Renato Borghi: Em defesa do teatro popular

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Acredito que enfrentamos sérias dificuldades no teatro hoje, porque a partir do AI-5, em 1968, começou a existir no Brasil todo um trabalho programado de desarmamento mental, de lobotomia no país.

A declaração é do ator, e autor de teatro Renato Borghi, que luta há mais de quarenta anos por um teatro popular e que ajude o povo a enxergar e discutir os seus problemas, desenvolvendo uma relação direta entre palco e platéia através de debates.

Um dos mais importantes artistas do Brasil, com quarenta e quatro anos de profissão, Renato Borghi, iniciou sua carreira aos vinte e um anos de idade nas arcadas da faculdade São Francisco, em São Paulo, quando, ao lado de José Celso Martines, criou o Teatro Oficina, um dos mais importantes da história do teatro brasileiro. O Oficina surgiu do sonho de fazer um teatro que se preocupasse em discutir com a platéia os problemas fundamentais da sociedade daquele momento, 1959.

Entre conflitos de gerações e o projeto para um Brasil melhor e mais justo, o Oficina tinha em seu repertório a preocupação com o conteúdo de uma peça e o estabelecimento do diálogo com a platéia. Sabiam também que esse era o desejo do público. Portanto, não se interessavam apenas pela qualidade estética, poética e teatral.

“Foi um teatro muito necessário neste sentido. As pessoas não saíam do Oficina acreditando ter assistido uma peça bonita, simplesmente. Elas saíam instigadas, querendo discutir, com a cabeça transformada. Muita gente encontrava comigo e dizia que Os Pequenos Burgueses tinha mudado a sua vida”, se alegra.

Acredito que houve um processo de
desarmamento da cultura,
porque ela é muito perigosa para o sistema

Segundo Renato, o Oficina teve uma grande interferência sobre a geração da década de 60. Durante os anos de 1959 e 1960, trabalharam como amadores e, em 1961, se profissionalizaram e de uma velha garagem construíram o primeiro Teatro Oficina, que continua até hoje no local, na Rua Jaceguai, 520.

Entre as peças mais importantes que fez no Oficina estão: Os Pequenos Burgueses, Andorra, Galileu Galilei, Na Selva das Cidades e As Três Irmãs. “A peça que mais me marcou e que todos me identificam é O Rei da Vela, do Oswald de Andrade. Essa ficou eterna na cabeça de quem viu e, depois, foi transformada em filme pelo Zé Celso. É um dos trabalhos de grande orgulho na minha carreira”, diz sorrindo.

Durante treze anos, Renato e Zé Celso trabalharam em estreita ligação, mas depois que completaram dez anos de trabalho, movidos pelo pânico de se transformarem numa espécie de instituição conservadora e, mais tarde quando passou a haver a interferência de um grupo dos Estados Unidos, começou a surgir contradições entre eles. Inicialmente Renato não aceitou envolvimento com o grupo americano, tampouco gostou do novo estilo de trabalho do Oficina e da afirmação de que “a palavra está morta”.

“Nós chegamos a viajar pelo interior do Brasil com um trabalho novo, um reprim que levávamos para a população trabalhar conosco, o que acabou gerando um roteiro chamado Gracias Senhor, que fizemos em São Paulo e Rio. Depois, retirado pela censura, nunca mais foi liberado. Mas era um reprim onde a gente começava já declarando a morte do teatro e a morte da palavra”, lembra-se.

O teatro hoje é meio abstrato
e não tem uma coerência
como já teve há um certo tempo

Esse trabalho foi o ponto de cisão entre Renato e o Oficina, pois continuava apaixonado por textos como Galileu, O Rei da Vela, Os Pequenos Burgueses, A Selva da Cidade...

“Eu não podia decretar que a palavra estava morta, quando haviam peças magníficas e eu tinha vontade de representá-las”, explica.

Renato começou a sentir-se inconfortável, até que rompeu de vez com o Oficina, saindo no meio de um espetáculo. “Disse para o Zé Celso que ele voltaria à palavra, ao autor. Hoje, isso se realizou”, recorda Borghi.

O teatro brasileiro hoje

Segundo Borghi, podemos sentir nitidamente que o Brasil mudou para pior afetando todas as áreas. O ensino mudou, tivemos os nossos melhores professores das universidades exilados durante a ditadura. Além disso, o marxismo, por longos anos, foi cortado da cadeira de filosofia. Paralelamente a isso, houve o começo da grande força da mídia influenciando negativamente as pessoas, que passaram a estar interessadas somente em especulações sobre a vida privada dos artistas: quem é noivo de quem, ou com quem o artista vai se casar no fim da novela, etc.

Hoje temos a censura econômica.
Ela é gravíssima, mata, sufoca,
acaba, liquida e pulveriza o teatro

“Vemos uma mudança lenta e paulatina de uma certa sociedade de classe média que já estava bem politizada. De repente, percebemos que está todo mundo magnetizado, hipnotizado por um grande irmão que é a tela de televisão, e que realmente deixa as pessoas, aos poucos, com uma cabeça videoclipada. Não tenho nada contra e gosto de fazer televisão, mas acho grave o teatro virar um apêndice dela, porque são duas linguagens diferentes”, constata.

Na televisão, entre outras, Renato atuou nas novelas, Dona Beija, pela antiga TV Manchete, As Pupilas do Senhor Reitor, no SBT e Marcas da Paixão, na Record. A Turma do Pererê, pela TVE, seu trabalho mais recente na televisão, foi um dos que mais gostou. “Foi todo filmado em película para depois ser telecinado”, conta revelando que, em si, o problema não é a televisão, mas o uso que dela se faz para manipular as pessoas.

Lei Rouanet transforma artistas em corretores

Borghi cita a Lei Rouanet, que fala de patrocínio das empresas para o teatro, como algo degradante. Para ele, a idéia das empresas serem descontadas do imposto de renda para botar dinheiro na cultura, é até interessante. Mas o que acontece na realidade é o artista transformado em uma espécie de corretor, com um projeto em baixo do braço, em busca de patrocínio, correndo de um canto para outro como ‘baratas-tontas' e quase sempre frustrados, sem saber o que aconteceu e porque ninguém quis patrocinar o seu projeto.

“São cartas marcadas: o Brasil virou um país de lobby. Já se sabe que meia dúzia de artistas, que pertencem a grande mídia, aparecem nas revistas de fofoca do momento e que estão em todas as festas da sociedade terão patrocinadores, ao passo que os núcleos do trabalho cultural diário, que dá caráter ao que se produz em uma cidade, ficam completamente desassistidos”, revela.

Autores nacionais não conseguem espaço

“Temos uma produção nacional, mas também é protegida pelos incentivos legais da Lei Rouanet. São autores que há muito produzem para o teatro brasileiro, cujos textos já são, vez ou outra, montados. Mas, temos muitos autores de enorme talento no Brasil, que as pessoas não conhecem, como o Mário Bortoloto e o pessoal do teatro do Latão, em São Paulo”, acrescenta.

Temos um teatro colonizado
que apresenta muitas peças internacionais
e não dá espaço para os autores nacionais

Para ele, o valor está no trabalho a ser apresentado para o público e não no artista. Recentemente, por exemplo, Renato conseguiu um alto patrocínio da Petrobrás para fazer o Jardim das Cerejeiras, mas isso aconteceu porque encontrou dentro da empresa pessoas que eram seus admiradores e que o assistiram no Oficina. “Consegui o patrocínio porque era conhecido e não pelo valor do meu projeto e eu não gosto disso, porque para mim, o critério tem que tomar como ponto de partida o projeto: se é pesquisa, revolucionário ou simplesmente clássico. Isso tem que ser aferido, porque é maldoso inverter o valor das coisas culturais”, analisa o ator.

“Nós tivemos uma grande platéia universitária, que foi desaparecendo aos poucos, porque o teatro deixou de ser ponta de lança e uma espécie de profeta. Algo que conversa com as pessoas sobre problemas cruciais que diz respeito a todos, para se tornar simplesmente diversão. Eu também gosto de fazer diversão, mas creio que, como dizia Brecht, o ideal é se discutir problemas importantes divertindo.”

“O teatro não pode deixar de ser diversão, mas através de um contato presente que tem corpo, suor, lágrima, sangue pulsando e uma platéia na sua frente, deve levar ao público peças que revelem o choque de concepções, o pensamento, a inquietação, a angústia, e até mesmo o desejo de debochar das coisas”, continua.

O inimigo oculto: a censura econômica

“A censura de hoje é gravíssima e liqüida tudo aquilo que poderia ter um enorme valor. Muitos artistas, por exemplo, estão desistindo da profissão ou fazendo bicos para sobreviver, porque não conseguem viver daquilo que amam e têm capacidade de fazer, que é o teatro”, comenta.

Além disso, Renato alerta que a censura econômica estabeleceu no Brasil uma coisa gravíssima, que foi a submissão a um padrão do patrocinador, ou seja, eles precisam ver se o que estão patrocinando se parece com o produto. “Patrocinam se a peça tiver cara de uma marca de manteiga ou de café. Marcas de perfumes, por exemplo, só costumam patrocinar o que consideram ser chique, como desfiles de modas”.

Resistindo com o teatro e debates pelo Brasil

Atualmente Renato Borghi e a Cia de Teatro Promíscuo, apelido dado ao grupo de teatro do qual faz parte, juntamente com Élcio Nogueira, Luar Guimarães e Débora Duboc, está viajando pelo país com uma Mostra de Dramaturgia Contemporânea.

“Nos apelidamos de promíscuo porque acreditamos que é preciso transitar por todas as áreas, quer dizer, trabalhar desde a periferia até a alta sociedade. Dentro desta promiscuidade social, estamos envolvidos com todas as camadas da população”, justifica Renato.

Renato convidou uma turma que achava interessante, entre eles Mário Bortoloto, Fernando Bonassi, Vítor Navas, Samir Yazbek e Leonardo Alkmim, juntando um total de quinze peças. “Felizmente estamos patrocinados pelo Sesi, que tem um teatro popular maravilhoso, no coração de São Paulo, em plena Avenida Paulista. Levamos aproximadamente uns oito meses ensaiando. Foi um processo duríssimo de trabalho, mas que eu não me arrependo nem um minuto”, garante.

Para o jovem voltar ao teatro,
falta uma motivação política social

Entre as peças estão Três Cigarros e a Última Lasanha, O Regulamento e Remoto Controle. Elas têm, em média, trinta minutos de duração, com pequenos intervalos para lanche, nunca ultrapassando duas horas, que é a programação normal de teatro. Geralmente são apresentadas duas ou três peças por noite e após o espetáculo acontecem debates com a platéia.

A mostra iniciou em São Paulo, capital, já passou pelo interior, como Araraquara, Rio Claro, Sorocaba e Marília, também esteve no Rio e em Belo Horizonte, está de volta em São Paulo, para uma temporada no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. “Estreamos com cinco semanas. Em cada uma fazemos três peças por noite, mudando a programação de uma semana para a outra. Após a apresentação, convidei para compor uma mesa pessoas com olhares completamente diversos, entre profissionais de teatro e outras áreas, com o intuito de promover debates com o público. Foi profundamente enriquecedor”, conta com entusiasmo.

“As peças são uma grande ebulição provocativa para o público, uma vez que, além dos textos e dos diferentes diretores, existe um profundo trabalho de ator, porque somos quatro pessoas que interpretam diferentes personagens, cada um com grandes desafios de criação”, declara.

As cinco primeiras semanas de apresentação foi um acontecimento gigante em São Paulo. “Há muito eu não sentia a mobilização dos intelectuais, do pessoal das universidades, dos comentaristas de jornais”.

Para mim, o caminho do teatro
no Brasil é o teatro popular

“No interior, eu senti um intercâmbio muito grande. Acabava e ninguém ia embora, ficava debatendo conosco a temática das peças, a política brasileira e se o teatro estava ou não cumprindo a sua função de instrumento de comunicação direta. Fizemos seminários de dramaturgia, direção e cenografia”, acrescenta.

Renato sempre procura fazer temporadas populares, com ingressos acessíveis. “Acredito que quando recebemos um patrocínio, esse dinheiro não é nosso, mas do público, porque a população cresceu enormemente, é composta por pessoas, em sua maior parte, de baixíssima renda, e outros desempregados. Por isso, gosto da entrada grátis, do ingresso mais barato e de trazer escolas para assistir, inclusive estabelecendo debates, estimulando as pessoas a emitir suas opiniões”, expõe.

Para Borghi um debate é algo importantíssimo, porque leva as pessoas a dizer o que pensam e confrontar o pensamento de outros. “A resposta é muito positiva. No interior eu fiquei espantado com a quantidade de gente inteligente e com vontade de se colocar, sem que haja um espaço”, finaliza.

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