As hostes do latifúndio

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No dia 26 de março um crime hediondo cometido por pistoleiros de um latifundiário revoltou os moradores do município de Campo Novo, em Rondônia. Dois camponeses foram assassinados e uma criança de 12 anos, alvejada na cabeça, foi levada a estado de coma. O latifúndio pretende instalar um clima de terror, com ameaças e perseguições aos camponeses da área Jacinópolis II.

"O covarde assassinato foi perpetrado a mando do latifundiário e grileiro Lourival Carlos de Lima. Nas barbas do INCRA e da Ouvidoria Agrária", denunciam as lideranças da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia.

Os camponeses da região afirmam que Lourival cercou 1.400 alqueires de terra pública quando, segundo a própria Ouvidoria Agrária, ele poderia ter no máximo 100 hectares. Os camponeses da região denunciaram o roubo de terras públicas, mas nenhuma providência foi tomada.

Todos avisados

"Mais de 50 famílias estão nesta área desde setembro de 2003, já cortaram os lotes por conta própria, construíram suas casas e estão produzindo", afirmaram os camponeses em um comunicado da LCP-RO.

O trabalho das famílias já produziu 40 alqueires plantados de arroz, milho, feijão e mandioca.

"Para evitar conflitos, os camponeses ofereceram 450 alqueires para Lourival, mas ele não aceitou e aumentou a perseguição contando com o apoio e a cumplicidade da juíza de Buritis, Dra. Cristiane Costa de Almeida, e do delegado da Polícia Civil, Dr. Iramar", prossegue o comunicado.

O quadro do conflito se agravou em junho de 2005. O INCRA e o ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva, declararam que as terras em questão são da União, confirmando as denúncias e declarando que Lourival Carlos de Lima não tem nenhum documento de posse e que os seus legítimos donos são os camponeses.

Ainda assim, as famílias que ocuparam a área foram despejados sem nenhuma ordem judicial. A coordenação da LCP de Rondônia denuncia o fato da juíza de Buritis haver tentado justificar os crimes do latifúndio alegando que não havia famílias sem-terra no acampamento, apenas bandidos e baderneiros.

Camponeses foram presos, humilhados e ameaçados de morte por policiais; o latifundiário soltou suas cabeças de gado nas plantações.

Todas estas arbitrariedades foram amplamente denunciadas na região. A Ouvidoria Agrária foi comunicada e a LCP-RO exigiu que fosse reconhecida a situação de conflito agrário na área e que fossem tomadas providências para evitar um desenrolar sangrento para o caso.

Crime premeditado

Em fevereiro, o delegado Iramar comandou um grupo de policiais na execução de um mandato de apreensão de armas e veículos supostamente irregulares que estariam na área. Nesta ocasião, o latifundiário Lourival e seus pistoleiros, descumprindo a lei, estiveram presentes e fizeram uma série de ameaças contra as famílias de camponeses. Nada foi encontrado.

As lideranças do acampamento concluíram que esta medida reforça a suspeita de que a operação tinha como objetivo certificar que os camponeses não tivessem meios para se defender do futuro ataque do latifúndio.

Em seu último boletim, a LCP denuncia que dois dias após esta busca, o latifundiário Lourival, acompanhado de quatro pistoleiros em uma caminhonete, deflagrou vários tiros de pistola contra cinco camponeses que trabalhavam no reparo de uma cerca. Novamente, cinco dias depois, o latifundiário e um pistoleiro armado ameaçaram um morador do acampamento que capinava um mandiocal:

"Se não saírem da área o sangue vai correr", bradou o latifundiário.

No dia 13 de março, os camponeses prestaram um depoimento ao delegado e, novamente o latifundiário estava presente. Desta vez Lourival, acompanhado de seus pistoleiros, de forma arrogante, aos gritos, empurrou e ameaçou o Dr. Ermógenes, advogado dos camponeses.

Covardes se escondem

O assassinato do dia 26 de março ocorreu em uma venda, próximo à Rodovia 421, no município de Campo Novo. Depois de comprar mantimentos, os camponeses se preparavam para ir embora quando dois pistoleiros chegaram em uma motocicleta atirando.

O camponês José Vanderlei Parvewfki, conhecido na região como Polaco, foi atingido com vários tiros de pistola e morreu na hora. Nélio Lima Azevedo, conhecido como Pindaíba, foi atingido com 5 tiros nas costas e morreu fora do estabelecimento comercial. Lucas, uma criança de 12 anos, foi atingido na cabeça e encontra-se em estado de coma. Os outros moradores do acampamento que os acompanhavam conseguiram por pouco escapar da emboscada.

As famílias do acampamento atribuem responsabilidade também ao INCRA e à Ouvidoria Agrária Nacional:

"Eles tinham condições de evitar esta chacina se tivessem regularizado as terras dos camponeses, mas lavaram as mãos, mesmo sabendo das denúncias contra o latifundiário".

Esta terra é nossa

"Esta é a reforma agrária do governo FMI/Lula: para os camponeses, fome, desemprego, enrolação, despejos, processos, prisões e morte. Enquanto para os latifundiários, financiamentos milionários e impunidade para seguir matando o povo com seus bandos armados.

Isto tem que ter um fim! Basta de injustiça! Basta de impunidade! O povo pobre não aguenta e não quer mais continuar vivendo assim. O povo quer terra para viver, trabalhar e criar seus filhos.

Esta chacina não vai ficar sem resposta. A morte dos companheiros não será em vão. O povo não vai descansar enquanto os culpados não forem punidos. A luta pela terra não vai parar enquanto existir um latifúndio". *

Há poucos dias do fechamento desta edição, o monopólio dos meios de comunicação do estado de Rondônia anunciou que o latifundiário Lourival Carlos de Lima havia sido morto crivado de balas.


*Trechos extraídos do boletim de denúncias da LCP de Rondônia.

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