Dia da heroicidade — Relembrando um encontro com os bravos combatentes

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No dia 19 de junho de 1986, o governo peruano, comandado pelo então gerente Alan García, efetuou uma perversa operação de extermínio dos prisioneiros de guerra, pertencentes ao Partido Comunista do Peru.
Mobilizando exército, marinha, força aérea e polícia, o governo consumou um dos mais infames genocídios da história da América Latina. Passados 20 anos de total impunidade e com a reeleição de Garcia à presidência do Peru, é preciso relembrar essa data, marcada como o Dia da Heroicidade.

E o fazemos rememorando um encontro que tivemos com os bravos combatentes do PCP, um ano antes de seu assassinato, numa viagem feita ao tenebroso presídio da ilha do Frontón, no Pacífico.

Tal relato é um resumo do que publicamos no livro Peru: do império dos incas ao império da cocaína.

O PCP, a quem a reação chama apenas de Sendero Luminoso para ocultar o nome e o caráter do Partido, iniciou a Guerra Popular — considerada por ele como a estratégia mais avançada do proletariado -, em 1980. A ação de 17 de maio foi consagrada como a data que marca o início da Guerra Popular Prolongada que, até 1989, realizou 60 mil ações.

Alan García assumiu o governo em 1985 com um discurso de combater os guerrilheiros "sem violar os direitos humanos". No entanto, a perversidade com que conduziu sua política logo trataria de desmascará-lo.

Nos dias 18 e 19 de junho de 1986 estourou o maior escândalo da gerência de García no que toca à violência: o assassinato de cerca de 300 prisioneiros de guerra e membros do Partido Comunista do Peru, nos presídios de Lurigancho, Callao e na ilha de Frontón.

O ataque foi considerado o fato mais sangrento da história carcerária do país, comparável ao de Atica, no USA. Definido até pela imprensa monopolista, a exemplo do New York Times, como um "horrível e premeditado assassinato de prisioneiros políticos".

Efetivamente, desde o início de junho o Partido Comunista do Peru divulgava notas denunciando um plano de extermínio1. Os prisioneiros de guerra estavam em campanha contra sua transferência ao novo cárcere de Canto Grande, visto por eles como o mais terrível campo de concentração.

No dia 18 de junho, os prisioneiros apresentaram um documento com 26 solicitações reconhecidas, mais tarde, como "justas" por um grupo de investigação, presidido pelo prêmio Nobel Adolfo Perez Esquivel. Porém o governo negou qualquer negociação. Às 11 da manhã do dia 19, Alan García autorizou a entrada de assassinos de elite nas prisões. Começava a Operação Selvagem e, com ela, 96 horas de horror, enquanto que os combatentes do Exército Guerrilheiro Popular, totalmente desarmados, enfrentaram bravamente o inimigo.

A Marinha invadiu El Frontón às 4 e meia da tarde. Explosões estremeceram a ilha. O ataque por mar, terra e ar causou a morte da maioria dos prisioneiros, sendo que 70 sobreviveram. Mais tarde, somente 30 apareceram vivos.

A Associação dos Advogados Democráticos denunciou que dos 70 sobreviventes, vários tinham sido levados à base da Marinha, na ilha de San Lorenzo, e em seguida torturados e assassinados. Outros sobreviventes foram fuzilados no própio Frontón. Em Santa Bárbara, prisão feminina, a violência não foi menor, com várias presidiárias assassinadas e feridas.

Em 1986, uma Resolução de agosto, que concluia dizendo Glória aos heróis caídos, proclamava o 19 de junho como o Dia de la heroicidad, reconhecido por vários partidos em todos os continentes.

Dedos-duros por aqui...

Seus nomes não eram Pedro e José. Não sei como se chamavam e provavelmente jamais saberei. Com nitidez lembro apenas do susto que levei no dia 19 de junho de 1986, quando um funcionário da Folha de Londrina aproximou-se de minha mesa, na redação do jornal, e entregou uma telex que acabara de vir de uma agência de notícias:

— Olha aí, Rosana, a coisa está feia no Peru. Os soldados destruíram prisões e mataram um monte de presos! Aqui falam de uma ilha... Não foi lá que você esteve entrevistando aqueles caras, ano passado?

Corri para o setor fotográfico. Queria ver as fotos chegadas de Lima, como se fosse possível identificar algum sobrevivente no meio dos escombros. Cheguei a consultar, depois, as listas de mortos. Bobagem. Porque Pedro e José foram nomes inventados por mim. Não existiam.

O que existiu mesmo foi uma história inacreditável. Estava de férias no Peru e algumas pessoas, sabendo que eu era jornalista, contataram-me. Perguntaram se aceitaria "correr o risco" de ir até o Frontón, no Pacífico, onde estavam detidos centenas de homens acusados de serem do Partido Comunista. Não havia tempo para relutar. Concordei.

Bem cedo, na manhã de 20 de abril de 1985, cheguei ao cais do porto de Callao, próximo a Lima. Tudo estava planejado. Restava, porém, o mais importante: saber se os policiais me deixariam entrar na ilha.


Em 1986, uma Resolução de agosto, que concluia dizendo Glória aos heróis caídos,
proclamava o 19 de junho como o “Dia de la heroicidad”,
reconhecido por vários partidos em todos os continentes


Naquele dia os prisioneiros receberiam a visita de mulheres e crianças. Havia umas 100 dessas familiares no cais. Uma delas aproximou-se e sussurou:

— Não converse com ninguém, não podem saber que você é jornalista. Não é seguro, há muitos dedos-duros por aqui...

Avisou-me que caso necessário eu seria apresentada aos policiais, na ilha, como a "parente brasileira" de uns certos irmãos Suárez.

Súbito El Frontón!

O primeiro grupo, com umas 60 pessoas, inclusive eu, foi amontoado numa lancha. Íamos todas dividindo espaço com sacolas, pacotes, bolsas, trouxas, tonéis com água e querosene. O resto das parentes iria num outro barco.

O nosso partiu primeiro. Logo ficamos sós no oceano. Começaram as primeiras ondas. Grandes, enormes. Quando estávamos navegando há uns 40 minutos, surgiu uma silhueta. Era a ilha de San Lorenzo, a maior base da Marinha de guerra peruana. Quinze ou 20 minutos mais tarde uma faixa de terra desenhou-se diante de nós. As pessoas no barco se agitaram, conversaram entre si, apontaram. Era o Frontón!

À medida em que nos aproximávamos víamos um quadro fantástico, inverossímil. No topo de um pavilhão, à direita da ilha, tremulava soberana uma imensa bandeira vermelha com a foice e o martelo. Abaixo dela, na parede do prédio, uma pixação enorme e definitiva: "A rebelião se justifica!"

Como formigas, centenas de homens se espalhavam por lá, saudando-nos à distância com os braços erguidos. Alguns empunhavam bandeiras vermelhas, que balançavam de um lado a outro, bem lentamente. Sem importarem-se com a presença de policiais na lancha, de repente as familiares começaram a cantar. Um canto solene, sentido, poderoso:

Gonzalo las masas rugen
y los Andes se estremecen
expresan pasión ardiente
fé segura y acerada
Y el pueblo escucha atento
Acelera su jornada
Que es Gonzalo canto al fuego!
Gonzalo es lucha armada!

Algumas mulheres choravam. Aquilo era muito forte...

Finalmente a embarcação atracou. Os guardas nos puxaram para cima, pelos braços, como se fôssemos trastes. Fomos colocadas em fila. No final do rústico trapiche, dois soldados recolheram nossos documentos pessoais. Entreguei minha identidade e caminhei a uma outra fila à direita, em frente à uma construção de madeira em forma de "U", a qual presumi ser a administração do presídio.

Demoramos um pouco na revista, feita por policiais femininas. Uma delas pareceu desconfiar — realmente, eu era bem diferente do tipo peruano comum — e indagou quem era o parente que eu iria visitar. Por um instante senti um frio na barriga, mas consegui me controlar: "Los hermanos Suárez..."

Ela continuou me olhando e ia perguntar mais alguma coisa, mas as senhoras perspicazmente reclamaram da demora e a guarda desistiu.

— Vamos, companheira, rápido! — me pediu uma das familiares, enquanto percorríamos os cerca de 40 metros de areia que nos separavam de uma muralha à direita. Aquele muro alto demarcava a área destinada aos prisioneiros.

Bom dia, companheira

O portão do muro estava aberto. Quando o atravessei não acreditei! Centenas de guerrilheiros postados frente à frente, formando um corredor, nos receberam batendo palmas, sorrindo, agitando suas bandeiras vermelhas.

— Bom dia, companheira! — me disse um.

— Seja benvinda! — saudou-me outro, mais adiante.

Enquanto os detidos abraçavam-se com suas parentes, fui apresentada a um jovem. Eu e o rapaz passamos ao lado da construção branca que havia visto do mar. Ele informou que o prédio, embora branco, se chamava Pavilhão Azul. Achei engraçado.

A seguir contornamos uma torre de pedra (uma guarita desativada) e descemos uma ribanceira em direção ao mar. Naquele barranco os guerrilheiros haviam construído degraus, patamares feitos de pedregulhos, formando uma arquibancada. Nos dias de visita os assentos eram protegidos com lençóis e colchas, como se fossem toldos. Na parte mais baixa e plana, ao nível da praia, os presos tinham feito uma espécie de palco: uma mureta semicircular, com cerca de 40 centímetros de altura, recheada com terra e areia bem socadas.

Sentamos num dos degraus do barranco, respirando a maresia espessa. O rapaz quis saber o nome do jornal onde eu trabalhava, qual a linha editorial, etc. Ou seja, tudo aquilo que já tinha cansado de responder nos dias que antecederam a ida à ilha. Quando ele terminou, senti que finalmente podia indagar sobre a guerra popular.

— Estamos seguros que a guerra popular é a única alternativa correta para o Peru — afirmou.

Prosseguiu decidido:

— Carregamos conosco a certeza de que nossa luta é justa e será vencedora porque estamos amparados pelo Pensamento Guia do Presidente Gonzalo2, do camarada Mao Tsetung e do marxismo-leninismo.

E concluiu seguro do que dizia:

— Somos o farol que guia a revolução mundial. E estamos vencendo. O regime peruano, podre e burocrático, está se vendo obrigado a revelar sua verdadeira cara nesta guerra. Estão matando pessoas incontrolavelmente porque já não conseguem conter o ímpeto do povo em armas.

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Luminosa trincheira


Prisioneiros, membros do PCP, rebelados na ilha de Fronton

Logo fomos interrompidos pela chegada de dois outros prisioneiros. Um deles tinha cabelos negros e usava um boné azul. O outro era branco e loiro. Objetivo e brusco, perguntou:

— Como podemos ter certeza de que você é realmente jornalista?

Irritada, informei que ali estavam mulheres que haviam visto minhas credenciais e sugeri que fosse resolver suas dúvidas com elas.

Efetivamente foi. Mas logo regressou. Trazia com ele dois guerrilheiros. Agora gentil e solícito, afirmou que tudo já estava esclarecido. Pediu-me desculpas e disse que ele próprio e todos os seus camaradas estavam muito contentes com minha presença. Inclusive informou-me que eu era a primeira repórter da América a ser aceita por eles na ilha. Soube, posteriormente, que uns três repórteres europeus tinham estado lá.

Informou que dois dos seus, que trouxe com ele, estavam à disposição, a partir daquele momento, para todas as perguntas que eu desejasse fazer. Foi então que conheci Pedro e José. Eles me fizeram companhia o resto do dia.

José tinha uns 18 anos, mas parecia mais novo. Pedro aparentava ter 30 anos. Caminhamos até umas pedras, à beira do mar. Ali, observando o oceano, conversamos sobre muitas coisas. Guerra, música, genocídio, poesia, dinamite. José, a meu pedido, cantou alguns hinos revolucionários. Pedro ensinou-me algo do huayno da sua terra, um ritmo tradicional dos Andes, que envolve música e dança.

Na hora do almoço, fomos os três para a arquibancada, onde uma família, muito amável, nos serviu panquecas, arroz, batatas e frango. Outros prisioneiros vieram comer perto de nós. Comentei que sentados ali na frente do mar, com as famílias conversando animadas, as crianças brincando, podíamos passar por alegres veranistas. Todo mundo riu.

— A gente mesmo já apelidou isso aqui de "Balneário Apolônia! (Pelo que consegui entender, em meio às gargalhadas, Apolônia era um reduto da burguesia peruana no verão).

— De vez em quando conseguimos pescar e promover torneios de voleibol, natação, música, dança e declamação — contou um dos presos.

Hoje, passados 20 anos do genocídio, ainda é triste lembrar daquelas pessoas. A aparente tranquilidade que vi naquele dia escondia, atrás de si, histórias dramáticas.

— Conseguimos transformar esse campo de concentração em uma luminosa trincheira de combate — sentenciou José.

Todos concordaram. Alguém contou que nos primeiros tempos, quando os guerrilheiros foram trancafiados na ilha, os guardas colocavam vidro moído na comida, pedaços de ratos apareciam boiando na sopa, a água era misturada com querosene. Com muita luta, acabaram com aquilo.

A conversa se anima. Outros presos aproximam-se. Um deles começa a falar do cerco às cidades a partir do campo; outro da vitória que chegará um dia; da repressão do governo que já somava milhares de mortos e desaparecidos; outro das tropas paramilitares formadas pelo Exército para combater a guerrilha.

Trabalhar, estudar

De repente chegou o homem de boné azul, o mesmo que tinha aparecido antes com o loiro.

Sorriu com simpatia, sentou-se e começou a explicar que todo aquele ambiente positivo, tanto no que tocava ao moral dos muchachos quanto ao aspecto visual do lugar que nos rodeava, foi resultado de um paciente trabalho coletivo executado contra a vontade dos guardas:

— Este lugar onde estamos, por exemplo, era um terreno imprestável, tomado por pedras, lixo, aranhas, baratas e ratos. Usando apenas nossas mãos removemos uma tonelada de detritos para construir isso aqui.

Para a convivência do dia-a-dia, esclareceu, eles mesmos dividiram os presos em destacamentos de cinco pessoas. Cada grupo tinha um chefe temporário que organizava as tarefas. Todos se revezavam para cozinhar, fazer a limpeza, lavar roupas, dar aulas, etc.

Conseguimos transformar esse campo de concentração em uma luminosa trincheira de combate"
sentenciou José

Com medicamentos trazidos pelos familiares, eles instalaram uma pequena farmácia, inclusive com atendimento médico. Através de doações também obtidas por seus parentes, implantaram uma biblioteca com uns 400 volumes — onde se encontrava desde as obras do Presidente Mao e outros pensadores marxistas-leninistas, até livros de biologia, matemática, geografia e espanhol3.

Igualmente com matéria-prima proporcionada pelas famílias e amigos, mantinham uma oficina que produzia artesanatos em pedra e palha — que depois eram vendidos ou presenteados, mas que principalmente serviam para a prática de habilidades manuais. Criaram além disso uma escola, onde os professores eram os próprios presos. Nela não somente se alfabetizava , mas também se ministrava conhecimentos de álgebra, anatomia, história. E teoria política, claro.

No entanto, o que mais me impressionou foi o trabalho de copismo que executavam. Como não possuíam máquinas de escrever e mimeógrafo, encontraram um outro jeito de elaborar edições de documentos políticos do Partido, peças de teatro, poesias, canções, textos para discussões internas. Tudo era copiado à mão. Com paciência chinesa e capricho de monges, "fabricavam" livros.

De repente, ouvi uma canção andina. Pensei que tinham ligado um rádio. Mas não.

— Vamos lá, companheira, os muchachos estão tocando — me disseram. Uns 20 guerrilheiros armados com zampoñas velhas, violões com cordas faltando, charanguitos remendados e um bombo leguero com o couro meio frouxo, agora ocupavam o palco à beira-mar.

— Sabes dançar a lo peruano ? — alguém me perguntou.

— Eu?! Muito mal, samba.

Então a coisa virou uma folia. Diversas pessoas foram dançar no palco para que eu aprendesse. Outras cantavam junto e batiam palmas. Animado com a bagunça, o mascote dos prisioneiros, o cachorrinho vira-lata Puka (Vermelho, na língua quêchua) latia e abanava o rabo. Alguém me puxou e me colocou no palco com todo mundo. Não me saí muito mal, mas não conseguia parar de rir. Nem eles.

Um tesouro e um chapéu

No meio da tarde, Pedro e José me convidaram para conhecer o alojamento dos presos, o tal Pavilhão Azul, que era branco. Talvez com uns 10 m X por 30 m, tinha dois andares. Na parte externa, a imensa bandeira vermelha que eu vira do mar continuava hasteada. E a pixação na parede, impossível de ser ignorada: "La rebelión se justifica!".

Entramos. No térreo, à direita, estavam os "sanitários": não passavam de buracos no chão que serviam como latrinas e dois canos de metal na parede, eternamente secos, que um dia teriam sido chuveiros.

A seguir vinha um grande salão, sem celas. O aspecto do conjunto, banheiro e salão, era miserável. Mas tudo mantido imaculadamente limpo pelos presos. No salão uma sequência de beliches, nos dois lados, formava um corredor no meio. No outro extremo, demos de cara com uma parede onde estavam fotografias de Marx, Lênin e Mao. Abaixo delas havia uma mesa, usada pelos prisoneiros para realizarem suas assembléias e darem aulas. No andar superior, igualmente havia duas filas de camas. Ali também funciona-vam a cozinha, a biblioteca, a enfermaria e a oficina de artesanato.

Ao deixarmos o pavilhão, ouvimos o canto de uma mulher índia. O som saía de dentro da torre que um dia servira como sentinela. Era um lamento cantado em quêchua. Ela dizia que seu marido estava desaparecido desde 1983. Que desde aquela época andava lhe procurando e que nem ali na ilha conseguira encontrá-lo.


Criaram além disso uma escola, onde os professores eram os
próprios presos. Nela não somente se alfabetizava , mas também
se ministrava conhecimentos de álgebra, anatomia, história.
E teoria política, claro


Entramos na guarita. No quadrado apertado, úmido, com grossas paredes de pedra tomadas por musgos, havia pouquíssima luz. No chão de terra batida bailavam algumas mulheres e homens. Era uma dança triste, dolorosa. As cabeças baixas, concentradas na voz da mulher que narrava a sua tragédia.

Fiquei num cantinho, perto da entrada. Mas minha presença logo foi percebida. E então rapidamente o clima mudou. Uma quena (flauta) começou a tocar uma musiquinha brejeira. Formaram um círculo, deram-se as mãos e timidamente me convidaram a participar. Todos os guerrilheiros que estavam ali dentro na torre eram indígenas dos Andes. E, seguramente, camponeses. Mãos calosas tomaram as minhas e, com doçura, me ensinaram os passos. Poucas vezes na vida me senti mais feliz. Passava das 5 horas quando vi um movimento no pátio e notei que era hora de partir. José saiu correndo e logo voltava carregando uma pilha de papéis, todos manuscritos.

— O que é isso? — indaguei.

— Nossos poemas e canções. E as respostas às perguntas que não lhe respondemos... — disse, com um sorriso travesso.

Folheei o material e levei um susto! Ali estava um tesouro para qualquer jornalista: um relato detalhado de como o Partido preparou e realizou um dos seus ataques, informes de reuniões internas, todos documentos jamais divulgados pela imprensa peruana ou brasileira.

Para minha segurança, Pedro não deixou que eu colocasse os papéis na bolsa. Os textos foram distribuídos nas sacolas das mulheres, enquanto víamos, ao longe, os soldados preparando as lanchas no trapiche.

A despedida foi muito triste. Recebi abraços de guerrilheiros com os quais sequer havia falado. Deram-me um chapéu de palha feito na oficina deles, onde estava escrito à caneta na aba interna: "Com muito carinho comunista, os melhores filhos da classe te fazemos chegar este presente".

Partimos. Logo que as lanchas cruzaram as primeiras ondas, na ilha apareceram de novo as bandeiras vermelhas e as centenas de punhos erguidos. Pouco depois o dourado do fim do dia foi tragado pela neblina, pela noite e pelo frio. Demoramos para encontrar o cais de Callao. É que o porto e a cidade estavam totalmente no escuro. O PCP, mais uma vez, tinha acabado de explodir as torres de energia elétrica...


1 Em 4 de outubro do ano anterior já havia ocorrido o massacre de 30 prisioneiros de guerra no Penal de Luringancho. O novo genocídio era denunciado pelo Partido Comunista do Peru, enquanto que a falsa esquerda (as legal e ilegal) não só se omitia em protestar, mas fazia coro com a reação acusando o PCP de ser uma organização "narco-guerrilheira". Ao contrário, o PCP sempre combateu o tráfico. Mas a dupla Fujimori-Montesinos, administração que sucedeu a Alan Garcia, era reconhecidamente ligada ao grande tráfico, fato que se somava a outros grandes crimes — como o de traição à pátria -, mas suas prisões não respondem por isso.
Ainda sobre a colaboração com o fascismo: na época do morticínio havia duzentos militares ianques como assessores do exército peruano, somente na zona do Alto Huallaga. O social-imperialismo russo colaborava com a repressão mantendo quatrocentos assessores nas Forças Aéreas. Esse mesmo governo peruano contou, entre outros, com o apoio da Coréia do Norte (!), da antiga República Federal Alemã e de Miterrand no negócio de armas.
2 Presidente Gonzalo, nome adotado pelo Partido Comunista del Perú para o Doutor Abimael Guzmán (nascido a 3 de dezembro de 1934), seu principal dirigente e chefe da revolução naquele país. A prisão do Presidente Gonzalo aconteceu em setembro de 1992. Desde então, os tribunais contra-revolucionários adiam seu julgamento, e as suas verdadeiras afirmações jamais foram concretamente atestadas.
3 Muitos dos camponeses do Partido Comunista do Peru aprenderam a ler e escrever dentro dos presídios, através de aulas ministradas pelos seus próprios camaradas.

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