Peru: poemas inéditos

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Em 1985, quando visitei, clandestinamente, os guerrilheiros do Partido Comunista do Peru — PCP (conhecido como Sendero Luminoso) no campo de concentração da ilha do Frontón, no oceano Pacífico, onde estavam presos, recebi deles vários presentes. A chance de poder entrevistar aqueles bravos homens talvez tenha sido o maior deles, já que quase nunca, aceitavam conversar com jornalistas.

Naquele tempo, o PCP estava em todas as manchetes mundiais. Mas não concedia entrevistas. Por uma série de contingências, acabei sendo a primeira jornalista da América a ter acesso ao grupo, como relatei no livro Peru: do império dos incas ao império da cocaína, publicado pela Editora Aimberê (ex-Coedita).

Hoje, embora tenha sumido dos noticiários, o PCP continua provocando dores-de-cabeça à CIA e às classes dominantes do Peru. Mas eu falava dos presentes.

Dentre eles houve também um livro. Uma obra artesanal, manuscrita, desenhada à caneta, feita com extremo capricho, que jamais foi publicada. Um livro de poemas.

Um pungente conjunto de poesias, escritas por "terroristas", por "um dos mais perigosos grupos armados do mundo" — na definição do Departamento de Estado dos USA. O meu presente, intitulado pelo PCP como Cantos de Lucha y de Victoria, teve alguns poucos versos reproduzidos numa reportagem que escrevi para o jornal Folha de Londrina (PR), em 1985.

Agora, com muita satisfação, apresento aos leitores do A Nova Democracia, um poema totalmente inédito, tirado dentre aqueles brados lutadores e vitoriosos de um povo em combate. Boa leitura!

Cantos à revolução

Fugaz marcha o tempo
Sem deter-se jamais
Marchas pressurosas vão e vem
Cantos e sorrisos que anunciam a Revolução

Teus cantos são fogos que vão
Ao mundo novo de luz e vida
Teus cantos são os sonhos cálidos dos homens,
De corações e paixões ardentes pela verdade
Teus cantos são das alturas conquistadas
E também dos baixios, do vento, do sol

Teus cantos são da rebelião elemental
Esperança daqueles que sofrem
Tarefa daquele que combate
O florescer do bem

És a tempestade agitada em imensas latitudes
Onde nasce a liberdade
Natureza formosa banhada pelas brisas
Canto de pequenas aves que acompanham a luta
És o canto risonho do menino
O solidário coração do homem
Alma renovadora, furacão palpitante
És a coragem heróica do novo dia
Unida em comunhão até a meta final

És, enfim, Revolução, uma grande notícia
Proclamando a liberdade da terra, dos mares e do universo
Não existe mais o torvelinho que pressagiava a tempestade
Porque hoje és o sol radiante da vida
O presságio ficou para trás
Quando hoje em pé te saúdam os homens
Alçando suas bandeiras vermelhas
Julgando o latifúndio, o tirano imperialista,
os mergulhados na lama e os mordomos do poder
És Revolução a justiça dos pobres
A espada que tua plebe empunha firme
Vencendo no combate, alcançando teus cumes e derrotando o mal

Teus cantos são como o sol, incontroláveis
Esclarecida Revolução
Marchas como o sol triunfante, sem fronteiras
Como o sol vermelho que ilumina a terra ao meio dia
Desde a eternidade

Nossas manhãs florescem como as torrentes bravias
Que vão e vão indomáveis
Desenhando o despertar da vida
E aumentando o serpentear do caudal que cresce
Teus cantos no nosso amanhecer em vermelho
No claro da alva "manhaneira"
Têm frutos abundantes acudindo
Aos chamados materiais da nossa terra
Amanhecer luminoso como o fruto e o grão que alimenta os homens
O palpitar de suas células acendidas
Dos seus caminhos e de seus cumes
Abrigos do triunfo

Teus cantos em todas as horas e em todo o tempo
Mostram que és cada vez mais livre
Na marcha das horas e dos séculos
És a Revolução dos homens
Nada fica em pé
Tudo brilha em imensos clarões
Teu tempo é o da mudança radical
Do movimento
Como se a terra se abrisse e mostrasse um tesouro
Rebelião dos séculos
A marca de novos tempos

Teus feitos são a liberdade
O ideal correto, o impulso indomável
Escuto, sinto, amo, vou, vivo
Todos fazemos, estamos, somos
Combates, cantos e lutas
Acocorado, o menino e sua bandeira
Salta, agarra sua dinamite
Faz voar sua ira
São os fatos que existem entre nossos cantos
Revolução
Fatos duros que apagam sombras
Fatos que transformam o mundo velho
Esse de abundâncias e frutas
Teus fatos são as batalhas bondosas
De sacrifício e entrega sem trégua
Pelo amanhã, Revolução, pelo amanhã

Dá-me a mão, camarada
E entre todos, nos demos as mãos
Juntemos nossas forças
Juntos, somos força indestrutível!
Sozinhos, nada
São montanhas, como aquelas que se alçam em granito
Ou torrente de caudal incontrolável
As massas, camarada, as massas

Tuas palavras são de chumbo e dinamite
Palavras dos pobres
Linguagem que anuncia o próximo milênio
Tuas palavras não são aquelas pestilentas
Dos parlamentos prostituídos
São relâmpagos e raios
Que brandem a espada ao falar
São palavras de sangue e alma
Que marcam em vermelho a nossa Era

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