Curdos lutam contra o imperialismo e seus sócios menores

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A fração nacional-compradora da burguesia turca, representada especialmente pelos ultranacionalistas do Partido da Ação Nacionalista (MHP), planeja atacar a retaguarda da guerrilha de resistência, organizada pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão — PKK (Partiya Karkerên Kurdistan), na região da fronteira entre o Iraque e a Turquia. O Parlamento turco aprovou, em 16 de outubro de 2007, moção que prevê uma incursão militar no norte do Iraque para capturar rebeldes curdos. Por defender abertamente a luta armada pela libertação de seu território e pela instalação de seu Estado nacional, o Departamento de Estado dos EUA consideram o PKK uma organização "terrorista".

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O PKK confronta-se, na maioria das vezes, com o exército turco, porque a Turquia é o país onde os trabalhadores curdos são mais humilhados. A língua curda é terminantemente proibida no país. Os líderes populares são perseguidos, presos, torturados e assassinados, conforme denúncias da Human Right.

Os Estados Unidos e seus agentes locais temem que qualquer incursão no norte possa desestabilizar a região, que é apenas relativamente calma. O primeiro-ministro "iraquiano", o xiita Nuri Al Maliki, ligou para o primeiro-ministro turco e afirmou que estava "absolutamente determinado" a remover o PKK do Iraque e pediu mais tempo para fazer isso, segundo a agência de notícias turca Anatolia. Tal apelo foi repetido pelo presidente iraquiano, de origem curda, Jalal Talabani, membro de um dos dois clãs mais poderosos da região norte do Iraque. Os Talabanis e os Barzanis são os dois clãs rivais que controlam o Curdistão iraquiano, ambos aliados dos EUA e da Turquia.

Os rebeldes afirmaram que vão responder à altura a uma operação militar turca. "Milhares de guerrilheiros do PKK estão de prontidão para lutar com o Exército turco", disse o chefe do conselho executivo do PKK, Murat Karayilan, ao jornal curdo Hawlati. Os guerrilheiros atuam numa zona árida e montanhosa situada no extremo Norte do País, ao longo da fronteira com a Turquia e o Irã. Não existem postos de controle dos soldados do governo curdo-iraquiano nessa área. No interior desta zona-tampão, com um comprimento de 350 quilômetros, junto à fronteira com a Turquia, os uniformes passam a ser os das Forças Armadas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

O primeiro-ministro turco tem sabido, como nenhum dos seus antecessores, dar passos para impedir uma solução democrático-popular para a questão curda. Aumentou em muito o investimento na zona curda, mudou o discurso belicoso e xenófobo das autoridades turcas em relação aos curdos e conseguiu, nas últimas eleições, conquistar a maioria dos votos das províncias curdas para o seu partido islâmico moderado, o AKP, Partido Justiça e Desenvolvimento. Se é verdade que a aliança entre os curdos e a esquerda turca deu significativa vitória ao DTP — Partido da Sociedade Democrática, com fortes relações com o PKK, Erdogan e o seu partido islâmico têm as condições ideais para seduzir os curdos — a quem os turcos chamam eufemisticamente de "turcos da montanha". Sendo a identidade islâmica mais importante para o AKP do que a identidade nacional ou étnica, a religião acaba por criar as pontes necessárias para uma unidade nacional e para o combate ao PKK. No mundo islâmico, essa seria uma estratégia viável. No entanto, a pressão interna sobre Erdogan tem aumentado. Como os nacionalistas laicos turcos não conseguiram impedir a eleição do presidente Abdullah Gül, resta a eles e a seus aliados militares realizar um ataque mais feroz aos curdos.

Burguesia turca X aristocracia curda

O ataque ao PKK no Curdistão iraquiano, de fato, é o pretexto, não a razão da ofensiva. É a autonomia dos curdos, já muito próximos da independência, que irrita as classes dominantes turcas, principalmente aquela parte acostumada ao uso da força. Sendo a única zona pacificada e bastante próspera do Iraque, a Turquia teme o peso econômico e político de um Curdistão semi-independente. Massud Barzani, presidente da região Curda do Norte do Iraque, assinou, recentemente, quatro contratos petrolíferos ainda antes da aprovação da nova Lei do Petróleo, num claro desafio às autoridades iraquianas. Jalal Talabani, antes de ser curdo e alto dirigente do Iraque, é parte de um poderoso clã que almeja mais poder e mais riqueza para si. Como também os Talabanis pensam do mesmo modo, o Curdistão, atualmente comandado por ambos os clãs, joga todas as cartas numa autonomia próxima do separatismo. E as classes dominantes turcas, sócios menores do imperialismo ianque e europeu ocidental, poderão vir a ser os perdedores.

Ao mesmo tempo, esses grupos de poder curdos do Iraque expulsam árabes e turcomenos da cidade de Kirkuk, pagando indenizações com o objetivo de vir a vencer o referendo local próximo, com vistas à integração desta capital petrolífera do Iraque na região curda. Essa zona passaria a ser uma potência petrolífera, o que explica a aliança dos dois clãs curdos dominantes com os turcos no combate ao PKK. Mas a Turquia não poderá aceitar que Kirkuk se integre na região curda, pois estariam facilitando sua própria derrocada, na medida em que o Curdistão, unificado ou não, poderia passar a sua frente. Portanto, as disputas são inevitáveis. A maioria étnica curda que cerca a cidade de Kirkuk, teria em seu subsolo reservas de petróleo estimadas entre 12 bilhões e 45 bilhões de barris de petróleo, além de cerca de 2,8 bilhões de metros cúbicos de gás natural. Mas o setor petroleiro atua com prudência, para não melindrar as autoridades de Bagdá.

Ao mesmo tempo, a Turquia é o maior investidor na promissora província curdo-iraquiana, com centenas de empresas instaladas. E é quem mais exporta para o Curdistão iraquiano. Entre o independentismo e a racionalidade dos negócios, a Turquia pretende encontrar uma solução intermédia com ações militares cirúrgicas um pouco mais intensas do que aquelas que já hoje leva a cabo.

Um quebra-cabeças para os grupos petroleiros ianques

Os Estados Unidos têm diante de si um quebra-cabeças. Trata-se de um confronto entre dois aliados fundamentais. A Turquia é a porta de entrada para a região e um dos mais importantes aliados ianques na Europa e no Médio Oriente. Os curdos são os únicos aliados no território iraquiano a combater ao lado dos ianques, não apenas no Curdistão, mas em Bagdá. A fronteira entre a Turquia e o Iraque é a mais importante rota de abastecimento militar norte-americano. Por ali entram 70% da carga militar, 70% do combustível e 90% dos veículos para o exército. Se aquela fronteira for bloqueada por um conflito, os americanos se complicariam.

Mesmo que nenhum destes problemas existisse, ao dizer que sim à Turquia não haveria como dizer que não ao Irã. O PJAK — Partido para a Paz e a Vida no Curdistão, organização congênere ao PKK no Irã, atua também a partir do território iraquiano contra o território iraniano. Mas não é considerada terrorista, porque ataca um inimigo do imperialismo ianque e europeu, ao contrário do PKK. As suas bases estão, inclusive, muito próximas. Para embaraçar os EUA, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano já disse que queria participar no ataque turco.

Bush sabia que, para se apropriar do petróleo do Iraque, correria o risco de reacender conflitos latentes. A questão curda envolve dois adversários do USA — Irã e Síria —, dois aliados — Turquia e Curdistão Iraquiano — e todo o frágil equilíbrio de poderes no Iraque e Oriente Médio. Entretanto, ainda que a Síria esteja do lado oposto, contra USA e Israel, seu presidente, Bashar Assad, durante visita à Turquia, em relação aos curdos, afirmou que apóia o direito do país de tomar medidas "contra o terrorismo e atividades terroristas". O empecilho está no fato de a Síria ser considerada um Estado terrorista pelo USA e estar em estado de guerra contra Israel há décadas.

Empresas de petróleo e gás tomam a dianteira

Mesmo o Curdistão iraquiano não sendo um país independente e tendo estruturas físicas e tributárias ainda rudimentares, empresas de prospecção e extração de petróleo, muito conscientes da importância da região, ainda pouco explorada, consideram-na como uma área produtora de petróleo de primeiro nível. Em 2006, a descoberta de um novo campo de petróleo em Tawke, pela companhia norueguesa DNO, seguida por novos achados em Taq Taq, uma região vizinha, desta vez a cargo de um consórcio entre empresas petroleiras canadenses e turcas liderado pela Addax Petroleum e pela Genel Enerji, indicaram excelentes perspectivas.

Antecipando-se ao promissor futuro, o governo regional do Curdistão assinou quatro novos contratos de prospecção com uma segunda sociedade canadense, a Western-Zagros, dois consórcios entre grupos petroleiros turcos e norte-americanos, PetPrime e A&T Energy, e um consórcio dos Estados Unidos formado pela Hunt Oil e pela Impulse Energy. De acordo com fontes do governo do Curdistão, dominado pelos clãs dos Talabanis e dos Barzanis, mais quatro contratos podem, em breve, se somar ao pacote inicial de prospecção. De qualquer maneira, a produção de petróleo cru gerada por esses acordos continua baixa, até o momento. A norueguesa DNO espera extrair uma média de oito mil barris diários de petróleo do campo que descobriu — um volume muito distante do potencial que as autoridades curdas estimam para os novos campos localizados até o momento, cuja capacidade foi avaliada em 200 mil barris diários.

No que se refere ao gás natural, em meados de abril a Dana Gas, uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos, anunciou a formação de uma aliança estratégica com o governo regional do Curdistão, para desenvolver projetos de prospecção de gás natural no território, enquanto uma agência de notícias de Ancara veiculava a notícia de que o grupo petroleiro anglo-holandês Royal Dutch Shell, também, teria assinado um contrato de prospecção no Curdistão, em uma sociedade com a estatal de gás natural da Turquia, a TPAO, com o objetivo de desenvolver áreas sobre as quais as duas empresas detinham concessões. Representantes da gigante petroleira transnacional anunciaram que tinham firmado uma declaração de princípios e que as negociações prosseguem.

Antes que o governo fantoche de Bagdá aprovasse nova legislação para o setor de petróleo, em março de 2007, as autoridades do Curdistão iraquiano fizeram aprovar um dispositivo jurídico que estabelece a criação de uma nova estatal petroleira, com quatro empresas regionais, declarando que "compartilharão os benefícios gerados pelo petróleo com todo o povo do Iraque". Depois que a lei foi aprovada, o governo regional revelou seus projetos de oferecer a empresas petroleiras internacionais cerca de 40 novos blocos para prospecção de petróleo e gás natural no território do Curdistão.

Separatismo ou independência

A situação mudou, pelo menos, em parte do território curdo. "Ninguém aqui pretende ser novamente governado pelo outro", disse Kosrat Ali, vice-presidente do Curdistão. "Se você usasse todas as forças ianques para ocupar todas as cidades e povoados iraquianos, talvez conseguisse centralizar o Iraque novamente. Essa seria a única maneira. Do contrário, já não há espaço para um governo centralizado no Iraque".

Quando se faz a análise do quadro político curdo tem-se a impressão de que "o povo errou" em suas alianças, ao preferir o USA, o principal inimigo da humanidade, como aliado. Mas essa é uma interpretação falsa, porque quem fez os acordos com o imperialismo ianque foram os clãs dos Barzanis e dos Talabanis e não os trabalhadores, em parte representados pelo PKK e outos partidos e organizações comunistas, como o TKP-ML, que asseguram em seus programas o direito a auto-determinação do povo curdo e participa ativamente de sua resistência armada, e também pelo PJAK , seu equivalente no Irã.

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