinhos cantam outras mais recentes. É o caso de Deixa a Menina e Sem Compromisso, da dupla Chico Buarque e Marçal.

Recorda Carlinhos Vergueiro:

— Durante uma temporada grande, o Chico formou dupla com o Marçal e nós fazemos também uma homenagem a eles com essas duas músicas que eles cantavam. O Chico cantou também em dupla com a Cristina Buarque, a música Injuriado, que no disco e nos shows tem participação especial de Chico Faria, cantando com o Ruy.

Veneram a MPB

Ruy e Carlinhos explicam que tem pessoas de todas as idades entre as que seguidamente freqüentam as apresentações da dupla e procuram o CD. Os mais velhos lembram de um repertório que estava muito esquecido, por não tocar em nenhuma rádio atualmente e, os jovens, que normalmente não têm acesso à música popular cultural brasileira, já que ela não toca nas rádios e TVs, ao entrar em contato com o trabalho dos dois, apresentam-se como grandes admiradores.

— É muito interessante observar que enquanto muita gente diz que a música brasileira está ruim, porque não toca em rádios, o que significa teoricamente que ninguém gosta, eu vejo como algo muito positivo o interesse do jovem por ela e, no caso do nosso disco, pela música brasileira de antigamente e pelos compositores que já se foram, mas que são moderníssimos. Por algumas décadas, em que venderam uma imagem de que a música brasileira, que nós cantamos, era coisa do passado e muitos cresceram ouvindo essa história. Mas, para mim, sambas de Orlando Batista, Geraldo Pereira, Erivelto Martins, por exemplo, são atemporais, mesmo porque essa forma simplória de caracterizar moderno e antigo, para mim nunca existiu. O que existe é música boa e música ruim — declara Carlinhos, completando:

— Algo importante para nós é constatar que com esse CD fazemos com que gente jovem entre em contato com uma série de composições que não conhecia, nunca ouviu falar, que são músicas que deveriam ser divulgadas pela sua qualidade, ao mesmo tempo em que tocamos no sentimento de quem gosta de música brasileira. E geralmente quem conhece gosta. A irmã de Eduardo Teixeira, por exemplo, se comoveu muito ao ouvir 'Kalu', porque além de ouvir uma música que é do seu irmão, entrou em contato com um repertório que ela estava acostumada a ouvir e que hoje não toca mais. Para Ruy, uma das provas do interesse dos jovens pela música brasileira é o que vem acontecendo na Lapa, centro do Rio, no momento: saraus, grupos de choro, grupos de samba, etc:

— A Lapa virou o que é hoje, um reduto da música brasileira, por causa da juventude. E o interessante é que o repertório que os grupos estão tocando por lá é mais antigo que o nosso. Geralmente é de mil oitocentos e pouco. É um repertório de Chiquinha Gonzaga para trás.

—Noel é considerado um garoto —brinca Carlinhos.

Ruy dispara:

— Eu sempre digo que é fabuloso o vigor que tem a música brasileira. Durante esse período em que estou ensaiando com o Carlinhos, por exemplo, o que vimos de modismos, é algo impressionante. Foi pagode, lambada, sambão jóia e muitos grupos “baianos”, que duraram um tempo e depois sumiram. E a música brasileira vai resistindo a tudo isso, vencendo e reinando, mesmo em um espaço tão pequeno.

Lembra Ruy, o grande problema que enfrenta a música popular cultural brasileira, hoje, é o de ver sonegado o espaço onde há mais necessidade de aparecer: nas rádios, televisões e gravadoras. Quando esta música tem alguma chance de aparecer nesses locais, geralmente arrasa. — A questão é que não é fácil fazer parte desse grupo seleto de pessoas que está na mídia, entre boas e péssimas músicas — afirma Ruy.

Carlinhos emenda:

— Hoje em dia, tocar em rádio é um negócio. Elas fazem um acordo com as gravadoras e o que toca faz parte desse acordo. O mesmo acontece entre as gravadoras e a televisão. Isso não é nem mais considerado jabá (nome dado ao trato que vigorou por décadas, entre o produtor de um determinado artista e uma rádio). É corrupção especializada.

Mas, mesmo sem gravadora a dupla está fazendo grande sucesso, com uma boa vendagem do CD, reciprocidade por parte do público nos shows, e críticas favoráveis em jornais e revistas, do país.

Ruy é enfático:

— Uma gravadora costuma dar certa estrutura para o artista trabalhar melhor, mas com ou sem gravadora continuaremos o nosso trabalho.

Como têm a mesma linha, Carlinhos não faz por menos:

— Se conseguirmos uma gravadora, ótimo, se não, tudo bem. Começamos somente com um projeto. Ensaiávamos sozinhos na casa do Ruy, e ele me ensinava vocal, porque nunca tinha feito. Não tínhamos banda, não tínhamos disco. Hoje já temos tudo isso, e estamos indo, na luta, como a própria música brasileira.

O trabalho de dupla não é apenas defendido em seus fundamentos, mas na vivência dos dois artistas. Ruy, por exemplo, lembra:

—Esse negócio de fazer vocal e cantar com outras pessoas é uma cachaça. O Carlinhos descobriu isso agora, eu já conheço há muito tempo. Comecei minha carreira em Cambuci, onde nasci, interior do estado do Rio de Janeiro, cantando em dupla. Depois, formei com dois amigos o Trio Geruan — Geraldo, Ruy e Anildo (risos), e imitávamos trios famosos.

E Carlinhos Vergueiro finaliza:

— Eu tenho prazer em cantar com o Ruy, é muito bom e divertido. Vivemos em um clima de amizade e confiança, lutando pela nossa música — finaliza Carlinhos.

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