Editorial - Duas frentes de genocídio, um mesmo combate

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Mais uma agressão policial ao povo das favelas é efetuada a pretexto do combate ao tráfico de drogas e armas. Desta vez na favela da Coréia, bairro de Senador Camará, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de outubro. O resultado da "bem sucedida" (segundo a gerência estadual) operação: quinze homens, um policial e uma criança de quatro anos mortos.

Tais ataques policiais se tornaram uma constante na cidade, mas este guardava uma cena inusitada, bem ao agrado daqueles que gostam de se divertir com a desgraça do povo: um helicóptero atira contra dois homens sem camisa e aparentemente desarmados, que correm desesperadamente morro abaixo para salvar suas vidas. Ao final da "reportagem", o narrador anuncia: "Os dois bandidos foram mortos". Simples assim. Só faltou uma claque para aplaudir a eficiência da polícia, que se esmerou em demonstrar como se aplica no Brasil, contra os pobres, a pena de morte com execução sumária e pública. Alguém terá se perguntado como as câmeras dos monopólios dos meios de comunicação se postaram exatamente ali, onde ocorreria o safári humano?

Se durante décadas os grupos de extermínio atuaram nas sombras, ainda que sabidamente compostos por militares e membros das polícias, agora, na prática, o extermínio se dá de forma assumidamente institucionalizada. De janeiro a agosto, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, 845 pessoas foram assassinadas pela polícia, inclusive mulheres, crianças e idosos. Esse é o desejo das classes mais reacionárias do país, expresso na mais ampla cobertura da imprensa burguesa que, com júbilo justifica a matança. Seu clamor recebeu como reforço a publicidade institucional do filme mais caro já produzido no Brasil, Tropa de elite (ver críticas ao filme nesta edição).

Comandada pelo senhor Sérgio Cabral, açulado e aplaudido pelos monopólios da imprensa, a "política do enfrentamento", eufemismo que esconde a mais torpe criminalização da pobreza, é o incremento da repressão planificada, jamais vista, contra o proletariado das favelas. Porém, não há eufemismo que resista às declarações do senhor Cabral e seu lugar-tenente, José Mariano Beltrame. O Secretário de "Segurança Pública" declarou em 3 de outubro, textualmente: "Um tiro em Copacabana é uma coisa; um tiro na [favela da] Coréia, um tiro no Complexo do Alemão, é outra".

Já Cabral, não deixando lugar a dúvida quanto à sua mentalidade tacanha e dando vazão a todo tipo de estupidez que o fascismo lhe inspira e desperta, declarou sem papas na língua, entre outras pérolas, que "Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal" (portal G1 — Globo —, 24 de outubro). Para o regozijo da população da "Suécia", que aplaude o genocídio em "Zâmbia" e no "Gabão".

Sinal dos tempos... Entretanto, de fato, só como farsa a história se repete. Razão a mais para dizer que o fascismo é a política do imperialismo para as colônias e semicolônias. Assim, a "política de segurança pública" aplicada em todo o Brasil, como um meio de frear a crescente revolta e protesto popular, é uma exigência da oligarquia financeira internacional, que cobra cada vez mais sangue do povo brasileiro enquanto rouba, impunemente, todas as riquezas do país. Ações criminosas essas impossíveis de se cometer sem ditaduras, disfarçadas ou não, dos lacaios de turno.

II

Em outra frente, o futuro imediato dos trabalhadores brasileiros se projeta como uma condenação terrível à desgraça. O Estado ataca com a proibição do direito de greve, o desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho — que do ponto de vista dos trabalhadores nunca foi a melhor das leis — e a retirada das garantias previdenciárias.
Legislando e numa só penada, o Supremo Tribunal Federal simplesmente estende aos servidores públicos a vigência da regulamentação da lei de greve do setor privado — leia-se anulação cabal do direito elementar de greve. (ver Fascismo escancarado — a proibição do direito de greve ).

Somando a esse ataque ao fragmento da constituição que resguarda minimamente os direitos do povo, há no Congresso o projeto de lei 1987/2007, de autoria do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) que liquida a CLT, substituindo-a por um "novo" código do trabalho. Combinados, esses dois são o mais letal ataque aos trabalhadores brasileiros. Ou seja, decreta-se que tudo dependerá da "livre negociação" entre patrões e empregados, ao tempo em que é anulada na prática, dadas as restrições impostas, a única forma de pressão e barganha dos trabalhadores: a greve.

A inevitável insistência dos trabalhadores na ação grevista será criminalizada de forma tal que fará parecer inofensiva a prática do passado, quando a questão sindical era tratada como caso de polícia.A decisão do STF sobre "direito de greve" e o projeto de lei de

Vaccarezza — cuja aprovação é preparada meticulosamente por poderoso "lobby" e freneticamente aguardada — desmascaram mais uma vez o simulacro de democracia vigente, que a lustrosa publicidade busca encobrir.

Os atuais gerentes, serviçais do imperialismo, desdenham, fingindo não saber que seus engendros serão ineficazes diante da onda grevista que, mais dia menos dia, levantar-se-á como avalancha tanto entre os trabalhadores do setor privado quanto do setor público. Entretêm-se assim fazendo planos para mil anos e armando estratagemas de como melhor se garantirem e se perpetuarem. E, com artimanhas e sem ética nenhuma — isto já não importa — se agarram como podem ao poder podre.

As massas já começam a se desvencilhar das direções sindicais oportunistas. Tanto é que a pelegada, oficial ou não, apressa-se em manobras destinadas a passar a imagem de que se opõe ao esbulho desatinado. E com certeza os trabalhadores impedirão as tentativas de retirada de seus direitos e do consequente rebaixamento de suas já péssimas condições de existência. A luta mais difícil e inquinada educará as massas a descobrir, com maior profundidade, que neste sistema de exploração e opressão não há sequer alívio para seus sofrimentos e que não resta outro remédio que sua abolição completa.

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