A música latina na voz do Tarancón

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Precursor na pesquisa e execução de músicas populares da América Latina no Brasil, o grupo Tarancón, com mais de trinta anos de história, continua na ativa.
O grupo atual, composto por Jica Tomé, Emílio de Angeles, Jorjão e Enan recebeu a reportagem de A Nova Democracia nos estúdios de uma emissora de televisão de São Paulo, onde gravava um programa, e concedeu uma bem-humorada entrevista sobre a história do grupo.

— É difícil resumir a história do Tarancón. É uma banda que tem trinta anos de estrada, nove discos gravados, já tocou nos mais importantes teatros do país – de São Luís do Maranhão até o Rio Grande do Sul. Já tocou ao lado de Mercedes Sosa, Almir Sater etc. Tentando sintetizar, essa banda foi a primeira que se aventurou a fazer uma música latino-americana misturada com coisa brasileira. Começou como uma banda que fazia música popular e folclórica da América Latina; depois num segundo tempo começou a misturar isso com uma influência brasileira; e essa mistura acabou dando uma característica peculiar ao grupo. Não que a gente tenha tirado essa idéia pronta da cabeça: pintou pelo fato de as influências apareceram da forma como a gente trabalha as músicas da América Latina — diz Jica, que, junto com o espanhol Emílio são os únicos integrantes remanescentes da primeira formação do grupo.

Brasileiros e latino-americanos

Aliás, a presença de músicos de outras nacionalidades foi uma constante no Tarancón, o que facilitou o aprendizado das diferentes culturas e ritmos latino-americanos.

— Já estiveram na banda argentinos, chilenos... Logicamente aprendemos muito com eles, foi legal a convivência, os ensinamentos. E até corrigir coisas, tipo: "Toca assim", "Esse ritmo é desse jeito", "Você está tocando errado" e tal — revela Jica.

O primeiro disco, Gracias a la vida, mesmo nome de uma música de Violeta Parra, foi lançado em 1976. Seguiram-se Lo único que Tengo (1978), Rever Minha Terra (1979), Bom Dia (1981), Ao vivo (1982), Amazona Vingadora (1985), Terra Canabis (1986), Mama Hue (1988) e Vuelvo para Vivir (1997).

— O primeiro disco saiu em 76, aí demoramos um pouco naquele tempo de maturação. Tocamos em alguns lugares, brincamos de fazer música. Nessa época tinha um movimento estudantil forte, uma ditadura, não só no Brasil mas em outros lugares da América Latina. E tinha um povo interessado em cultura e em alguma coisa que não fosse única e exclusivamente "americana" [estadunidense]. Havia mais inquietação, especialmente do público mais jovem, universitário. E eu não sinto isso hoje. Acho uma acomodação generalizada, todo mundo quer ser igual e acho isso um horror. Não falo isso como saudosismo, dizendo que era melhor, é apenas uma diferença na história, no comportamento das pessoas. Acho que as pessoas se incomodavam mais. Hoje parece que se acomodam mais — critica Jica.

O melhor da época

A verdade é que na década de 70 o Tarancón estourou. Em particular o movimento estudantil adotou o grupo em virtude, claro, da qualidade dos músicos aliada ao repertório escolhido, a dedo, entre os melhores representantes da música latino-americana. Não raro as apresentações do grupo eram realizadas em centros acadêmicos e outros espaços em universidades com grande afluência de público.

Os discos estão recheados de músicas folclóricas dos Andes, canções de Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Fito Paez, Sílvio Rodrigues, Pablo Milanês, além dos brasileiros Milton Nascimento e Geraldo Vandré.

A politização apontada por Jica era um traço da época, em que a luta de resistência das massas contra as gerências militares na América estava na ordem do dia. Sendo assim, os melhores artistas do povo deveriam refletir isso em suas obras. Além do mais, a música da América Latina é, antes de mais nada, o melhor da música dos nossos povos de formação latina, neste continente, o que inclui música brasileira, no nosso idioma, claro.

De uma maneira geral, essa verdadeira música latino-americana é de uma necessidade premente para nós, como identificação e como um libelo contra o confinamento a que nos relegaram, todos os latino-americanos, no território pátrio e no latino-americano. E quanto mais avança a dominação ianque no continente americano, mais o império trata de isolar cada povo em nossa própria América latino-americana.

Obras que falam de dominação e resistência com profundidade, por exemplo, soam tão atuais porque as condições de nossa América proletária não mudou muita coisa após a transição da gerência dos Estados, de militares para "civis":

— Acho que não era só gente politizada. Era gente inteligente, criativa. As pessoas falam do Víctor Jara como se ele fosse só o guerrilheiro. Não, era uma grande pessoa! Não foi um cara que falou: "Vamos fazer uma música para derrubar a ditadura". Era um grande músico, compunha bem... — alerta Jica, e emenda:

— Ele também tinha panfleto, por que não? E compunha músicas românticas, coisas simples. Não dá para falar que esses compositores eram única e exclusivamente de esquerda. Eles eram artistas de esquerda, porque eram bons, compositores que pesquisavam. Era um pessoal que, em certa época, tomou posição politicamente. Perfeito. Mas grandes artistas eles sempre foram. E se elevaram. A gente pôde fazer, nos três primeiros discos, uma panorâmica dos principais compositores que rolavam nessa época na América Latina. Por isso esses discos são muito importantes.

Arte plástica no show

As capas dos discos do Tarancón também são um espetáculo à parte. Os três primeiros álbuns exibem temas andinos: cholos (mestiços) e índios, de chapéu e poncho aymará. Os temas são expressivos e transmitem exatamente a força desse povo que teima em sobreviver. O autor das aquarelas é Félix Nieto, irmão de Emílio.

— Ele já desenhava nos nossos ensaios. Ele "viajava" em função do som da gente. Eu nunca gostei de capa com foto. Não acho ruim, mas só funciona quando é lançado. Em geral as fotos são mal impressas e expressam meio que o óbvio. E esses desenhos são uma outra cara do Tarancón. Muitos desenhos também eram feitos no palco, na hora do show. Nos shows eram pintados temas semelhantes ao das capas. Eu particularmente gosto disso. O desenho deixa uma curiosidade nas pessoas que estão ouvindo para saber como são os músicos — revela Emílio.

Os Tarancóns utilizam instrumentos típicos de vários países da América, principalmente andinos, como o bombo leguero (bumbo feito com pele de ovelha, tradicional no Rio Grande do Sul e na Argentina), a zampoña ("flauta de pã" andina, geralmente feita de vários pedaços de bambu de tamanhos diferentes), a quena (flauta, também de bambu), a tarka (flauta em formato de tótens) e o charango (espécie de bandolim, tradicionalmente feito com casco de tatu, hoje confeccionado em madeira), tudo misturado ao violão e ao contra-baixo.

Quanto ao atual cenário da música brasileira — o que está mais exposto é sempre o interesse das gravadoras monopolizadas —, o Tarancón entende que é possível encontrar qualidade, mas que ela está fora dos meios tradicionais, como sempre.

— Existe qualidade, padrão... existe tudo. Eu perdi um pouco o interesse pela música popular brasileira ortodoxa, essa mais ligada à geração mais antiga, Chico, Caetano e tal. Embora eu ache que um compositor não precisa fazer uma obra-prima por ano, penso que o Caetano devia ter parado, inclusive antes de ter gravado "Sozinho" (Peninha), essa música horrorosa. Eles não tinham obrigação de fazer mais nada. Só que hoje tá todo mundo meio "gordo", meio estático. Sinto falta de um pouco de ranhura, de esquisitice, de encheção de saco, de "ir contra" — ataca Jica — Não tenho mais paciência para seguir a MPB tradicional e só. Estou procurando em outros lugares resolver o meu problema de descontentamento, em outros tipos de música. Logicamente eu continuo gostando do que é clássico na MPB — continua.

Existe qualidade!

Por outro lado, Emílio ressalta que a boa música ainda vive e atua, mesmo diante de tantas dificuldades:

— Existe hoje um painel de música brasileira amplo, aberto, coisa que não existia há algum tempo atrás. Hoje você vê gente de doze anos que toca para "caramba", trabalho de aldeias, de tribos... Existem choro, pagode... Têm coisas muito chatas, mas têm coisas fantásticas.

Fazendo música profissionalmente há tantos anos, com o "agravante" de ser música de qualidade, os integrantes do grupo se desdobram em atuações também fora do Tarancón, em solos ou outras parcerias.

— Acho que a dificuldade é similar a todo o artista que faça um trabalho independente. Se você não tem uma música numa novela – muito embora uma música na novela não resolva a vida de ninguém... Tenho vários amigos que emplacaram músicas em novela e até hoje não aconteceu nada. A gente escolheu um tipo de música que não toca em rádio nem em televisão, mas que a gente gosta de tocar, acha bacana, só isso. É uma missão. Às vezes é ruim, às vezes é bom. Ah, eu adoro fazer o que faço. Seria melhor que ajudasse a pagar o aluguel em dia (risos) — ilustra Jica — Tanto eu quanto o Enan e o Emílio temos que tocar... O trabalho do Tarancón é prioritário, é o que tem os melhores cachês, melhores condições de trabalho... Mas eu toco com outras pessoas. O Emílio também. O Jorjão, quando a mulher dele deixa, também toca com outras pessoas (risos). Todos temos salários com música ou relacionado com música.

Mesmo reconhecendo toda qualidade e a história de artistas populares como Victor Jara — assassinado durante o golpe contra-revolucionário no Chile, encabeçado pelo general genocida Augusto Pinochet em 1972 — aos brasileiros é bastante difícil encontrar gravações dos países vizinhos. As músicas chilenas, uruguaias, argentinas, peruanas, bolivianas, paraguaias têm que ser passadas quase que de boca em boca, de mão em mão, o que não deixa de impressionar pela imensa quantidade de pessoas que ouve e divulga.

Por sua vez, as emissoras de rádio, tendo igualmente os mesmos interesses das gravadoras, ignoram solenemente a música latina. Além disso, Jica aponta outro provável motivo:

— Acho que existe dentro da rádio brasileira, e o que vem sendo divulgado maciçamente, que o espanhol é uma língua brega e não é "moderno", não é "bacana". Isso é o que eu sinto. Acho que tem um preconceito enraizado dentro da mídia.

O público se renova

E se engana quem pensa que o Tarancón toca somente para quem já era fã na década de 70 ou para a intelectualidade, a chamada "classe média".

— A maioria das pessoas que nos viram há vinte anos fica em casa hoje, pede uma pizza, não vai mais a teatro nenhum... sei lá. Quem dá o empurrão para que o Tarancón e outros que fazem um trabalho objetivo continuem existindo é gente que está começando a gostar de música agora. E hoje tem uma parcela da população com menos de 30 anos que está interessada nesse tipo de música — conta Jica.

– Hoje parece que o rico está preocupado com outras coisas, igualmente inúteis, como já foi algum tempo atrás. E o tipo de música que a gente faz é uma música bacana, que tem mensagem, gostosa de ouvir, que tem história. Por si só é interessante. Não interessa se o cara é de esquerda, de direita, seja jornalista ou seja pré-primário. Primeiro, a gente toca o melhor possível, somos músicos afinados... — conclui o percussionista do Tarancón.

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