A saga dos pobres em Serra Pelada

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O Eldorado é possivelmente o mais conhecido dos mitos sobre a cidade do ouro. Contava-se que Eldorado era uma cidade indígena mais ou menos próxima a Bogotá (Colômbia), cheia de riquezas, ruas de ouro, templos de pedras preciosas, tudo em extrema abundância. Essa é uma história do século 16 que os conquistadores espanhóis trataram de alimentar e difundir, atraindo aventureiros para os desconhecidos da América. A lenda nunca se confirmou nem nunca se perdeu ao longo do tempo.

Pensar Serra Pelada é pensar também nesse sonho do Eldorado e em como esse sonho foi manipulado, se transformando na epopéia de mais de 100 mil garimpeiros, sendo mais de 70% nordestinos.

Do sonho à tragédia

Foi em 1980 que se encontraram as primeiras pepitas de ouro no lugar conhecido como Açaizal, distante aproximadamente cem quilômetros da sede do município de Marabá. Já um mês depois o aglomerado de pessoas nos arredores passava de cinco mil. A notícia corria longe e atraía levas e mais levas de maranhenses, piauienses, cearenses, baianos, paraibanos e outros. Instalado o garimpo, logo chega à região a primeira comitiva do governo federal. Foi quando o major Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo Sebastião Curió, toma em suas mãos o controle da área, controle que iria se perpetuar por muito tempo.

Curió é uma sinistra figura do aparato repressivo brasileiro. Teve ativa participação no combate ao movimento conhecido como Guerrilha do Araguaia. Muitos dizem que ele sabe onde se encontram diversas ossadas dos participantes da guerrilha, tidos como desaparecidos, mas se nega sequer a tocar no assunto.

Curió participou também no episódio do Massacre da Lapa, onde importantes membros do Comitê Central do PCdoB foram delatados e assassinados. Hoje, Curió exerce o segundo mandato de prefeito no município de Curionópolis (cidade de Curió, em sua 'homenagem'), cuja área engloba as terras de Serra Pelada.

Desde o início, Sebastião Curió se auto-intitulou coordenador do garimpo, sendo que por esta época era agente do Sistema Nacional de Informação (SNI). Posteriormente tornou-se presidente da primeira cooperativa de garimpeiros (Coomi-gasp) e, em seguida, elegeu-se deputado federal pelo PFL, fazendo da luta garimpeira um palanque . Sua condição de parlamentar e de oficial da reserva livrou-o de dezenas de inquéritos, inclusive por assassinatos. Atualmente ele é um dos que negocia junto à Companhia Vale do Rio Doce os destinos de Serra Pelada, mesmo com o repúdio de grande parcela dos garimpeiros.

Curió deve

Dentro de Serra Pelada Curió significou o controle absoluto do regime militar. Com total apoio do general-presidente João Batista Figueiredo (que esteve pessoalmente na área), Curió manobrou, mentiu, fez populismo, instigou, negociou, justiçou. Uma de suas primeiras medidas foi recolher todas as armas de fogo dos garimpeiros, alegando que as mesmas seriam devolvidas, devidamente acompanhadas de registro federal. O povo desarmado ficou refém das armas 'oficiais'.

Instalaram-se nas vias de acesso ao local vários postos de revista da Polícia Militar e Federal, impedindo que muitos sequer chegassem ao garimpo. Mesmo assim a presença dos 'furões' (sem autorização) era grande. Nesses tempos Serra Pelada era considerada Área de Segurança Nacional. Junto com a polícia vieram também algumas pequenas agências bancárias e as igrejas. No auge da mineração foi proibida a entrada de bebidas alcoólicas e mulheres, fazendo surgir um mercado interno clandestino de cachaça e prostituição. Às oito e às dezoito horas havia em Serra Pelada o hasteamento das bandeiras do Brasil, do Pará e de Marabá, tudo ao som do hino nacional. Essa era uma prática que buscava identificação, reconhecimento e legitimação da presença ostensiva do Estado dentro do garimpo. A aparente ordem e disciplina militares contrastavam com o grande número de conflitos internos, com a onda de doenças facilmente debeláveis, como hepatite, pneumonia, hanseníase e principalmente malária, isso sem contar com os inúmeros acidentes de trabalho (desmoronamento de barranco, mutilações, etc) e a progressiva contaminação pelo mercúrio.

Como verdadeiras válvulas de escape à dura realidade e às desumanas condições de trabalho, foram levados até Serra Pelada vários eventos como shows, reportagens enaltecendo o lugar (Rádio Nacional de Brasília, rede Globo de televisão) e até Os Trapalhões. Crescia assustadoramente o número de cabarés e bordéis nas proximidades, onde a figura do garimpeiro com grosso cordão de ouro, dente de ouro e um enorme toca-fitas a tiracolo era sinônimo de esbanjamento de dinheiro. Carros novos, chuva de dinheiro e excessos desnecessários faziam parte da vida dos garimpeiros que 'bamburravam' (enriqueciam).

Alguns casos viraram lendas, como o do garimpeiro que só tomava banho com água mineral e do outro que fretou um Boing 747, de Belém a São Paulo, somente para visitar uma antiga namorada. Mas essas histórias de fortuna não passaram de pequenas gotas num oceano de frustração e pobreza.

A grande massa garimpeira entrou em Serra Pelada pobre e saiu miserável (quando saiu!). Muitos daqueles homens se transformaram num enorme exército de reserva, ocioso, à disposição dos latifundiários locais. Ao contrário do que prega o senso-comum na região, a ruína dos garimpeiros não se deu graças a seu 'despreparo' para administrar o dinheiro ganho. Sua desgraça foi a própria formação do garimpo (e seus apêndices), a própria ilusão do enriquecimento relâmpago ao alcance de todos, a corrida alucinada do ouro a qualquer custo. O sonho não realizado levou-os à tragédia.

A falência de Serra Pelada foi que os militares tentaram fazer dela uma política para se contrapor aos ideais de justiça e rebeldia defendidos e propagados pelos guerrilheiros do Araguaia.

Buscava-se canalizar tensões sociais existentes — os anseios do povo por vida digna — para uma aventura individualista e cega pelo ouro. Mas o fracasso desse projeto veio logo porque, ao aglutinar um gigantesco contingente de pobres num determinado espaço, as demandas do Araguaia (que são as demandas das mais humildes camadas) por pão, terra e justiça rapidamente vieram à tona. E o caldeirão ferve até hoje, sendo que os conflitos agrários do sul do Pará muito se devem àqueles que, instalados na região e sem alcançar o prometido Eldorado, lutam agora por seu justo pedaço de chão.

Fantasma da guerrilha

Serra Pelada já foi considerado o maior garimpo manual do mundo. Diz-se que de lá foram extraídas 40 toneladas de ouro, o equivalente a mais de 1 bilhão de dólares. Pesquisas da Vale do Rio Doce (detentora dos direitos de exploração da área, desde 1989) detectaram a presença de uma super-jazida de 150 toneladas de ouro, localizada a 400 metros de profundidade.

Segundo os engenheiros da Vale, são necessárias modernas técnicas de mecanização para se atingir o ouro. Só que os participantes do auge de Serra Pelada ainda lutam por seus direitos sobre a área, sendo que muitos ainda permanecem no local. A Vale chegou a propor, como indenização aos garimpeiros cadastrados em cooperativa, a construção de casas e 6 mil reais por cabeça. Essa proposta, obviamente, foi rechaçada pelos garimpeiros.

As disputas e interesses por Serra Pelada seguem gerando conflitos e mortes na região. As divergências passam também por um fundo de R$ 150 milhões, depositado à época em nome dos garimpeiros na Caixa Econômica Federal, que nunca foi resgatado. Muitos trabalhadores não conseguem provar que realmente estiveram no garimpo e o tumulto é grande quando há algum tipo de recadastramento. O que está em jogo é quem ficará com todo esse dinheiro e quem terá direito à "laje de ouro", como alguns chamam a jazida.

A luta encarniçada que acontece na região pela destruição do latifúndio é um outro capitulo da história atual dos garimpeiros que, na verdade, nada mais são que camponeses pobres saídos de sua terra, pessoas que sonharam e ainda seguem sonhando com libertação. A tentativa de dissipar o "fantasma da Guerrilha" do sul paraense definitivamente não vingou. E o povo o tem demonstrado no decorrer desses anos, com suas lutas radicalizadas, seu espírito, sua disposição, seu sangue.

É preciso captar as lições de Serra Pelada, essa saga de milhares de pobres. A luta de classes desenvolve-se à revelia das artimanhas e estratégias dos poderosos. Onde quer que exista opressão necessariamente haverá insubordinação. Onde quer que haja massas em movimento necessariamente estarão presentes as bandeiras e anseios do Araguaia. Enfim, cabe dizer que onde houver povo, este tratará sempre de ressuscitar Oswaldão, Dina, Helenira, Grabóis (pai e filho)... e suas palavras de alforria.

Cresce violentamente a luta camponesa no Pará

Mortes, despejos, prisões, bloqueios de rodovias. O constante conflito entre camponeses pobres e latifundiários na região sul do Pará se agravou consideravelmente nas primeiras semanas do mês de junho. Tudo graças ao início de uma nova ofensiva político-militar do Estado brasileiro, que determinou o cumprimento de 42 mandatos de reintegração de posse na região.

O Comando de Missões Especiais da Polícia Militar do Pará, dividido em Comando de Operações Especiais, Tático, Canil, Cavalaria e Tropa de Choque conta com cerca de 250 homens, além de apoio de órgãos como Incra, Ibama, Polícia Federal e Vara Agrária começaram as ações pelo município de Conceição do Araguaia, onde aproximadamente 300 famílias camponesas viram seus barracos serem derrubados, suas roças queimadas, além de serem deixadas à própria sorte nas ruas da cidade. Agora a polícia concentra-se nos municípios de Xinguara, Curionópolis, Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá.

Legítima defesa

Diante de toda humilhação e truculência com que foram arrancados de suas terras, os camponeses da região, muitas vezes se rebelando contra dirigentes vacilantes e politiqueiros, organizaram um gigantesco bloqueio das rodovias sulparaenses. Marabá, principal centro econômico da região, ficou completamente isolada.

Foram interditadas as rodovias PA-150, que liga Marabá a Eldorado dos Carajás; a Br-222, rumo à cidade de Dom Elizeu; e a Br-230 (Transamazônica), onde inclusive segue em plena atividade a Operação Pacajá, comandada pelo Exército brasileiro desde o assassinato da missionária americana Dorothy Stang. O movimento fala agora em interditar a Estrada de Ferro Carajás (da Companhia Vale do Rio Doce) e até o aeroporto de Marabá, como forma de exigir do Incra alguma posição quanto aos camponeses despejados.

A situação piorou bastante após o assassinato de Antônio Matos Filho, um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Parauapebas. Desconfia-se que sua morte seja fruto da ação de pistoleiros a mando de fazendeiros. A 23ª Brigada de Infantaria de Selva tem feito movimento na região e o clima é de guerra. Helicópteros, sirenes, tropas, criminalização na imprensa local.

Os índios da tribo Gavião-Parkatejê entraram em choque com manifestantes que bloqueavam a estrada de acesso à aldeia Mãe Maria.

O Sindicato dos Produtores Rurais de Marabá, representante da classe latifundiária da região, entrou com uma representação criminal junto à Justiça Federal exigindo que as rodovias sejam desobstruídas. Também assinam essa representação à Prefeitura e Câmara Municipal de Marabá, o Rotary Club, a Loja Maçônica, Lyons Club e alguns empresários. Reivindicam seu "constitucional direito de ir e vir". Só não pronunciam sequer uma palavra sobre os absurdos e 'ilegalidades' cometidas contra os pobres como os espancamentos que ocorreram e a fome que agora ronda as famílias desalojadas.

Os camponeses têm jogado por terra as últimas ilusões que ainda mantinham com relação à administração FMI-PT e sua prometida "reforma" agrária. E a cada nova tropa que desembarca no sul do Pará, cresce o ódio dessa legião de homens e mulheres que não abrirão mão da luta contra o latifúndio, em busca de dignidade.

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