Prossegue o terrorismo de Estado

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O relato macabro foi descrito por moradores do Jacarezinho, favela localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde a reportagem do AND esteve no dia 18 de agosto.

Há alguns meses, policiais teriam matado uma pessoa e a colocado num carrinho de mão, usado para passear com o corpo pela favela durante toda a manhã.

Desde o final dos Jogos Pan-Americanos, período que proporcionou uma certa tranquilidade na cidade, dezenas de pessoas já foram assassinadas e feridas durante operações policiais. Em Deodoro, a polícia assassinou seis pessoas no dia 24 de agosto. No Jacarezinho, três pessoas tiveram igual destino no dia 15 do mesmo mês: Lincoln da Silva Rezende (18 anos), Fábio Souza Lima (19 anos) e Elisângela Ramos da Silva (28 anos). A mesma operação deixou ferido o filho de Elisângela, Tiago, de apenas 4 anos. No final de julho, outra operação policial em Vigário Geral assassinou seis pessoas. Situação idêntica ocorreu na Vila Aliança, Coréia, Estácio, Borel, Macacos, Cutia e Maré. A cena se repete por toda a cidade e, revelam os moradores, ao contrário do que divulga o monopólio da imprensa, geralmente não há troca de tiros.

A ação da polícia no Jacarezinho dificilmente será esquecida pelo povo dali.

Versão dos moradores

Ivan Ramos da Silva, irmão de Elisângela, contou que ela foi alvejada enquanto levava seu filho para a casa da mãe. Como havia uma obra sendo realizada no trajeto habitual, ela desviou pela beira do rio, local onde os bandidos costumam ficar. Quando os policiais começaram a atirar, ela procurou abrigo numa padaria. No instante em que ela passava em frente à padaria, os policiais despontaram num beco e atiraram. Um dos tiros de fuzil atingiu a cabeça de Elisângela. Esse mesmo projétil, amortecido pelo impacto na mãe, atingiu a cabeça do pequeno Tiago, que ainda encontrou forças para gritar repetidas vezes:

— Levanta, mamãe. Levanta, mamãe. — afirmou Ivan, que é técnico de som e tem 31 anos de idade:

— Quando ela caiu, os moradores queriam ajudar. E ela estava pedindo ajuda, ainda estava viva. Estava viva! Os policiais não deixaram socorrê-la. Falaram que quem chegasse perto ia morrer junto. Nesse momento, quando falaram isso, todo mundo se afastou.

Mesmo diante das ameaças, uma moradora chamada Elisânea Oliveira atravessou a ponte correndo, tomou Tiago no colo e o levou para o hospital:

— Tive que fazer um 'barraco' no hospital, porque só queriam atender o menino quando chegasse um parente — ela conta.

Enquanto Tiago era levado para o hospital, o corpo de sua mãe foi atirado dentro do Caveirão — veículo blindado da polícia — , que seguiu para fora da favela. Ivan conta que

— ...lá fora, tiraram o corpo do Caveirão e o colocaram numa viatura, uma D-20. Minha mãe viu quando estava levando três sobrinhos meus para a escola. Quando eles chegaram no hospital, eles jogaram o corpo da minha irmã e dos outros dois rapazes no chão, em vez de colocar na maca, o que também deixou o pessoal do hospital indignado.

Ivan conta ainda que os policiais demoraram duas horas para levar os corpos até o hospital. Por fim, o menino acabou sendo operado e uma peça de platina foi implantada em seu crânio, em lugar do projétil. Ele não corre risco de morrer.

Outro depoimento

O depoimento da mãe de Lincoln, morto em 15 de agosto no Jacarezinho, teve de ser interrompido quatro vezes. De vez em quando ela começava a chorar. Aquela mulher, pelo menos naquele dia, carregava toda a dor do mundo. Seu olhar oscilava entre a ausência absoluta de expressão e o brutal arrepio de quem perdeu o filho que tanto amava:

— Ele estava em casa, comigo. Eu ia sair de manhã, às 11h30. Ele falou 'pode ir, mãe'. Eu falei pra ele ficar em casa e perguntei se precisava fazer almoço. Ele respondeu 'não, mãe, não precisa fazer almoço, agora não. Quando a senhora voltar, a senhora faz a comida. Qualquer coisa, eu vou na padaria e compro pão'. Eu disse: 'tá bom, meu filho'. Aí ele me abraçou, me beijou, abençoei ele e saí para trabalhar. Quando eu cheguei, às duas horas, ali na Mário Rangel, vieram minhas duas sobrinhas correndo. Aí coloquei a mão nelas e falei 'que foi, filha'? Elas: 'Benção, tia'. O que foi, aconteceu alguma coisa. E elas com os olhos cheios de lágrimas: 'Tia, mataram o nosso Lincoln, tia. Lá em frente à padaria' — disse Maria Luiza da Silva Rezende, chorando muito.

Tanto no Jacarezinho, quanto em outras localidades, as operações policiais têm sido realizadas em horário escolar: de meio-dia a uma, e entre cinco e seis da tarde.

Chacinas do varejo

Wanderley Cunha, coordenador de um pré-vestibular na Favela de Acari, disse que a polícia escolhe esses horários por ser o da troca do plantão nos batalhões, quando teoricamente os bandidos estariam mais atentos. Ele critica essa tática da polícia que expõe a vida de milhares de pessoas:

— Essa é a hora em que os trabalhadores de todo o mundo, inclusive moradores de favelas, estão saindo para o trabalho. As crianças estão sendo levadas pelos pais para as escolas e funcionários públicos (tal como os policiais militares), estão chegando aos seus locais de trabalho; que são escolas, creches, postos de saúde que ficam próximo ou dentro das favelas — disse.

A socióloga Vera Malaguti classifica essas ações pontuais nas favelas como "chacinas do varejo".

— Em qualquer país do mundo, o enfrentamento policial que resulte em morte é um problema muito grande para a polícia. A polícia do Rio, se não é a que mais mata, está entre as mais violentas do mundo, junto com outras brasileiras. Nessa área, somos campeões olímpicos. Criou-se e adestrou-se uma leniência coletiva com relação à truculência policial. Da saída da ditadura para cá, acho que os meios de comunicação martelaram o medo, e o medo sempre concentrado no varejo da pobreza, na criminalização da pobreza. Nós não tivemos medo do privatizador, embora o Brasil tenha perdido muito mais com isso do que qualquer outra coisa — afirma a secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia.

Para a Dra. Vera, esse modelo de segurança pública também prejudica o policial.

— Não faz bem você transformar o homem da segurança pública num matador. Não acho que isso vá ser positivo para ele, nem para os familiares dele. Coitado dele e da sua família. Isso tem um preço muito grande, não é um papel confortável. É confortável para o pessoal que vai aplaudir na Zona Sul — sublinhou a socióloga, que também fez duras críticas ao monopólio da imprensa.

— Acho que se criou um consenso e a grande "mídia" está fazendo uma blindagem desse assunto no governo estadual. É o velho paradigma da escravidão brasileira, reciclado pelo capitalismo de barbárie e pela construção desse aplauso pela mídia. Não tem nem mais vergonha do extermínio que, pelo contrário, virou modelo de sucesso — conclui.

Medo profundo

Wanderley Cunha também enxerga nessa política de segurança pública um instrumento das classes dominantes contra o proletariado.

— Vendo do ponto de vista desses governos e da classe dominante que eles representam e servem, acho que estão cumprindo seu papel.

Esse modelo militarizado de segurança só pode ser sustentado se for infundido um sentimento de medo profundo na população. E um medo direcionado para o proletariado. Ao mesmo tempo em que ele é aterrorizado pelos agentes do Estado, o restante da população é levado a acreditar que ele, o proletariado, é a classe perigosa. Este é o campo simbólico que em nada tem de diferente do Brasil escravocrata. No livro O medo no Rio de Janeiro, Vera Malaguti destaca um editorial de um jornal carioca de 1835, intitulado Mais polícia, que diz o seguinte:
Precisamos de uma polícia que a nós inspire confiança e aos escravos infunda terror.

Para dar seguimento a esta política terrorista, o Estado conta com o apoio irrestrito do monopólio da imprensa. Seus órgãos cumprem com fidelidade canina a missão de naturalizar as agressões contra o proletariado, ao mesmo tempo em que constroem dele uma imagem violenta.

Série O Globo sobre violência

O jornal The Globe publicou, a partir de 19 de agosto, uma série de reportagens sob o título Os brasileiros que ainda vivem na ditadura onde pretende mostrar o sofrimento dos moradores de favelas tirando a responsabilidade do Estado.

Pode parecer que a série de reportagens que O Globo publica desde 19 de agosto dá voz e vez ao proletariado. Em alguns textos, fica clara a agressão da polícia contra os moradores dos espaços populares. Nisso, sem dúvida, há um importante trabalho dos repórteres, porém muito comprometido devido à intervenção da chefia. Além disso, há um certo atraso no jornal da família Marinho. O leitor do AND, por exemplo, vem sendo informado desde março deste ano a respeito da violência policial nas favelas cariocas.

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, foi uma das primeiras fontes procuradas pela reportagem de O Globo, ainda durante a formulação da pauta. Ela ressaltou a importância das matérias, mas fez duras críticas ao conteúdo dos textos e, sobretudo, à chamada da capa do domingo 19 de agosto, o primeiro dia da série, cuja manchete foi: Tráfico impõe leis de exceção para 1,5 milhão de cariocas.

— Eles dizem que 70% dos casos dos desaparecidos são feitos pelo tráfico e pelos grupos paramilitares. Isso é um absurdo! Porque esquecem o Estado. É uma forma de absolver o Estado — afirmou a professora do departamento de Psicologia da UFF.

Jornalistas e o patrão

Para Wanderley da Cunha, coordenador de um curso pré-vestibular da Favela de Acari, os moradores de favelas foram enganados pelo O Globo:

— É sempre assim: uma jornalista de voz simpática nos liga e nos diz que está fazendo uma matéria; que isso vai ajudar a nossa favela na luta contra a violência e pelos Di reitos Humanos. Mas, nem bem termina a série de reportagens e descobrimos que fomos traídos mais uma vez, que não devíamos ter confiado de novo em gente 'bem intencionada' como Carla Rocha e não devíamos abrir nossas portas e nossas vozes para ela — afirmou Wanderley.

O coordenador do Pré-Uni Acari também deixou claro que a responsabilidade maior é dos donos e editores do jornal:

— No final, a aparente boa intenção de repórteres ditos investigativos é desmascarada por seus chefes, editores e donos de jornal. A série de reportagens com aparência de independente, serve apenas para ilustrar o que pensa O Globo sobre a gente favelada: a favela é uma doença urbana. E a gente favelada mais uma vez constata que governantes, "mídia" impressa, falada etc, pensam e vêem a favela e o favelado como uma doença.

Wanderley se refere ao editorial do O Globo, da terça-feira, 21, cujo título é Ditadura na favela. Sua primeira frase foi particularmente muito criticada:

"Embora seja uma doença urbana disseminada pelo país, a favelização virou a cara do Rio."

O termo "doença" remete ao início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos destruiu o cortiço Cabeça de Porco com a justificativa de higienização do centro da cidade. E a idéia de "limpar" ou "curar" remete ao pensamento nazi-fascista, ainda muito presente na sociedade atual e na maneira de pensar dos donos das corporações da tal "mídia".

Cecília Coimbra ressalta que os meios de comunicação de massa produzem um deslocamento subjetivo do eixo da violência:

— O tempo todo a gente diz que a violência não está com a pobreza, porque se a pobreza fosse violenta a gente não saía na esquina. A violência está com os agentes do Estado. São os agentes do Estado que promovem a violência nessas comunidades — diz.

Por fim, Wanderley da Cunha observa que

— Talvez a verdadeira doença social do país esteja por detrás das grades e das guaritas dos condomínios fechados da Zona Sul e da Barra da Tijuca. Pois é de lá que os verdadeiros donos do tráfico comandam seus negócios e lucram com o sangue e a vida que se esvaem dos corpos dos jovens favelados. Para nós, da favela, ela é a cura, e os condomínios burgueses são as doenças. E os jornais burgueses como O Globo, e governantes como Sérgio Cabral, são os "vetores" dessa doença.

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