Porque trabalham e podem querer

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Entrevista com o companheiro Zé Pedro, membro da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia — uma das lideranças dos camponeses da região de Jacinópolis — concedida a Jânio Batista Nascimento, para A Nova Democracia.


Projeto Jacinópolis: cidade criada pela resistência dos camponeses

Como vocês vieram para esta área? Qual é a história desta área?

O povo começou a entrar para cá em 1999, mas começou a desenvolver mesmo a partir de 2001. Eu cheguei aqui nessa época. A gente atravessava o rio de balsa. Os latifundiários já haviam demarcado a área com picadas. Eram áreas grandes.

Logo que chegamos, dividimos a terra em lotes de 21 alqueires, fazendo as linhas. Levantamos os documentos da associação para fundar Jacinópolis e medir as datas para fundar o projeto. Fizemos tudo isto sem ajuda de nenhum político; tudo aqui foi feito pelo povo. Como a área tinha muita mata, os madeireiros tinham grande interesse nela, mas assim que o povo entrou na área proibiu as madeireiras de trabalharem.

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Trecho da estrada construído pelos camponeses

Começou a ter combates entre camponeses, latifundiários e grandes madeireiros. A primeira madeireira a perseguir o povo foi a Condor, cujos donos são de Ji-Paraná (Geraldo Coleto), que até hoje tem grandes áreas por aqui. A Condor fez massacre de 14 famílias em Jacilândia, que é outro distrito. Matou crianças, mulheres, pais de família e jogou todos no rio. Nunca houve punição.

Aí o pessoal de Jacilândia veio para Jacinópolis. Foi quando os camponeses começaram a se organizar e tomaram conhecimento da Liga dos Camponeses Pobres. Esse movimento organizou o povo. Fizemos mutirões, abrimos as linhas. Outros pequenos madeireiros também ajudaram e abriram as estradas.

Tudo que tem em Jacinópolis foi construído pelo povo, sem ajuda de governo. Hoje contamos com mercados, linhas de ônibus, táxi, açougue. Já estamos estabilizados. O povo está em cima da terra, mas o Incra não regulariza. Ainda existem enfrentamentos, porque apesar da área ser da União, destinada a estabelecer as famílias camponesas, a justiça decretou um mandado de liminar de despejo para beneficiar os latifundiários que não têm nada aqui.

Quantas famílias estão em Jacinópolis?

— Tem cerca de 750 famílias.

E a área tem quantos hectares?

— É difícil calcular, pois aqui pega a gleba Capivari, Novo Oriente e o Rio Jaci. Dentro da gleba Capivari tem a fazenda Botelho com 9 mil alqueires, a fazenda Condor...

O que o povo produz aqui?

— Já temos muita banana, arroz, milho, temos três máquinas cerealistas lotadas de produção. Tem muita roça. Ao todo são 10 mil cabeças de gado, dois açougues, porcos e galinhas.

Qual a maior dificuldade da produção?

— Uma das coisas que está nos preocupando é o leite. Não temos como escoar esse tipo de produção. Estamos perdendo, por dia, uma faixa de 800 litros de leite. Fazemos queijo, requeijão, mas ainda sobra.

Quantas pessoas vivem no patrimônio (povoado)?

— Hoje tem cerca de 1.200 famílias. Existem quatro serrarias e uma laminadora. Todas empresas pequenas.

Quantos comércios?

— São 12 pontos comerciais, entre mercados e veterinárias, três hotéis, duas linhas de ônibus e mais seis táxis que fazem lotação para Buritis.

Qual foi o momento mais difícil?

— Aqui é muito atacado pela malária, principalmente no período das chuvas. Outra dificuldade era quando não existia a ponte sobre o Rio Jaci. Na época, se atravessava de balsa de tambor, as motos dentro da água. Estragava muitas motos. Faz dois anos que a ponte foi feita e melhorou um pouco, porque permitiu o pessoal entrar com as famílias.

Teve um companheiro que foi assassinado também?

— Aqui tiveram dois assassinatos que marcaram. Três latifundiários da região pagaram pistoleiros para matar o presidente da associação. Os pistoleiros confundiram a pessoa e pegaram um senhor, o Maninho, e mataram na beira do rio. Caparam ele vivo e depois bateram na cabeça. Ele foi esquartejado, cortaram as juntas dos pés e jogaram no rio. Depois de três dias ele foi achado pelo povo. Isto foi em 2001.

O segundo assassinato foi a mando do latifundiário Carlos Schumann, que mandou seus pistoleiros matar o companheiro Ozéias Martins. Ele foi pego quando procurava outro companheiro que havia se perdido na mata. Os pistoleiros o mataram com 11 tiros à queima roupa e tentaram queimar seu corpo.

Qual outro tipo de perseguição dos latifundiários?

— Quando entramos aqui eles colocavam muitos pistoleiros para perseguir as pessoas. Hoje é a polícia que está perseguindo. Fica acusando os trabalhadores, dizendo que em Jacinópolis só existem bandidos. Quando na verdade os bandidos que existem são os traficantes de drogas que vêm de Guajará-Mirim (fronteira com a Bolívia), sem contar que o maior tráfico de droga pertence mesmo é à polícia, que fica roubando moto de todo mundo. O povo que trabalha não tem tempo de mexer com isso, porque a terra existe e é onde ele quer trabalhar. Os traficantes passam nas estradas e eles acusam o povo que trabalha.

Quais as fazendas mais próximas da região?

— A fazenda mais próxima é a Botelho. A segunda, é a Condor. Uma parte é fazenda e a outra eles querem fazer plano de manejo florestal, mas na verdade já tiraram toda a madeira de lei. Estão segurando as terras para fazer confusão.

E qual o tamanho destas áreas?

— Essa área mais próxima de Jacinópolis tem 6 mil alqueires. Agora, atravessando a BR 421, a Condor têm uma área de 45 mil alqueires. Depois dela vem a fazenda do Catâneo, com 18 mil alqueires, e a do Amorim, com 9 mil alqueires. Além dessas existem outras terras, de 3 ou 4 mil alqueires. Tudo isso é terra grilada da União por estes latifundiários.

Esta tomada de terra em Jacinópolis é conhecida em várias partes de Rondônia. A partir dela surgiram outras?

— Nesta região tem um acampamento que fica na beira do rio Teixeirão, entre Buritis e Jacinópolis, e tem outro na BR 421 onde os companheiros tomaram as terras de um latifundiário chamado Lourival. Também são terras da União que foram griladas pelos latifundiários.

Qual a origem social dessas famílias do Jacinópolis?

— Estas famílias que vieram para cá são pessoas pobres que não possuíam terra e viviam trabalhando para os outros, em colheita de café, roçadas, derrubadas ou tomavam conta de terras dos outros. Aqui, na região, todo mundo chegou sem dinheiro e o que conseguiram foi com a força do braço, com a força do trabalho. Quem conseguiu terra, hoje está melhor, quem não conseguiu está esperando conquistar. E sabem que para conseguir terra, hoje em dia, só se for através de uma revolução agrária, nunca pelo Incra.

Você viu alguma mudança na vida desses camponeses com a conquista da terra?

— Olha, a mudança aqui não foi de 100 %. Foi de 1.000 %, porque, eu mesmo, antes, não tinha nem lugar para morar. Hoje, já estamos ajudando a gerar serviços dentro de Jacinópolis. Igual a gente existem muitas pessoas que não tinham nada e agora estão trabalhando e conseguindo produzir.

Quantas escolas existem no projeto?

— Hoje, existem seis salas de aula. E nas linhas temos oito escolas. Não sei exatamente o número de alunos, mas são muitos.

Houve muito apoio dos pequenos comerciantes ao movimento?

— Os comerciantes sempre ajudaram com gasolina, pagando transporte para trazer mercadorias. Tem um comerciante de Buritis, que hoje até montou um mercado aqui em Jacinópolis, que sempre se prontificou a ajudar. Facilitava nas compras a prazo.

Qual a principal reivindicação do povo de Jacinópolis, hoje?

— O principal objetivo é o reconhecimento das terras pelo Incra. O outro, é a abertura das estradas para Nova Mamoré e aumentar o número de áreas cortadas na região. Minhas considerações são que hoje não temos nada a agradecer ao prefeito, porque, se ele fez alguma coisa, foi por obrigação. Nada temos o que agradecer ao governo.

Temos de agradecer à Liga dos Camponeses Pobres, que deu apoio quando a gente mais precisou. Ficou com a gente no mato, ajudou a organizar e incentivar os companheiros para lutar e conseguir um pedaço de terra. Temos de agradecer à Liga, porque se manteve com a gente na hora do desespero e do sufoco, quando a polícia estava perseguindo e rondando com helicópteros, dando assistência ao latifundiário por causa da morte de seu gerente — que era um dos maiores pistoleiros da região, acostumado a matar gente inocente. Então a polícia não veio por nós, veio pelo latifundiário. A Liga dos Camponeses Pobres veio pelo povo que estava aqui dentro, e não pelo latifundiário. Temos de agradecer e dizer: é nossa vontade que o povo se organize cada vez mais na Liga dos Camponeses Pobres.

Quando a vontade é poder

Os camponeses de Jacinópolis provam como os trabalhadores livres exercem o novo poder político nas áreas libertadas do latifúndio. De forma independente, terminaram a tão almejada construção da estrada que liga a cidade ao município de Nova Mamoré.

A estrada de terra de 126 km, que consta até mesmo em mapas oficiais como a BR-421, teve suas obras interrompidas há vários anos devido a um laudo do IBAMA que impedia a finalização dos 16 km restantes entre as duas cidades, onde se localiza o Parque Estadual Guajará-Mirim. Segundo o laudo, a distância restante atravessa uma área de reserva ecológica que não podia sofrer nenhum tipo de impacto ambiental, mas a verdade é que é conveniente ao Estado isolar uma área onde não encontra apoio político em meio aos camponeses que se organizam de forma independente e combativa.

O laudo do IBAMA, somado à inércia do governo do estado de Rondônia em arranjar outra solução para o problema forçaram os camponeses a se organizarem e decidirem por contra própria terminar o restante do caminho, afinal esta obra só beneficiaria aos camponeses e às pequenas cidades vizinhas. Também pesou na decisão dos moradores da cidade a necessidade de escoar a produção de arroz, milho, feijão, cacau e café, os principais produtos produzidos na cidade, para as cidades vizinhas e para a capital, Porto Velho.

Sem essa estrada, o único caminho entre as cidades de Nova Mamoré e Jacinópolis era por um caminho de 700 km que passava por outras 3 cidades, incluindo a capital, o que impedia o comércio entre as duas cidades. Com a construção da etapa restante da BR-421, essa distância caiu para apenas 126 km, diminuindo também o trecho entre Jacinópolis e Porto Velho. A diminuição da distância também vai ajudar no controle de doenças que atingem o povo do campo, como a malária, uma vez que facilita a chegada de medicamentos e dos agentes da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) que borrifam o veneno que mata o mosquito transmissor da malária. Além disso, fica mais fácil aos moradores de Jacinópolis o acesso à educação e aos recursos disponíveis nas outras cidades, como hospitais.

Sempre organizados

Com a organização costumeira dos camponeses foi possível a finalização da BR-421. Uma vez que ao governo não interessava tomar frente na solução do problema, os camponeses tiraram um dia para organizar a construção por conta própria. Foi resolvido que o comércio seria fechado até o término da obra e, com a ajuda dos comerciantes da região, incluindo as 9 pequenas madeireiras da cidade, foi levantado material suficiente para terminar a construção.

Motosserras para abrir caminho entre a mata, caminhões para o transporte do pessoal, do equipamento e de alimentos, além de tratores e outros maquinários. Cerca de 600 pessoas foram destacadas para ajudar na construção. Partindo de Jacinópolis foram construídos 11 km e de Nova Mamoré os 5 restantes. Além do material, foram doados pelos camponeses e apoiadores 15 bois para a alimentação dos trabalhadores durante os dias de trabalho.

Com um trabalho intenso, os 16 km pendentes foram finalizados em apenas 4 dias, entre os dias 13 e 17 de novembro de 2005, o que possibilitou uma rápida retomada à normalidade do funcionamento do comércio. Após o término dos trabalhos, os 8 bois restantes foram doados para a realização de uma animada festa que marcou o final do intenso trabalho.

Essa atitude demonstra que nessas áreas os camponeses impulsionam a mudança das relações de produção e seguem desenvolvendo ininterruptamente as forças produtivas, coisa impossível sob o jugo do latifúndio.

Sobre a construção da ponte
Depoimento de Zé Pedro
"Desde o começo da entrada das famílias, o Rio Jaci foi um obstáculo geográfico para a conquista das terras. Os primeiros camponeses atravessavam a pé e de canoa, depois a sua travessia era feita numa balsa com tambores, que permitia transportar pouca coisa, como ferramentas, sementes. No caso de veículos e gado era impossível.

Isso dificultava muito a colonização das terras porque dependíamos desses meios para poder acelerar o controle da área, sem falar que a travessia na balsa era arriscada. Tínhamos que ficar aguardando na margem do rio e isso facilitava o ataque dos jagunços. Também a balsa só funcionava durante o dia e, caso algum companheiro chegasse mais tarde, tinha de ficar esperando até o outro dia, o que era arriscado.

Assim, a conquista definitiva das terras dependia de termos um acesso mais fácil, que permitisse a entrada de maquinários e animais, assim como as famílias. Muitas só vieram para as terras depois que construímos a ponte, porque havia muitos casos de malária e, sem a ponte, o socorro médico ficava muito difícil.

Também nessa época tínhamos muita produção, que perdia por causa de não ter como atravesssar o rio.

Então, decidimos construir a ponte sobre o rio de forma coletiva. Juntamos os camponeses e pedimos apoio de alguns pequenos madeireiros para a construção. Os camponeses entraram com as madeiras e a mão de obra, e os pequenos madeireiros, com o maquinário (tratores, bate estaca, caminhões).

A construção foi difícil, sendo que muitos trabalhadores tinham que abandonar a obra por causa da malária. Havia muita perseguição dos latifundiários que não queriam ver a ponte construída. Essa obra trouxe muita animação para os camponeses. O boato logo correu e chegaram mais famílias.

A ponte tem mais ou menos 100 metros de extensão e depois de construída beneficiou a todos porque permitiu o acesso de caminhões, ônibus, motos, entrada de gado, maquinário para fazer estradas, enfim, trouxe progresso. Podemos dizer que vencemos um obstáculo da natureza com nosso trabalho e, hoje, graças a esta empreitada, a área está toda tomada."

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