Novela da Globo escancara natureza antidemocrática da emissora

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Antes de a novela Duas Caras estrear na programação da Rede Globo, seu autor, o novelista Aguinaldo Silva, pareceu se inspirar em Luiz Inácio para vender o seu peixe e fazer ecoar sua vaidade. Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, Aguinaldo Silva disse que nunca a favela havia sido mostrada na TV da forma que sua novela passaria a mostrar. Não disse com estas palavras, mas falou com este exato grau de pretensão. Pouco tempo mais tarde, porém — justiça seja feita —, comprovou-se que ele tinha razão: a Rede Globo, por intermédio da sua novela Duas Caras, e com um nível de ódio ao povo jamais antes demonstrado, vem usando e abusando da dramaturgia picareta para veicular o credo da reação.

 São muitos os temas que vem sendo ardilosamente abordados em Duas Caras, desde as Ongs até o movimento estudantil, das relações trabalhistas à vida na periferia, do crime organizado ao racismo. E são os parâmetros da direita que orientam o desenrolar da trama e definem o "quem é quem" das personagens, sempre dentro da lógica dualista do bandido e do mocinho, que caracteriza os folhetins de segunda categoria.

Segundo os valores delineados pela novela reacionária, por exemplo, está certíssima a dona de uma universidade que pretende dirigir uma instituição de ensino segundo as técnicas das linhas de montagem. Ao mesmo tempo, resistindo à ofensiva que pretende fazer com a educação o mesmo que se faz com supermercados, os professores são apresentados como preguiçosos, empenhados apenas em atrapalhar — e não em trabalhar.

A campanha antidemocrática veiculada em forma de teledramaturgia conta com muitos atores de prestígio prestando-se a papéis nem tanto. Na ficção produzida pela Rede Globo, a história é contada com a voz dos adversários do povo, no horário nobre da TV, fazendo uma dobradinha reacionária com o carro-chefe da emissora, o Jornal Nacional. Alguns personagens em especial canalizam o ódio de classe expressado sem meias-palavras em Duas Caras. Senão, vejamos:

Apologia às "milícias"

Personagem central da novela, herói — ainda que com ares de anti-herói — interpretado por Antonio Fagundes, Juvenal Antena é o fundador da favela da Portelinha e se perpetua em mandos e desmandos ao longo dos anos. À frente de um grupo de homens armados, ele é o líder populista, que se senta em um trono e atende as pessoas por ordem de chegada na sede da associação de moradores para lhes dar conselhos, dinheiro e tudo o mais. Seu heroísmo consiste em uma característica central da personagem: o fato de não deixar que o crime organizado se instale na favela.

A todo o momento suas ações são uma justificativa da existência das "milícias" que, na vida real, aterrorizam as populações dos bairros pobres tanto quanto o tráfico de drogas.

Juvenal é o líder comunitário dos sonhos das classes exploradoras, ou seja, aquele que mantém os pobres no lugar que o capitalismo lhes reserva, que trata o povo na base da rédea curta e que exalta a submissão à rotina de trabalhador alienado — e ainda passa fogo nos "vagabundos".

A favela cenográfica da Portelinha, por sua vez, foi inspirada na favela de Rio das Pedras, custou cerca de três milhões de reais para ser construída, e parte de uma premissa ardilosa: a de que o único problema da população favelada é o crime organizado, não importando e nem sendo mencionados "detalhes" como a sistemática exploração do povo sob o capitalismo ou a ausência de serviços públicos básicos nas periferias das grandes cidades.

A Rede Globo costuma colocar na boca do personagem Juvenal Antena algumas das verborragias moralistas e preconceituosas mais repetidas pelas elites hipócritas brasileiras. São frases como a que foi dita quando a personagem encontrou maconha no bolso de um assaltante nos arredores da favela: "Bagulho! Tão vendo só? É esse o combustível dos vagabundos! Caramba, eu não suporto nem o cheiro disso! Detesto quem vende. E também não passo a mão na cabeça de quem usa. Pra mim, são todos da mesma quadrilha!".

"Dama de TitânIo"

É a personagem chamada Branca, uma das heroínas da novela, interpretada pela atriz Suzana Vieira. Na trama, ganhou este apelido da imprensa após chamar a polícia para resolver a ocupação feita por estudantes da universidade que herdou do marido morto. "Dama de Titânio" remete à "Dama de Ferro" Margaret Thatcher, que, quando era primeira-ministra da Inglaterra, moveu uma guerra de aniquilação contra os sindicatos britânicos, inclusive fazendo uso do aparato policial de repressão.

A personagem é a personificação do elogio à velha postura fascista de que a questão social é caso de polícia. Uma das características da novela Duas Caras é o uso de truísmos baratos para tentar desqualificar as posturas da esquerda e legitimar as da direita. A personagem de Suzana Vieira é a campeã absoluta do uso deste estratagema. Quando decide chamar a polícia para reprimir a ocupação da universidade, ela pondera: "Se ser a favor da lei e da ordem é ser de direita, então eu sou de direita".

A granfina que debocha do povo

A esta personagem — uma socialite irônica e de fala refinada chamada Gioconda, encarnada por Marília Pêra — Aguinaldo Silva reservou a tarefa do deboche e da ridicularização das lutas e reivindicações do povo trabalhador. Quando, a propósito da ocupação da instituição de ensino de propriedade da cunhada, uma amiga diz a Gioconda que os estudantes "também chamaram para invadir a universidade o "Movimento dos Sem Casa", ela emenda, pretensamente cheia de razão: "Sem casa, sem educação, sem cultura, sem vergonha na cara!".

Em outro capítulo de Duas Caras, a personagem de Marília Pêra adverte seu marido, Barreto, um renomado advogado dos burgueses interpretado pelo ator Stênio Garcia, sobre o suposto risco de sair às ruas vestido com roupas caras: "Você é rico! E essa é a pior coisa que pode acontecer neste país do 'pobrismo'. Você está correndo perigo, Barreto! Pode ser linchado em praça pública por ostentar o seu dinheiro!".

Foi uma claríssima alusão ao assalto sofrido em São Paulo pelo apresentador da Rede Globo Luciano Huck, e à repercussão do roubo do seu relógio Rolex. Foi também um apoio a Luciano Huck, que recebeu fortes críticas por, após o assalto, ter publicado em jornais do país um artigo de cunho reacionário apelidado de Chamem o capitão Nascimento, frase de destaque no texto, referindo-se ao torturador que é o personagem principal do filme Tropa de Elite.

O intelectual-gerente

A personagem do ator José Wilker assume a reitoria da Universidade Pessoa de Moraes no meio da novela. Ele vivia em Paris, na França, onde foi ficando depois de ser exilado pela ditadura militar brasileira, sendo "repatriado" pela dona da universidade para dar um "choque de gestão" na instituição. Francisco Macieira é mais um dos heróis de Duas Caras, cabendo à personagem a representação do intelectual predileto das classes dominantes, pela ironia que significa a sua trajetória: aquele que um dia já defendeu idéias revolucionárias, mas que acabou aderindo ao receituário liberal, passando a ser um ferrenho defensor da postura dos patrões.

Macieira se relaciona com os estudantes na base da enganação, fingindo fazer-lhes concessões, ao mesmo tempo em que se empenha para impregnar cada centímetro da universidade com a lógica do mercado, incitando os professores à concorrência entre si e revogando seu direito de tirar férias.

O estudante imbecil

É o papel do jovem ator Diogo Almeida. No enredo de Duas Caras, Rudolf é presidente da agremiação estudantil da Universidade Pessoa de Moraes. A caracterização da personagem é uma afronta ao movimento estudantil brasileiro. Na novela, Rudolf só aparece dizendo coisas sem sentido, gritando palavras de ordem simplórias e escondendo-se pelos cantos para chamar a reitora de fascista, gritando quando ela passa pelos corredores da universidade. Nos embates com a dona da instituição e com o reitor, Rudolf sempre sai desmoralizado, ora apresentado como um baderneiro, ora como um ingênuo ou irresponsável.

Através de Rudolf, Aguinaldo Silva e a Rede Globo tentam desqualificar o papel da juventude no processo de emancipação dos trabalhadores e, junto, toda uma história de engajamento dos estudantes brasileiros em defesa das causas do povo.

Ironicamente, a música composta por Gonzaguinha e repetida todos os dias na abertura da novela, tinha como propósito original a exaltação da juventude que não baixa a cabeça, que luta, que se organiza.

O deputado sem ideologia

Trata-se da personagem Narciso Telerman, o político interpretado por Marcos Winter. É deputado, mas não tem partido, não tem projeto, e muito menos segue algum programa político. Parece não ter ideologia, mas — como todos que assim parecem, ou fazem questão de parecer assim — segue a ideologia das classes exploradoras. É mais um da turma do "bem", sempre pronto para estender a mão ao povo da favela da Portelinha, a mexer os pauzinhos para conseguir alguma coisa, a usar sua autoridade para tirar alguém do xadrez. Mas não está comprometido com qualquer tipo de mobilização coletiva.

Narciso Telerman é o modelo de político profissional que a Globo aprecia e a encarnação do político funcional ao projeto conservador. Ou seja: não é corrupto e não se envolve com a luta política em torno das questões de classe. Ao contrário. A personagem de Marcos Winter é como o próprio ator na vida real: envolvido com projetos realizados por Ongs mancomunadas com o patronato.

Teoria da inspiração

Mas não se trata de conspiração; é puro talento! Aguinaldo Silva provavelmente não pede a orientação dos donos da Rede Globo para seguir com este excepcional rigor a cartilha da direita, nem sequer a direção da emissora precisa se preocupar em meter o bedelho nas cenas do próximo capítulo. Não. O autor da novela não suportaria o orgulho ferido. Ele é alguém que goza da total confiança das elites, perfeitamente afinado com a lógica da dominação, devoto a ela, escolado em suas artimanhas, principalmente quando se trata de contribuir com seu próprio lixo para alimentar a teledramaturgia picareta que é veiculada no Brasil.

A experiência em servidão do autor de Duas Caras vem de longe, antes mesmo do início da carreira de novelista. Aguinaldo Silva foi repórter em O Globo, onde trabalhou durante a ditadura militar a serviço dos milicos e contra as aspirações do povo. Uma de suas valiosas contribuições foi a sistemática difamação da luta armada no Brasil quando era repórter de polícia do jornal.

O jornalista francês Alain Accardo escreveu certa vez sobre a "submissão chique" dos profissionais do oligopólio dos meios de comunicação, onde, em geral, basta trabalhar "como se sente", para trabalhar "como se deve". Isto é, diz Accardo, trabalhar em defesa das normas e valores do modelo dominante. Ele se referia especificamente aos jornalistas, mas sua análise é algo que pode ser estendida, pelo menos, aos novelistas:

— Se há um ponto sobre o qual se deve insistir é que a eficácia de tal sistema repousa fundamentalmente sobre a sinceridade e espontaneidade dos que nela investem a si próprios, mesmo que este investimento implique numa certa dose de automistificação. A informação jornalística, tal como é praticada, é passível de muitas críticas e recriminações bem fundamentadas, inclusive a de enclausurar os espíritos na problemática dominante e mesmo no pensamento único. Há algo, porém, que não se pode censurar nos jornalistas, salvo, é claro, casos particulares: a boa fé com que realizam seu trabalho. Tendo internalizado perfeitamente a lógica do sistema, aderem livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração.

Ora, a fabulosa inspiração de Aguinaldo Silva para abandonar os temas politicamente corretos e editorializar a história da chamada "novela das oito" não vem de outra musa que não seja a conjuntura atual: a cruzada da Rede Globo para recuperar a grande parcela da audiência perdida em 2007 e a necessidade das elites de responder às contestações vindas do povo.

Mas, acima de tudo, o que inspira as elites e seus cães de guarda —sejam jornalistas, sejam novelistas — é a necessidade desesperada de contra-atacar, alarmados que estão com as resistências à exploração e com a mobilização organizada contra os exploradores.

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