A terra se conquista agora

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O município de Manga, com 24 mil habitantes, fica situado no extremo-norte do estado de Minas Gerais, já bem próximo da Bahia. Nesta região fica situada a área Renascer, que tem a coordenação da Liga dos Camponeses Pobres. Lá, até o estabelecimento das famílias e construção das primeiras casas, houve uma grande história de resistência e escaramuças com pistoleiros. Agora os camponeses estão prestes a realizar a demarcação de seus lotes, o 'Corte Popular' da terra, decidido pela Assembléia Popular dos camponeses.

Área plantada em contraste com resquício do abandono latifundiário.

Ao chegarmos à área Renascer fomos recebidos por Dona Maria Boró, que reside lá desde a tomada da terra e participou da resistência contra as investidas do latifúndio e da polícia e por Niversi Alves, 74 anos, senhor Sissi, como é conhecido por todos. Logo chegaram o senhor Augusto de Oliveira e senhor Manoel, 76 anos, este último um grande contador de histórias e de casos, que nos acompanhou o dia todo.

Desde então...

São três anos desde a expulsão do latifúndio.

"Ele não era o proprietário" -denunciaram os camponeses.

'Ele' é Antônio dos Remédios, um português que pretendia se enriquecer com o 'negócio' do algodão.

— Duas pessoas, que se apresentavam como proprietárias das terras, venderam a fazenda para Antônio dos Remédios. Ele adquiriu as terras e uma usina de beneficiamento do algodão através de um financiamento milionário. O português, segundo diz o pessoal antigo da região, e isto é conhecido por todos, fez um seguro caríssimo da usina e tocou fogo nas suas instalações. A seguradora desconfiou do 'incêndio' e enviou alguns peritos para inspecionar. O latifundiário fugiu e a terra foi rolando de mão em mão até chegar nas mãos do tal Juarez — quem narra esta história é José Pedro, que serviu de guia para nossa reportagem.

— Esta terra era da MGI Minas Gerais Participações S/A, do governo de Minas, e estava parada, sem produzir nada. O latifundiário, Juarez, mantinha mais de 150 fornos de carvão queimando dia e noite na área. Ao todo, éramos 150 famílias e decidimos entrar — contou José Pedro.

— Entramos na área e o acontecimento chamou tanta atenção que dentro de quatro dias o juiz da Vara Agrária de Belo Horizonte veio até aqui. — recordou o senhor Sissi — o Juarez disse que era criador de gado, e realmente tinha umas cabeças de gado aqui que ele utilizava para que ninguém falasse que a terra estava sem emprego algum. Quando o pessoal da Vara Agrária chegou, só tinha forno de carvão, eram uns 160. O Juarez disse que os fornos estavam inativos há dois anos, mas quando o Procurador Geral da Vara Agrária foi conferir, queimou o pé nas brasas que ardiam em um dos fornos. — completou rindo.

O juiz deu a posse da terra aos camponeses. O fazendeiro, que não retirou as cabeças de gado para tentar ganhar tempo, teve que retirá-las às pressas quando o povo começou a comer o gado. O Incra, que deveria cuidar da divisão dos lotes para as famílias, propôs que eles se retirassem da maior parcela da terra e se mudassem para uma pequena porção. Alegavam que aquela terra não era propícia para fins de reforma agrária.

— Como não é propícia? — indagou o senhor Augusto -, se anos antes um banco liberou milhões para o financiar o empreendimento de um latifundiário na mesma área?

Rechaçando agressores

Com a certeza de que não iria ficar com as terras, Juarez mandou alguns funcionários em um caminhão desmanchar a cerca e retirar os mourões da fazenda.

— Ele estava retirando tudo e transportando para as suas outras fazendas — atalhou o senhor Manoel, acrescentando — paramos o caminhão e retivemos ele no acampamento. Então o Juarez veio com a polícia... Só assim ele teve coragem de vir buscar o caminhão.

— No começo éramos 150 famílias; 150 barracas, todas juntas, debaixo de um pé de umbu. Muitos de nós, não é Manoel? — disse, convidando o outro amigo para a conversa — trabalhávamos como diaristas ou à meia em outras áreas. Até na época que moramos em barracos de lona, já tínhamos uma coisa boa: era todo mundo junto, ninguém tinha mais que ninguém. A cozinha era coletiva. Isto fortaleceu muito nossa união — reforçou o senhor Sissi.

— Mas tivemos que enfrentar outra luta, contra os traidores. Essas pessoas que surgem no nosso meio e que o tempo vai revelando, fizeram uma denúncia sobre a existência de fornos de carvão aqui. Veio o IEF1, o Ibama com helicóptero e tudo mais. Eles investigaram e não encontraram nada — prosseguiu o senhor Augusto.

— Uma semana depois do caso do caminhão, chegaram dois ônibus da polícia, acompanhados de 10 caminhonetes. Eles alegaram que estavam atendendo uma denúncia sobre existência de drogas na área. Aqui só tem gente trabalhadora. Que droga eles estariam procurando? Pois eles entraram na área, tomaram motocicletas, motosserras. Eles chegaram na hora de uma reunião geral do acampamento e cercaram tudo. Arrombaram os barracos e reviraram tudo.

Dona Maria Boró, esposa do senhor Chico Boró, um dos coordenadores da Liga na região, narrou os fatos que seguiram:

— Foi uma covardia. Nos barracos vazios, ou porque as pessoas estavam na reunião ou trabalhando fora, nada foi respeitado. Nessa hora as mulheres juntaram as crianças e fomos todos para frente do acampamento cercar a polícia. Eu tenho nove filhos, já tinha sete naquela época. Entramos na terra para viver, para plantar e cuidar dos nossos filhos. Quem eram eles para tirar a gente daqui? Nós ficamos lá encarando a polícia. O pessoal ficou revoltado, soltaram uma caixa de foguete no rumo dos policiais, que saíram em uma carreira. Todo mundo sabia que isto era provocação contra a gente, mas continuamos organizados.

Decisão coletiva é lei

Nas áreas camponesas, logo quando a terra é tomada, surgem outras demandas que têm de ser respondidas. O corte da terra, a produção, construção de benfeitorias, até casamentos já foram realizados pela instância superior de decisão dos camponeses: a Assembléia Popular. Na Assembléia as famílias debatem coletivamente todos os seus problemas, buscam soluções, estudam.

— Certa vez — narrou José Pedro — 23 pessoas se juntaram e acionaram o IEF dizendo que aqui no Renascer estavam fazendo carvão. Esta gente infiltrada em nosso meio, ou porque quer ter mais que os outros, ou quer ficar no melhor pedaço de terra, ou se vende para o latifúndio que vive oferecendo umas migalhas para quem fizer trabalho contra a Liga, atrapalha muito a coletividade. Eles inventaram esta denúncia e o IEF baixou aqui junto com a polícia florestal. Mas quem destrói a natureza são os latifundiários. São eles que entram com máquina pesada no meio da mata e destroem tudo para fazer pasto. Quando o Juarez tinha 160 fornos aqui, ninguém vinha, mas quando um ou outro pequeno produtor na região junta uns pedaços de pau e faz um carvãozinho para sobreviver... Vem um aparato enorme aqui e eles ameaçam nos retirar da terra. — denunciou.

Dona Maria Boró acrescentou:

— Convocamos a Assembléia das famílias e decidimos que estes 23 seriam expulsos do acampamento. A decisão é dura, mas nós honramos com nossa palavra e todos sabem o que significa trabalhar contra a coletividade. Todos tiveram de se retirar.

Cortando a terra

— A reforma agrária do governo prometeu assentar 400 mil famílias. Nenhuma família foi assentada em Manga — disse José Pedro.

A Assembléia Popular do Renascer decidiu pelo corte da terra.

— O Incra deveria ter demarcado essa terra há muito tempo. Mas volta e meia vem com uma história de que tem mais famílias do que a área comporta, com umas normas que só servem para eles. Eles não conhecem a nossa realidade e não querem cortar a terra. Essa é a verdade. Temos discutido esse corte da terra aqui em várias Assembléias. A nossa idéia é fazer o corte de forma que não prejudique ninguém. Que todo mundo tenha uma terra boa para cultivar e que fique mais ou menos próximo ou de preferência até no mesmo lugar aonde já vinha cultivando a sua roça — salientou Augusto de Oliveira, que hoje conta com 54 anos, mas vive na região desde os 25.

Ele acrescentou:

— Essa aqui é uma terra boa como só vendo. Falta água, isso sim, mas quando tem chuva dá de tudo. O bom mesmo seria cortar logo a terra, aí discutiremos como resolver o problema da água, que hoje faz muita falta. Temos muita água debaixo da terra. Falta conseguirmos o recurso para cavar poços e arranjar as bombas d'água.

Percorrendo a área, vimos inúmeras roças de milho, arroz e mandioca. O milho já estava praticamente perdido. O Senhor Manoel explicou da seguinte forma:

— Quando o milho solta a 'boneca', esta flor que você está vendo aí no alto do pé, logo em seguida a planta precisa de uma chuva, para dar caroço na espiga. Se a chuva não vem, a espiga fica só no sabugo, quase sem grão. Veja só, o arroz que já devia estar alto, ficou uma moitinha de nada. Só a mandioca que exige menos água, está firme. O arroz, se vier uma chuva, vai produzir bem. Mas o milho, este já perdemos a maior parte. Aí na baixada, temos uma terra muito boa, a água do rio vinha até aqui, mas agora, mesmo com a cheia, está seco.

Com as explicações dos camponeses, viemos saber que subindo o curso do rio, as grandes obras de irrigação e os pivôs do latifúndio, além de uma série de barragens que os bandidos latifundiários constroem para represar a água em benefício próprio, impedem que as áreas de baixada recebam o volume de água necessário para o cultivo.

Ainda sobre a questão da terra, de acordo com o que foi apresentado pelos camponeses, durante algum tempo eles aguardaram a decisão do governo e do Incra sobre o corte da terra. A área Renascer, de acordo com o laudo do Incra, tem 4.800 hectares a serem divididos para as 127 famílias.

— A bandidagem em torno dessa terra é tão grande que, soubemos, o latifundiário Juarez comprou um engenheiro para adulterar o laudo. Aqui há algum tempo, foi descarregada uma pequena carreta de calcário, que com o passar do tempo, sob o efeito do sol e da chuva, criou uma crosta dura por cima assemelhando-se a uma pedra. Pois o engenheiro tirou uma foto daquele monte de calcário e disse que aquilo era um 'afloramento de rocha'. Além disso, ele escolheu as piores roças e as plantas mais secas, fotografou e anexou ao laudo, insinuando que aquela terra era imprestável para o cultivo... — denunciou José Pedro.

Diante deste impasse, a Liga dos Camponeses Pobres propôs que os camponeses fizessem o corte por conta própria, sem esperar governo nem Incra. O tema foi debatido em uma Assembléia e decidido que fariam o corte popular, como nomearam a ação.

— Quem estiver na terra vai ficar — disse animado senhor Sissi, que prosseguiu — consultamos a opinião de todos. Aqui tem uma terra boa de baixada, o 'filé' da área. A proposta é que cada família fique com 3 hectares desta área melhor e divida o restante por igual.

As comissões

Para executar o que estava decidido, foram compostas cinco comissões de trabalho:

1 Comissão de topografia: para cuidar das medições dos lotes e marcação dos limites;

2 Comissão de construções: encarregada de construir 300 marcos de cimento para demarcar o limite entre os lotes, o trabalho desta comissão já havia sido executado quando fizemos a reportagem;

3 Comissão de abertura de picadas: esta é maior. Conta com 60 pessoas e tem a função de abrir as picadas nas áreas limítrofes entre os lotes;

4 Comissão de alimentação: encarregada de preparar a alimentação das brigadas;

5 Comissão de apoio: responsável por conseguir apoio logístico e financeiro para a execução de todo o trabalho.

— A nossa proposta é fazer um revezamento entre as equipes, para que todos possam trabalhar sem sobrecarregar ninguém. Temos de demarcar vários lotes: os da terra melhor com 3 hectares, e os outros maiores de 30 hectares. Para cada um destes lotes, necessitaremos de um grupo de dez pessoas. — explicou José Pedro.

Dona Maria nos mostrou um caderninho caprichosamente guardado com as anotações de todas as contribuições das famílias para a realização do corte da terra. Cada um contribuiu com 15 reais, e todos os acertos foram feitos em dia.

A hora da verdade

— Este corte vai mostrar quem quer terra e quem não quer, quem quer plantar e quem não quer. Esta divisão vai ter muito resultado, pois o que prevalece é a coletividade e o trabalho de todos. Isto sim vai revelar quem quer terra de verdade. — explicou o senhor Sissi.

— Este corte vai ser nossa garantia. Nem o governo tira a gente daqui. O nosso governo somos todos nós, o que vale é a nossa decisão — concluiu o senhor Augusto de Oliveira.

A estratégia do Incra, conforme pudemos averiguar, baseando-nos no laudo comprado pelo latifúndio e nas falas dos camponeses, é dividir as famílias, jogar uns contra os outros. A posição do Incra é a de que a área comporta apenas 100 famílias. Isso implicaria em retirar 27 famílias que estão na terra desde o princípio.

— Isto nós não admitimos! — se adiantou dona Maria Boró — Ninguém vai sair daqui, queremos a terra para todos, e vamos repartir para todos.

O corte da terra é um dos primeiros passos dados nas áreas camponesas, tão logo são tomadas do latifúndio. Onde atua a Liga dos Camponeses Pobres, este é um dos primeiros procedimentos adotados, porque os camponeses precisam se lançar imediatamente à produção. Para a demarcação dos primeiros lotes, os camponeses vêm utilizando instrumentos e técnicas simples: uma corda e a 'cubagem', que não é nada mais que a aplicação prática de regras matemáticas para o cálculo da área. Mas as famílias já se preparam para a aquisição de um teodolito e um aparelho GPS.

A terra que estava parada, abandonada, agora está cultivada com uma infinidade de cultivares. Produz e faz girar a economia da região. Em uma outra ocasião relataremos como os camponeses fazem as medições, a 'cubagem' para o corte da terra e todo o trabalho das brigadas. Somada à experiência da Ponte da Aliança Operário-Camponesa, o corte popular da terra demonstra de forma clara, como quando quebradas as amarras seculares do latifúndio, o processo produtivo dá um grande salto.


1 IEF — Instituto Estadual de Florestas — Órgão do governo que patrulha as chamadas 'áreas de preservação ambiental', reservas de fauna e flora. Estas áreas de preservação, particularmente no Norte de Minas, têm sido um dos principais artifícios utilizados contra a luta dos camponeses para atacá-los e justificar as investidas do IEF, sempre acompanhado de policiais.

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