Em memória de Amaro Lins

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Amaro Lins — ex-guerrilheiro do Araguaia — hoje faria 82 anos. Homem do povo, simples, como simples são todos os homens que não se deixaram corromper pelo sistema capitalista selvagem. Para ele, bastava ter uma moradia com o mínimo de sobrevivência, como terra para plantar.

Tinha um grande sonho — queria que todos tivessem condições dignas de vida, que para ele, como já disse acima, bastava pouco, e foi à luta por esse sonho. O sonho de uma sociedade igualitária, onde todos pudessem ter acesso ao mínimo de sobrevida, que é: alimento, moradia, educação, trabalho, enfim, uma sociedade justa.

Hoje está em outra dimensão, e nós sabemos que o sonho continua. Não morreu e continua em cada um de nós que tem o mesmo sonho. E, por esse sonho, por você que não viu esse sonho se realizar, por todos vocês ex-guerrilheiros do Araguaia que morreram combatendo por esse sonho.

Queremos dizer muito obrigado, o sonho não acabou, continua em cada um de nós.

Filhos, amigos e todos os brasileiros que sofrem as injustiças desse sistema, desejamos a vocês (ex-guerrilheiros) e ao nosso pai Amaro Lins esse poema que ilustra tão bem o nosso sonho, que um dia, nem que passem mil anos, se tornará realidade.

Cidade prevista
Dos filhos, netos e bisnetos
de Amaro Lins


Guarde-me para a epopéia
que jamais escreverei.
poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens minha inquetação,
fazei o canto adorozo,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casa sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
mas ele será um dia
o país de todo homem.

_______________________________
Carlos Drummond de Andrade
(extraído de “A Rosa do Povo” – 1943/1945)

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