Consciência, vontade e poder das massas

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Eram 12 mil hectares. Um mundão de terra encravada numa região onde se encontrava grande número de camponeses dispostos a trabalhar até por um prato de comida. O latifúndio tinha nome pomposo: Fazenda das Águas. Pertencia a um deputado, um tal de Carlos Alberto Magalhães. Ele não dispunha de muito gado, mas de um pasto imenso, forma com que o latifúndio costuma demarcar seu território, afora os artifícios jurídicos que acompanham sua existência de expropriador.

Nas terras, o parlamentar aparecia só quando, como ele mesmo dizia, "queria descansar a cabeça", porque de plantação e até de boi não entendia absolutamente nada. Era quando o pobre caseiro tinha que viajar mais de 400 kms (200 até o aeroporto) para buscá-lo.

Mas eles chegaram

Sem saber ao certo de onde, milhares de panfletos tinham aparecido nos bairros mais pobres das vilas e currutelas* vizinhas ao latifúndio. Em todos, a consigna de que os camponeses unidos conquistarão um pedaço de terra para viver e plantar.

Como uma crosta terrestre prestes a entrar em erupção, a massa pobre começou a se movimentar. Não tardou muito, soube-se que camponeses haviam ocupado, na madrugada, o latifúndio do deputado.

No dia seguinte, famílias que se dirigiram ao acampamento, foram recebidas por um destacamento camponês.Tudo estava claro:

— O acampamento Renascer do Araguaia vai continuar recebendo de bom grado os que desejam honestamente um pedaço de chão e não temem a luta — explicou a voz pausada de um membro do destacamento.

Nem bem chegara a tarde, centenas de famílias, com seus poucos pertences, expulsaram o latifúndio.

Eis aí a Assembléia

E por que tanto se falava da Assembléia? Não era um simples encontro de camponeses, a cujas decisões a massa devia se submeter. Tampouco era uma plenária permanente respaldada por estatutos que garantem a "participação" popular em deliberações, quase sempre, conduzidas por uns poucos esclarecidos ou burocratas.

Nunca antes os visitantes tinham presenciado uma assembléia de iguais — e daí vinha sua superioridade.

A Assembléia Popular é uma organização parlamentar da frente trabalhadora, instância máxima onde os trabalhadores legislam e executam a inquebrantável vontade única do povo, vontade que, até então, nunca se realizava. Mais do que discutir problemas e decidir sobre situações episódicas, a Assembléia Popular define a vida do movimento camponês. E ela está presente, sempre que a bandeira vermelha dos camponeses pobres é fincada no chão camponês.

Foi na Assembléia do Poder Popular que os camponeses aprovaram uma pequena constituição. Lá, também passaram a estudar a história do movimento camponês; tanto quanto o significado do latifúndio, o da libertação das forças produtivas e a transformação das relações sociais. Ali estudaram a geografia de nosso país, conheceram os problemas do povo trabalhador no Iraque, na Palestina.

Greve na cozinha

A cozinha coletiva funcionou por um mês. Depois as mulheres se recusaram a cozinhar. Nenhuma disse o motivo. Havia rumores, apenas. Uns diziam que havia uma encrenca da grossa, outros, que elas não se adequavam ao trabalho coletivo.

Quatro dias se passaram mas ninguém se apresentava para o trabalho. A sessão da Assembleia Popular estava marcada para a manhã seguinte, mas elas nada diziam.

À sessão, chegaram quase todas. Fisionomia fechada. Parecia que o olhar delas era suficiente para ferir gravemente qualquer homem ali.

Tião — um ancião negro, baixo, franzino, sempre usando um chapéu velho e preto — respeitado por todos pela imensa sabedoria e surpreendente calma ao tratar dos assuntos mais espinhosos, foi o primeiro a tocar na questão. Falou da importância da ajuda mútua. Ele já havia participado de um acampamento dirigido pelos oportunistas, onde nem cozinha coletiva havia. Lá, as mulheres, quando chegou a época do plantio, tinham que ir para o campo, voltar mais cedo, fazer a comida e depois, ainda, retornar à roça. Contou toda essa história chamando a atenção das mulheres para a unidade vitoriosa do movimento e o risco que havia no prosseguimento da greve na cozinha.

Porém, mesmo o ponderado e justo Tião fracassara.

A jovem camponesa Maria Cristina, uma das mais comprometidas com o movimento, pediu a palavra. Respirou fundo. Parecia que se preparava para a mais séria atitude de sua vida.

Ela narrou um fato que se passara na cozinha coletiva. Enquanto as mulheres trabalhavam, os homens conversavam na porta da cozinha. Distribuiam palpites sobre cada detalhe do que elas faziam, mas não ajudavam sequer a pegar um balde de água. Somente a elas cabia suportar a fumaça, o calor do fogo, lavar os panelões, cortar a lenha e buscar água no ribeirão. A jovem prosseguiu explicando como esse tipo de comportamento irritava a todas. Aos homens, cabia reclamar. Às mulheres, trabalhar.

O burburinho tomou conta da plenária. A maior parte deles não esperava por esse tipo de denúncia. Fosse uma rixa, uma implicância qualquer, vá lá. Mas aquela era uma acusação desconcertante, flagrante. Não havia defesa. Logo agora, quando tudo parecia ir bem, com homens e mulheres se ajudando mutuamente...

No desvendar dos acontecimentos, se verificou que, dias antes, um grupo de homens, ao retornar de uma tarefa, entendeu de adiantar a discussão sobre a escala para um novo plantio. Bastaram uns poucos minutos para que sucedesse uma infinidade de erros "táticos". Primeiro, o grupo interrompeu seus passos nas proximidades do cômodo destinado à preparação dos alimentos. Animaram-se e a conversa rapidamente evoluiu para "análise" dos serviços da cozinha, porém marcada por tanta infelicidade que a conduziram por um caminho radicalmente oposto, doméstico, sem objetivo; total pasmaceira. A cozinha passou a ser descrita, na avaliação do grupo, como algo próprio de uma "comunidade de mulheres", agravando-se com comentários do tipo: "Rita cozinha melhor que minha cunhada". "Bem, mas, em compensação, sua cunhada faz tudo bem mais rápido".

O grupo desprezara inteiramente o significado da cozinha coletiva que, como tal, só podia ser concebida como produto da divisão social do trabalho — exatamente por ser um movimento democrático, e nunca uma instituição exclusiva das mulheres. E quanto mais considerações fizera, mais havia se enredado nas armadilhas patriarcais, de tal sorte que a imagem deixada pelo grupo se generalizou rapidamente para todos os homens. Os demais passaram a ser olhados à maneira dos capatazes — mandonistas, preguiçosos e covardes diante das mulheres — com modestas defesas para os homens mais prestimosos e que, por acaso, guardassem laços de parentesco com as grevistas.

No entanto, algo estarrecedor surpreenderia ainda mais o rapaz que preparava o informe para a coordenação da Liga. As relações semifeudais, de tal maneira decadentes naquela região, não haviam sequer propiciado a alguns homens o hábito de cortar a lenha e colher a água para os trabalhos diários da cozinha. Dane-se o cavalheirismo burguês, mas pensar que nem isso o latifúndio havia ensinado...

Havia um desafio no ar, todos sabiam. Sim, pois o movimento camponês tinha afirmado que homens e mulheres eram iguais e deviam atuar juntos em todas as etapas da luta.

O silêncio constrangedor foi interrompido por um "proponho..." balbuciado num canto da plenária. Nem bem o pensamento foi concluído e já contava com a aprovação de todos. Doravante, a cada dia a água seria deixada na cozinha. Também lenha suficiente seria encontrada em lugar adequado e próximo.

Por fim, algo insólito. Aos domingos, enquanto durasse uma ou outra campanha de ajuda mútua, estava definido: os homens se encarregariam de preparar a comida na cozinha coletiva, liberando as mulheres para afazeres menos penosos.


Currutelas — No linguajar típico do interior de Goiás, povoados pequenos, pobres de recursos e onde vigem relações sociais atrasadas.

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