Entrevista: Paulo Nunes Batista — O cordel na poesia do povo

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Numa casa simples do centro de Anápolis (GO), Paulo Nunes Batista recebeu nossa equipe de reportagem. Aos 82 anos, o poeta, repentista e cordelista narra de forma emocionante e com muito sentimento sua história na arte e no Partido Comunista do Brasil (P.C.B.).

Segundo ele, esta pode ser uma de suas últimas entrevistas. O poeta sofre de isquemia cerebral e mal consegue ler hoje.

Ele tem 319 escritos de cordel, folhetos e ABCs, entre obras publicadas e inéditas. É bacharel em direito e jornalista profissional. Trabalhou como vendedor ambulante de folhetos de cordel e livros. Conquistou vários prêmios literários. É citado na enciclopédia Delta Larousse. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês e japonês e mais de dez livros publicados.

AND — Paulo, como a vida que você teve influenciou sua obra?

PNB — Meu pai era dono de livraria e de tipografia. Então tínhamos uma vida confortável. Quando o meu pai morreu, em 1929, passamos a viver na pobreza. Chegamos a passar fome. Eu fui para o Rio e não tinha dinheiro nem para a passagem. Fui pedir ao governador e ele me deu uma passagem de 3ª classe de navio, no porão. Era janeiro de 1938.

AND — Como foi sua história com a literatura, com a arte?

PNB — Eu sou de uma família de poetas populares do nordeste; repentistas cantadores e cordelistas da Paraíba. Aliás, a história do cordel no Brasil começa com minha família, segundo os livros. Em 1797, nascia o meu bisavô, Agostinho Nunes da Costa. Ele foi cantador e glosador famoso no nordeste. Participou do núcleo inicial do cordel no Brasil, na Serra do Teixeira (PB). Três de seus filhos foram poetas, dentre eles o meu avô materno, Ugolino Nunes da Costa ou mestre Gulino. Meu avô Ugolino foi um grande cantador repentista, cantador de viola. Na nossa família há vários cantadores, como os três irmãos Batista — Lourival, Dimas e Otacílio—, citados por Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros poetas famosos do Brasil. Por parte de minha mãe e de meu pai, que eram primos, há vários cantadores, repentistas e cordelistas famosos. Eu levantei 50 cantadores famosos na nossa família.

AND — Você falou em glosador e cantador, pode distinguir estas categorias?

PNB — Glosador é aquele que faz o verso na hora com qualquer assunto. O cordelista escreve os versos. O repentista canta versos de improviso. O cantador apenas canta, ele pode simplesmente ter decorado os versos. Coquista é o cantador de coco, ele pode ser repentista ou não. Ele decora e canta, utilizando o pandeiro ou o ganzá — instrumento rústico de percussão, originalmente trazido pelos africanos.

AND — Qual o papel do cordel na afirmação da cultura popular?

PNB — O cordel é um difusor de cultura. Um homem analfabeto, o sertanejo, o brejeiro, o matuto do nordeste ia para a feira comprar cordel porque o filho dele que estava na escola podia ler para ele. Então, o cordel é um veículo de difusão de cultura muito importante. No nordeste muita gente aprendeu a ler através do cordel. O cordel inspirou vários autores como Jorge Amado e Ariano Suassuna.

Ele é a poesia popular não erudita, não sofisticada, não da elite. É poesia do povo, feita em folhetos baratos, humildes. Essa poesia do povo transmite de geração para geração os conhecimentos, as lutas como a do camponês sem terra. O cordel é um universo que pode abranger todo o conhecimento do povo: os camponeses, os cangaceiros, os beatos, os latifundiários, a seca, a miséria. É uma riqueza só.

Atualmente existe também o cordel urbano que é feito nas cidades, mas o originário é o do sertão. É a história dos bois brabos que ninguém pegava, dos cangaceiros. O meu cordel tem um pouco de tudo.

O cordel tem a maior significação na difusão, na divulgação da cultura popular. Essa é sua missão, que está amassada pela anti-cultura, contra-cultura norte-americana. Existiam milhares de folhetarias de cordéis no Brasil, mas hoje estão reduzidas à meia dúzia. Hoje, quem vive de cordel no Brasil? Um ou outro lá no nordeste porque não tem público, o povo não compra mais cordel. O povo foi habituado a ouvir rock, comprar gibi e outras coisas de péssima qualidade.

AND — De onde vem essa anti-cultura?

PNB — Em 1940 foi publicado um livro que se chama Os ianques estão chegando, onde um jornalista provou que houve uma reunião no USA com os líderes da Inglaterra, Alemanha, França e USA para organizar uma campanha que abrangia livro, jornal, revista, TV, rádio. Um dos principais alvos era o Brasil. E eles fizeram mesmo essa campanha. A música brasileira quase desapareceu, o samba genuíno foi substituído pelas músicas bregas. Quem fala no grande cantor e sambista Jamelão, por exemplo? A cultura brasileira está desaparecendo, a cultura nordestina está desaparecendo. O interesse deles é a invasão.

Ariano Suassuna deu uma entrevista no rádio dizendo que o USA não precisava mandar bomba, torpedeiro, nada disso, porque já tinha mandado Michael Jackson e Madonna. Dominando um povo culturalmente já dominou o resto, um povo sem cultura é um povo escravo.

AND — Que papel você acha que a poesia, principalmente o cordel, tem como literatura de resistência?

PNB — Alguns cordelistas fazem cordel de resistência, como o Rafael de Carvalho e eu, mas somos poucos. Os cordelistas e cantadores de viola estão vendidos ao sistema porque o que dá dinheiro para eles é isso. É o latifundiário que paga a cantoria deles. Então eles acabam tendo que cantar para os latifundiários. Como eu sempre procurei viver independente, vendendo meus folhetos, eu me libertei disso. Raramente trabalhei para patrão, depois fui trabalhar no Estado por concurso. Então eu não tenho nada que “chalerar” — puxar saco — capitalista. Eu não jogo confete em capitalista nenhum. Foi um verdadeiro milagre eu ter sido eleito para a Academia Goiana de Letras, mas eu sou marginalizado porque eles sabem que eu sou comunista.

AND — Você já escreveu somente por dinheiro?

PNB — Houve uma época que eu escrevi cordel para ganhar dinheiro, mas hoje não faço mais. Chega candidato querendo me pagar para fazer, mas eu não faço. Não faço cordel para capitalista nenhum. Pode pagar o quanto quiser que eu não escrevo. Para comunista eu escrevo, escrevo de graça. Isso é uma coisa que ficou no passado, e hoje eu nem faço mais cordel. Eu me especializei em escrever ABC e em temas espirituais.

AND — O que é este ABC?

PNB — Se chama ABC porque cada estrofe começa com uma letra do alfabeto, do A até Z. O ABC é fácil de memorizar. Eu fiz muitos ABCs e vou até publicar um livro só com eles agora. O ABC é fácil de gravar e ninguém faz mais ABCs. Ele é tão antigo que tem até na bíblia. Também quando os portugueses chegaram, eles trouxeram a poesia popular em folhas volantes e em ABC porque era fácil memorizar.

AND — Em sua opinião, quem é o maior cordelista do Brasil?

PNB — O maior de todos os cordelistas do Brasil é o Leandro Gomes de Barros, paraibano, compadre de meu pai. Escreveu mais de mil folhetos e nunca fez outra coisa na vida. Ele chegava à venda, bebia uma cachaça, pedia ao dono um papel de embrulho e escrevia um folheto na hora como pagamento. Qualquer acontecimento, ele fazia o folheto na hora. Tinha uma pequena prensa em casa e imprimia os folhetos para vender na feira. Houve outros grandes cordelistas como José Camelo de Melo Rezende, Manoel de Almeida Filho. Meu pai foi grande cordelista também, mas como o Leandro não teve.

AND — O que o senhor acha do Patativa do Assaré?

PNB — Ele foi um poeta importante, mas o cordel que ele fazia não era legítimo. O cordel tradicional é feito em sextilha ou em setilhas (sete linhas). O Patativa colocou linguagem caipira no meio do cordel, uma coisa de poetas matutos, como Pompilho Diniz, Catulo Cearense e Zé da Luz. Eram poetas de muito valor, mas não eram cordelistas autênticos. Autêntico mesmo é Azulão, Mocó. O Mocó vivia miseravelmente e era um cordelista formidável. Veja só um verso dele, quando ele chegou à Paraíba e estava uma seca danada:

“O nordeste está tranco,
cercado por uma desgraça imensa,
uma banda já caiu,
a outra banda está pensa,
e neste grande aperreio,
sofre o nortista no meio
igual à marca na prensa.”

Olha a imagem desse homem, é um poeta do povo, um homem quase analfabeto.

AND — O que você considera um verdadeiro poeta do povo?

PNB — É aquele que representa o povo em todas as suas modalidades, em todas as formas de expressão. É aquele que diz o que o povo sente. É o poeta que não está ligado a latifundiário, à elite, mas ao povo. O povo está com fome porque não tem dinheiro, não recebe pelo que produz, então ele escreve sobre isso.

AND — Você pertence à Academia Brasileira de Cordel?

PNB — No Rio de Janeiro tem um traidor da classe, o Gonçalo Ferreira da Silva, que se considera o rei do cordel. Ele diz que faz o cordel clássico [ironizando] e fundou a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Eu entrei na Academia porque meu pai é patrono, mas fiz uma carta me desligando porque era uma academia de cordel que não tinha cordelista. Isso ocorre em vários locais. Por exemplo, em Goiás até o ex-governador Mauro Borges é da Academia Goiana de Letras.

AND — Não se ouve falar em mulheres cordelistas. Elas existem?

PNB — A minha irmã Maria das Neves Batista Pimentel, a Mariinha, foi a primeira cordelista do Brasil. Quando ela publicou o folheto havia muito preconceito. Mulher não podia escrever cordel. O que o homem pode fazer a mulher pode fazer igual. Ela tem inteligência, cultura, vontade.

AND — Os camponeses são um tema recorrente em sua obra. Como você vê a luta camponesa?

PNB — Eu acho que os camponeses vão vencer. Acho que a questão agrária pode até ser retardada, mas não impedida. Os camponeses estão na luta e se eles têm ideologia estão no caminho certo. Eu, sinceramente, esperava que Lula fizesse a Reforma Agrária antes do fim do seu governo. Mas ele não tem gabarito, não tem coragem para isso. Só tem dois caminhos: o caminho da paz ou da luta armada, se um não dá certo você tem que ir para o outro.

AND — Você foi mesmo militante do Partido Comunista do Brasil (P.C.B.)?

PNB — Fui militante do Partido de 1946 a 1952. Mas minha história com o Partido começou bem antes. Eu tive um irmão que participou do levante de 35 no Rio e depois voltou para a Paraíba. Ele ia se encontrar com outros militantes e me levava. Então desde pequeno eu tive uma certa ligação com o Partido.

Tive uma intensa atividade política. Na época do Partido eu não tinha paradeiro certo. Morei em vinte locais diferentes. O folheto de cordel do Formoso (ver AND 29, Trombas e Formoso: o triunfo camponês) foi encomendado pelo P.C.B. de Goiânia, através do jornalista Sebastião de Barros. A minha vida foi toda uma agitação, só fui descansar depois que me aposentei.

Hoje eu não tenho mais ligação com o Partido Comunista e nem com nenhum Partido. Mas continuo tendo a ideologia.

AND — Você trabalhou nos jornais do Partido?

PNB — Trabalhei primeiramente no jornal O Estado de Goiás. Depois fui para o Jornal do Povo, de Belo Horizonte, mas a polícia empastelou o periódico e eu me mudei para São Paulo. Lá trabalhei no jornal Hoje, um diário de grande circulação, vibrante. Estávamos fazendo a campanha contra o envio de tropas brasileiras para o Vietnã e deu muito rebuliço. Publicamos uma circular do alto comando do exército, que falava isso. Aí instalaram um IPM (Inquérito Policial Militar). O Exército invadiu o jornal com metralhadoras, prendeu mais de 100 pessoas. Mas foram soltando e ficaram só nove pessoas, dentre elas eu. Fomos para o 3º RI, e depois para o Carandiru. Por lá, eu peguei reumatismo nas pernas.

AND — Você tem boas recordações da sua época no Partido?

PNB — Só aproximação com o Partido Comunista dá um valor fora de série a uma pessoa, porque quem não tem amor no coração não pode se aproximar do Partido. O Partido é desprendimento. Conheci pessoas maravilhosas no Partido, mas também conheci pessoas que não eram verdadeiros comunistas, que não tinham essas qualidades que falei.

AND — Você se arrepende de alguma coisa?

PNB — Eu não me arrependo de nada. De ter sido preso. Eu não me arrependo da minha luta e se fosse preciso eu seria preso de novo.

Carta mais que violada aos camponeses sem chão

(quarta estrofe do poema de 54 rimas... em ão... sem repetição)

De Norte a Sul, Leste a Oeste. Quem é que luta na terra
que o pobre se dê a mão pra fazer a produção
pra dizer ao coronel, de milho, arroz e café,
ao corrupto, ao ladrão de mandioca e feijão?
que agora não tem mais jeito: — O lavrador, que faz tudo
ou terra — ou Revolução!...e vive só na opressão...

Poesia popular

(trechos)
(...)
Que, poesia popular
pode ser — e é universo
é resistência é trincheira
contra o sistema perverso
que deixa o Povo com fome
e rico nadando em uísque.
(...)
Poetas da elite, não
torçam seu nariz grã-fino
contra os poetas do Povo
que lá do chão nordestino
nunca deixam o Povo só:
tentam rasgar esse nó
que amarra nosso destino.

O cordel é brasileiro
fala do que o Povo sente
no verso lido na praça
ou cantado no repente,
pois cordel é voz da raça,
é (em)canto de nossa gente.

Cordel — Mensagem do Povo
fala do velho e do novo,
de canudos, de Kosovo,
de aids, de corrupção,
de injustiça e violência,
governo sem consciência,
dos sem-terra — e a resistência
que leva à Revolução.

(...)
E o cordel não deve apenas
ser o antigo romanceiro,
mas ser denúncia, protesto,
alma e voz de um Povo inteiro
Dizendo ao FMI:
Retire as patas daqui
que isto ainda é brasileiro!

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