Um poeta que canta seu tempo

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Numa discreta casa transformada em consultório médico no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, atende o maior poeta brasileiro vivo. Jaime Vaz Brasil, nascido em Bagé em 1962, é autor de versos que figuram entre os mais belos já escritos em língua portuguesa. Alguns deles estão reunidos em cinco livros. Outros ainda encontram-se inéditos ou esparsos. Destes, alguns devem vir a público em 2007 em O Estrangeiro no País do Corpo.

O curioso é que os pacientes e alunos do dr. Jaime não têm a menor idéia de quem é ele. "Eu nunca mostro os livros para não parecer que estou querendo impingir o que escrevo" — diz.

Esta modéstia talvez ajude a explicar porque sua poesia é ainda desconhecida da maioria dos leitores brasileiros. Mas ela pesa menos, certamente, que a tendência da imprensa monopolista sediada no eixo Rio-São Paulo a ignorar ou desqualificar manifestações culturais nascidas de outras realidades entre tantas que compõem a cultura nacional.

Para culminar, Jaime faz parte da geração de artistas surgida nos festivais de música do interior gaúcho na década de 80. A visão dominante na crítica cultural tende a estabelecer uma distinção entre poetas e "letristas" como se estes se dedicassem a uma forma menor de arte e a considerar "regionalismo" qualquer manifestação cultural associada a uma dada identidade. Nesta ótica, o fato de um artista ser e assumir-se gaúcho é percebido como exotismo — o que é uma rematada estupidez, mesmo porque Jaime Vaz Brasil é tão gaúcho quanto, por exemplo, Chico Buarque é carioca — vale dizer, sua arte nasce em um dado contexto e o expressa, mas de modo algum é por isso menos brasileira e universal.

Outras similitudes com Chico residem na conjugação entre o refinamento dos versos e da música e as raízes populares; e na amplitude do universo temático, que compõe-se de versos claramente políticos e de denúncia social, de poemas de amor e angústias existenciais, de retratos de tipos e situações clássicos da cultura rio-grandense.

Poesia e música

Ao contrário dos de Chico, porém, os poemas de Jaime são poemas na mais pura acepção do termo — isto é, sobre o papel bastam-se, na grande maioria. Ritmo perfeito, métrica perfeita, rimas perfeitas quando é o caso. Poucos são os que ficam incompletos sem música. As melodias, na maioria das vezes, são complemento.

A música é e sempre foi parte importante da vida do poeta. O primeiro prêmio que ganhou foi como compositor, ao musicar Cordas de Espinho, de Luis Coronel. Depois, nunca mais compôs melodias. Mas seus versos — conta — são escritos já com a idéia de que possam ser musicados.

Ao longo de vinte anos, serviram de matéria-prima a compositores diversos. Os resultados são variáveis. Há obras-primas, como Presságios e O Amor à Sombra da Fuga (ambas de Ricardo Freire, e disponíveis em www.jaimevazbrasil.art.br) nas quais o casamento perfeito entre os versos e a melodia atinge um estágio de perfeição poucas vezes experimentado na música brasileira. Há umas poucas experiências mal-sucedidas, fruto da dissociação entre forma e conteúdo. A maior parte situa-se numa posição intermediária, com destaque para a parceria com Freire, de todas a mais bem sucedida.

Identidade renovada

Dos livros de Jaime, Punhais do Minuano (1991) e Caderno dos Espelhos (1993) são os que melhor refletem o espírito do movimento cultural que marcou o Rio Grande do Sul na década de 1980 e que foi denominado, à época, nativismo ou música popular gaúcha — nomes com os quais Jaime diz não se identificar hoje. Em sua avaliação, o espírito e o impacto desse movimento no Rio Grande do Sul assemelham-se aos da chamada Nova Trova em Cuba. A analogia faz sentido: se a obra de Noel Guarany e Jayme Caetano Braun pode ser comparada à de Carlos Puebla no que toca à forma e conteúdo, a de Jaime Vaz Brasil e Mário Barbará estaria para ela como a de um Pablo Milanés está para a do compositor de Hasta Siempre Comandante.

Um dos traços distintivos da geração dos festivais é a maneira de encarar a história e a identidade do Rio Grande do Sul e inserir-se nelas. Seus expoentes buscavam fazer ambas as coisas sob uma perspectiva crítica, rechaçando as tentativas de cristalização do passado que caracterizam as manifestações mais conservadoras do tradicionalismo. Este embate de visões está sintetizado no poema Para cantar o povo, publicado em Caderno dos Espelhos:

Não cantará sua gente
quem nos versos tangencia
somente o ontem dos campos
e a seu tempo renuncia.

Há uma linha de continuidade com artistas como Jayme Caetano Braun e Noel Guarany, mas há também um movimento de ruptura. Se estes, nos anos 60-70, denunciavam a crise da estrutura econômica e social do estado, os nativistas, nos 80, constatam seu completo esgotamento. O Rio Grande que retratam é em grande parte urbano — fruto inclusive do êxodo rural decorrente desse esgotamento. Isto tem uma enorme influência sobre a linguagem artística em que se expressam.

Não era este, porém, o cerne do embate que os opôs à vertente mais conservadora do tradicionalismo. A questão não era entre música urbana e campeira — mesmo porque quase todos os expoentes do nativismo tinham origem rural e a música tradicional do interior do estado era sua principal fonte —, mas entre visões de mundo. O próprio Jaime faz questão de dizer que adora o que chama de "campeirismo autêntico", citando nomes como Leopoldo Rassier e Jayme Caetano Braun.

Sua crítica — compartilhada, no geral, pelos nativistas — é ao que chama de "campeiros de cidade grande" e "baguais de apartamento" — artistas com uma visão estática da cultura tradicional gaúcha e que conservam um apego excessivo a formas e temas que já não expressam — se é que expressaram um dia — a realidade do estado. E que no mais das vezes prendem-se aos aspectos mais superficiais do chamado gauchismo, como a indumentária, as datas, o cavalo, sem se dar conta das questões de fundo. "Tem gente que mora em Porto Alegre em apartamento, sai à rua, vê um monte de carros e na hora de compor é sempre ‘meu cavalo, meu cavalo'..." — diz o poeta.

Falsa modernidade

Jaime teve sua participação nessa briga: ainda na década de 80, publicou na revista Tarca — voltada à discussão da cultura rio-grandense — um artigo satírico intitulado Ensaio superficial sobre a psicofisiopatologia da ideação passadista.

Não por isso, no entanto, é menos crítico em relação a distorções como a chamada tchê music, através da qual a indústria fonográfica tenta fazer com a música gaúcha coisa semelhante ao que fez com o samba ou com a música tradicional da Bahia. "Esse pessoal acha que ser moderno é usar guitarra elétrica. Se for assim, dou razão aos CTGs" — diz, referindo-se à polêmica que se instalou no Rio Grande do Sul depois que o Movimento Tradicionalista Gaúcho proibiu a tchê music nos centros de tradições.

Diversidade

Caderno dos Espelhos e Punhais do Minuano compõem um bom retrato de um novo e multifacetado Rio Grande.

Ali está a miséria urbana, em poemas como Vilarejo

O vilarejo é um espelho profundo e claro:
da gente pobre, a imagem dura do desamparo

e Guaiacas de Vento. Ali está a crise de identidade que assolou o estado a partir do esgotamento estrutural verificado na década de 80 e ainda sem solução, expresso e denunciado em poemas como O Combatente de Guerra Nenhuma

Meu lenço, agora rosado,
era de um rubro bem vivo.
Meu pala tem muito estrago;
cada estrago, seu motivo.

Ali está a exaltação da liberdade em Milonga de um Combatente no Cárcere. Ali está um instantâneo da paisagem noturna de Porto Alegre em O Circo do Amor Pequeno. Ali está a denúncia de um modelo agrícola assassino em O coração da terra e Dádiva

Mas o homem, de tão sábio,
fez a morte planejada:
plantou fórmulas no solo
e a terra não deu mais nada.

E ali está o retrato do êxodo rural, da redução do camponês à miséria urbana em Sesmaria de Asfalto e No Palco das Avenidas

Um roteiro retirante
é a extensa romaria
que se escreve com os passos
à margem das rodovias.

Ali está a história do Rio Grande do Sul — revista, recontada e ao mesmo tempo reivindicada —, em A Revolução Farroupilha Segundo o Parecer de um Anônimo Lanceiro Negro, Milonga de Honório Lemes e A Morte Branca Desenhou Meus Campos. Ali estão símbolos tradicionais da cultura gaúcha, não como objeto de culto, mas como metáforas da aventura humana em A Boleadeira e a Queda. Ali estão os tipos tradicionais da fronteira, os homens do povo empobrecidos, retratados e tratados com profundo respeito em Canto à Despedida de um Ginete e Elegia Reflexiva Sobre um Homem e seu Pequeno Contrabando.

Ali está um Rio Grande do Sul brasileiro e platino num momento em que a América do Sul ainda padecia debaixo das botas de assassinos e torturadores, situação denunciada em O Tempo das Pátrias Bêbadas

E proliferam pelas pátrias bêbadas
um turbilhão de mórbidas clausuras.
Quem mais enxerga nesse tempo bárbaro
possui nos olhos uma venda escura.

Ali está a homenagem aos que resistem em As Mães da Praça de Maio

Essas madres loucas
a erguer retratos
são do povo triste
um espelho exato
e seus lenços brancos
aves peregrinas
a voar, imóveis,
sobre a Argentina.

Retrato do artista

Ali está também o retrato do artista que passava a fazer parte da paisagem cultural do estado. Um artista que fala também da alma humana em poemas como Reflexões à Beira do Abismo, A Dupla Face do Silêncio e As Quatro Faces da Morte Líquida

O morrer-se como um rio
enquanto sente que flui
é navegar sobre o curso
que ao nascer, já nos possui.
E às vezes se derrama
um desejo sobre nós:
saber o tempo-vazante
e o ponto exato da foz.

As obras seguintes de Jaime podem ser consideradas desdobramentos de aspectos já presentes em seus dois primeiros livros. Se estes continham uma síntese do poeta que surgia, os subsequentes viriam a ser estruturados em torno de temas específicos. Isto ocorre em Livro dos Amores e também em Os Olhos de Borges e Inventário de Cronos — que tratam, respectivamente, do escritor argentino e do tempo.

Atualmente, Jaime trabalha em dois livros nos quais retoma temas ligados ao universo riograndense: Livro da Terra e Livro das Milongas, que sairão após O Estrangeiro no País do Corpo.

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Pandorga da Lua

Dedicado ao público infantil e lançado em 2006, é o último livro de Jaime. Traz novamente, desde o título, a cultura riograndense como elemento principal.

O poeta conta que amigos e editores tentaram demovê-lo de usar a palavra pandorga (pipa, no RS) por razões comerciais, já que o livro pareceria pouco atraente fora do Rio Grande do Sul. Ele negou-se terminantemente a trocar o nome.

Pandorga da Lua é acompanhado por um CD com versões musicadas de cada poema do livro, num formato similar ao usado por Vinícius de Moraes em Arca de Noé. Musicados por Ricardo Freire, os versos de Jaime são interpretados por artistas como Lucinha Lins, Yamandú Costa e Renato Borghetti. Cada música corresponde a um diferente ritmo popular do Rio Grande do Sul: xote, milonga, vanera, chamamé, bugio, etc. Merecem destaque também as bonitas ilustrações de Paula Mastroberti.

Trata-se da primeira incursão de Jaime pela literatura infantil, vertente que atraiu não poucos grandes escritores (na poesia, além de Vinícius, o caso mais famoso é o de Cecília Meireles, com A festa das letras e Ou isto ou aquilo). Ele conta que teve a idéia de escrevê-lo por estar cansado de ver livros para crianças cheios de diminutivos. "Os autores pensam que criança é burra" — diz.

Milonga de um Combatente no Cárcere

Deste ponto onde me encontro
o meu mundo é meu espaço.
Verticais cilindros negros
me cerceiam como laços.

Desta cela onde me acho
meu espaço é só limites.
Os verbos da vida livre
aqui não há quem recite.

E além do espaço pouco
meus limites são imensos.
Entre esperas que não findam
a minha vida repenso.

Nem a morte a chegar perto,
nem a dor mais lancinante
têm mais rigores que as dores
que hoje em mim são constantes.

A meu redor busco um meio
que a liberdade resgate.
Forjaram estas paredes
meu exílio dos combates.

Em mim, as rédeas do tempo
no potro lerdo dos dias
domam horas indeléveis
e amenizam rebeldias.

E, mansamente, despejam
a dor mais dura e mais lenta.
Em nada existe sentido
se a liberdade se ausenta.

(Punhais do Minuano, 2ª Edição, Porto Alegre, WS, 1998)

Relibertar

Mãos de pedra nos obrigam
duras vestes de quietude.
Não aceitam argumentos,
nem repensam atitudes.

As espadas ditam normas
pela voz de aço agudo.
É contra as forças de fato
que os direitos gritam mudos.

Estão envoltas de esperas
nossas pálpebras cansadas.
Temos olhares opacos
de ver pátrias mutiladas.

Só nos querem sob mantos
de alegrias passageiras
para que se empane a fome
nos pampas e cordilheiras.

Mas um dia nossas vozes
irão dissipar cortinas,
relibertando as colônias
da América Latina.

E sem mordaças espessas
faremos novas verdades
com povos tecendo juntos
meridianos de igualdade.

(Caderno dos Espelhos, 1ª Edição, Porto Alegre, Tchê, 1993)

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