Porque é justa a causa camponesa

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Trabalho coletivo durante 1o curso de formação política do Norte de Minas

Rompendo séculos de dominação e exploração sobre o povo, a Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas Gerais, através de muitas lutas, atingiu uma organização jamais alcançada anteriormente. São 4 mil famílias lutando pela terra, se revezando em 52 acampamentos e áreas livres (a maior parte, acampamentos) organizadas em lotes, dentro das áreas expropriadas ao expropriador latifundiário.

Juntos, os camponeses dividiram mais terras entre eles do que qualquer governo imaginou fazê-lo com sua reforma agrária metafórica — expropriando-as dos latifundiários em municípios como Montes Claros, Porteirinha, Verdelândia, Varzelândia, Nova Porteirinha, Montalvânia, Manga, Juvenília, Jaíba, Itacarambi e Januária — e as transformaram imediatamente em terras de produção organizada.

Desde os acampamentos, os camponeses instituem as frentes de serviço para o plantio, a colheita, a construção de equipamentos sociais etc. Plantam principalmente milho, feijão, abóbora, arroz e hortaliças, uma produção que gira em torno de 100 mil toneladas entre acampamentos e áreas de consolidação de residências e produção, além da criação de animais como galinhas e porcos.

O movimento camponês cresce no Norte de Minas, seja pela liderança direta da Liga, como pela ação das massas que se desligam do cartel oportunista denominado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST, além dos camponeses sem qualquer filiação, que espontaneamente enfrentam o latifúndio.

A consolidação política da Liga dos Camponeses Pobres LCP, em várias regiões, como a organização mais consequente entre os trabalhadores do campo, atinge em prestígio a população vizinha às terras expropriadas por ela e fortalece a luta pela extinção do latifúndio em nosso país.

A luta dos camponeses contra o latifúndio e terra para quem nela produz, constituem as duas bandeiras fundamentais do movimento camponês do Norte de Minas. É tremenda a responsabilidade dos camponeses; a luta pela terra — uma vez anunciada, travada e sustentada — passa a ter vida própria. E se é justa, não mais pertence a um grupo, mas a todo o povo.

Ajuda mútua

— Está bem encaminhada, estamos muito satisfeitos pelo nosso trabalho na região — afirma o camponês Almerindo Soares dos Reis, o Bigode.

Natural de Verdelândia, Bigode hoje é um dos coordenadores de produção do Acampamento Modelo, localizado em Verdelândia, uma área conquistada legalmente no início deste ano e que já produz alimentos para as famílias que ali vivem. Todo o trabalho é organizado coletivamente para que a produção tenha sucesso na colheita, distribuição e venda.

Uma vez ocupada a terra, os camponeses levantam a cozinha coletiva. Em seguida, dividem a terra entre as famílias em áreas de 100 metros de frente para o plantio. O trabalho, então, tem como princípio a coletividade, a união de forças visando o interesse comum. A partir daí são montadas as frentes de trabalho, onde grupos de 10 famílias, orientadas por um coordenador, produzem e vendem a colheita. Os camponeses defendem sempre o princípio do trabalho coletivo e a formação dos grupos de ajuda mútua, que compartilham tanto na produção, quanto no conhecimento.

Num coletivo de 50, 60 famílias, é preciso reunir todos e eleger democraticamente os coordenadores. Às vezes, acontece de algumas pessoas ficarem insatisfeitas em uma brigada que cultiva um produto com o qual não tem afinidade, ainda que o conjunto dos camponeses se esforcem para colocar as pessoas no grupo de produção de sua preferência.

As Ligas dos Camponeses Pobres têm em seu programa a luta pela produção no caminho da libertação das forças produtivas — que são as forças que produzem os bens materiais para a sociedade: os homens, os instrumentos de trabalho, a técnica, as tradições de ofício.

A cada terra expropriada ao latifúndio é necessário estimular a produção de hortas, lavouras em geral, criação de animais etc., como meios de sustentação mas, principalmente, organizar a ajuda mútua para vencer a cultura do individualismo, acumular forças no sentido de adquirir insumos, transportar com maior facilidade e comercializar a produção.

Vencendo essas barreiras, aumenta o desejo de transformação das relações sociais de produção e do desenvolvimento das forças produtivas. Hoje, fica demonstrada a mudança na vida de quem antes de entrar na luta não conseguia produzir nada.

— Essa é uma vantagem. Acabamos com muita fome no Norte de Minas. Camponeses que nunca haviam produzido nada para a família sobreviver, hoje têm mostrado serviço devido ao trabalho coletivo. Plantamos cenoura, cebola, muitas hortaliças e criamos galinhas — se orgulha Bigode.

Segundo Almerindo, o coletivo em cada área é pequeno, os coordenadores ainda não conseguiram convencer todas as famílias a participarem de muitos trabalhos coletivos, o que acontece aos poucos nas reuniões e nos seminários de produção, realizados anualmente, e preparatórios para o Congresso da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas.

— Eles começam a confiar que em coletivo fica mais fácil para comprar equipamentos e trabalhar. Hoje o coletivo funciona bem e serve de exemplo para aqueles que ainda insistem em produzir sozinhos — afirma Bigode.

Bigode, explica que há uma coordenação, que anota o tempo de serviço de cada um para que receba segundo o seu trabalho, tanto o da lavoura, quanto pelo tempo gasto com idas na cidade para comprar insumos ou negociar e vender a produção.

Não aceitam migalhas

Os camponeses avaliam que é preciso fazer mais reuniões, debater, estudar e antecipar os problemas. Um deles, a auto-sustentação, precisa se desenvolver através da regularização das contribuições da Liga, um fundo para gastos que conta com contribuições de até R$ 2,00 dos próprios camponeses, dinheiro aplicado na produção e organização da luta.

A organização dos camponeses e a imensa capacidade de produção fazem frente às covardes ações de desapropriação implementadas pelo governo. Atualmente, a grande quantidade de terras arrancadas do latifúndio e trabalhadas já começa a impedir que o gerenciamento FMI-PT faça como outras gerências que o antecederam, quando diante da demanda camponesa, dava dinheiro a um ou a outro latifundiário para ele se afastar. Hoje, essa não é mais uma solução, devido ao próprio crescimento arrebatador do movimento camponês que exige a extinção total do latifúndio. Também as intenções petistas no governo de promover doações de terra para uns poucos camponeses, acompanhadas de cenas de compaixão e filantropia, já não servem para nada.

Não há como impedir que a luta pela terra revele todo seu peso, sua importância econômica e política.

Várias áreas enfrentam grandes dificuldades de comercialização devido à ganância dos atravessadores. Eles procuram sempre explorar os camponeses comprando a baixo preço os produtos e vendendo com grande lucro.

— Até hoje eu não vendi nenhuma saca de milho das 80 que devo colher, porque preciso esperar o preço valorizar. Hoje, a saca custa menos da metade do preço de compra da saca para plantar, que é de 20 quilos de milho selecionado, muito cara — desanima Bigode.

As hortaliças são de consumo imediato dos camponeses. Às vezes o produto excedente é vendido nas feiras das cidades próximas, mas isso só acontece quando é possível transportar em tempo hábil o produto, providência mais difícil nas áreas afastadas das cidades. Alho e temperos em geral os camponeses nem compram mais; tudo vem da terra. Os produtos têm grande aceitação da população das cidades vizinhas, sempre muito satisfeita com a qualidade dos alimentos.

Cooperativas de novo tipo


Acampamento modelo em Verdelândia

A grande maioria das mercadorias é vendida para atravessadores a baixo preço. Mas os camponeses discutem nas varas agrárias uma forma de acabar com os preços abusivos, já que os produtos não têm condições de serem oferecidos em larga escala, por enquanto.

Atravessadores chegam a comprar por apenas R$ 15,00 a saca de milho de 60 quilos, enquanto algumas famílias pagam R$ 35,00 por saca de 20 quilos do produto para o plantio. Diante disso, e cuidando para não sonegar alimentos ao povo, os camponeses constroem paióis destinados a armazenar a safra, até que se alcance um preço justo no período da comercialização. Um dos agravantes no escoamento da produção é quando as áreas vizinhas são grandes latifúndios. Não há relações entre essas áreas e as concentrações de camponeses. Até mesmo as famílias que trabalham para os latifundiários não se aproximam dos camponeses temendo represália de quem os explora.

Outra iniciativa dos camponeses é a consolidação de cooperativas na região para vender o produto produzido por eles direto ao consumidor, sem a interferência dos atravessadores com ganhos que superam a 50% o valor do produto.

— Hoje, um quilo de milho no supermercado custa cerca de R$ 0,50, enquanto que nós vendemos a saca de 60 quilos por míseros R$ 15,00 — diz Almerindo.

Tanto cooperativas quanto a produção em coletivo tem o objetivo de valorizar o produto.

— Com o coletivo, a produção é valorizada na hora de acertar o preço de venda. Individualmente, cada um vende a saca pelo preço que prefere e não gera um valor fixo — afirma Bigode.

O latifundiário teme é que a Liga tire os empregados de sua influência e os transforme em camponeses livres.

Todas essas dificuldades e conquistas são debatidas com o intuito de aumentar a organização, e melhorar as condições de vida e de produção dos camponeses. Isso acontece durante os seminários de produção, onde os coordenadores dos vários acampamentos e áreas livres da região se reúnem e prestam conta da produção de sua área, do volume de venda e de consumo, além de debaterem sobre os caminhos do movimento.

Mas o processo de produção é fundamentado na independência econômica. Os camponeses estão hoje desenvolvendo, no Norte de Minas, a sua própria semente de plantio, a semente crioula.

Produzida pelos camponeses através de técnicas aprendidas por quem trabalha a terra há gerações, as sementes de paiol são usadas no plantio de lavouras de feijão e milho e produzidas sem nenhuma contaminação química, um grande avanço para quem vive daquilo que colhe e tem os olhos abertos para uma melhor qualidade de vida.

— A nossa semente é a melhor, a nossa prática é pegar o milho três dedos acima do centro, de onde sai uma semente muito boa. Essa prática é do tempo dos nossos bisavôs — conta o camponês.

Libertar a terra e o nosso povo

O sistema de produção dos latifúndios estimula a concentração e a monopolização de vastas áreas de terra, sub-utiliza os meios de produção em seu poder e leva à exaustão as forças produtivas: o homem, as técnicas, os instrumentos de trabalho, os ofícios e a tradição de trabalho. Sua estrutura básica nas relações sociais de produção é semifeudal, onde constitui grande obstáculo ao progresso econômico, político e cultural.

Em geral, o latifundiário, diferente do camponês médio e rico, propriamente, volta-se para a monocultura e se envolve com o mercado externo. Submisso diante dos mais fortes, pela própria natureza do seu negócio, o latifundiário exerce um grande poder estatal. Ele retira dos cofres públicos a compensação para os seus prejuízos no plano internacional, serve como testa de ferro das grandes transnacionais no sistema de Estado e de governo, negocia o território nacional com as grandes corporações, aluga suas terras para os projetos de plantation e, mais recentemente, entrega de vez as reservas florestais para o imperialismo. Necessariamente, o latifúndio, mesmo sem a ajuda do imperialismo, destrói todo o meio geográfico, com tudo o que marca esse tipo de propriedade e os seus negócios. Aliado ao imperialismo, a destruição alcança projeções que ultrapassam o poder da imaginação, como vem acontecendo com a Amazônia brasileira.

O poder político do latifúndio é descaradamente associado às corporações imperialistas que necessitam de áreas atrasadas para se apoderarem dos territórios nacionais.

Internamente, o latifúndio — ao aprofundar suas relações com o domínio capitalista estrangeiro que evoluiu para a etapa imperialista — produziu na débil burguesia nativa, um setor de "vocação" intermediária, dedicado aos negócios de importação e exportação e à especulação financeira, auxiliar das potências imperialistas. Esse setor assegurou para si o papel burocrático, um tipo especial de capitalismo dedicado às burguesias de países semi-feudais e semicoloniais.

A partir de abril de 1964, o poder estatal no Brasil é definitivamente dividido, então, pelo latifúndio, pela burguesia e pelo imperialismo, sob a hegemonia deste último. Essa aliança espúria de classes impôs o capitalismo de Estado, intervindo diretamente no processo econômico para impulsionar os monopólios privados e suas associações estrangeiras. Mais recentemente, o Estado atua como regulador da "livre negociação privada".

Principalmente a partir da contra-revolução de 1964, seja sob a antiga gerência militar ou sob a gerência do oportunismo, a linha latifundiária assegurada pela economia latifundiária-burocrática-imperialista, permanece ditando leis agrárias expropriatórias, antipopulares, antidemocráticas e antinacionais e garante o domínio das relações semifeudais e semicoloniais em nosso país.

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