Brasileiros não confiam no monopólio da imprensa

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Pesquisa divulgada no final do ano passado informa: Nada menos que 80% dos brasileiros declararam-se preocupados com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de um pequeno número de empresas privadas. Segundo a consulta, divulgada pela BBC, os entrevistados acreditam que este controle "pode levar à exposição das visões políticas dos donos no noticiário". Para estudiosos, o dado afeta a credibilidade das corporações de comunicação.

http://anovademocracia.com.br/40/15.jpgO ano de 2007 foi considerado muito ruim pelos grupos que atuam no campo da democratização dos meios de comunicação. No dia 2 de dezembro, a TV Digital entrou em funcionamento do jeito que os donos dos conglomerados que monopolizam o setor queriam. A multiprogramação e a interatividade real (fazer da televisão uma espécie de computador) foram simplesmente descartadas pelo governo Lula, que entregou o ministério das Comunicações a Hélio Costa (PMDB-MG), ex-funcionário da TV Globo e dono de uma emissora de rádio na cidade mineira de Barbacena.

Entretanto, nem tudo está perdido. No apagar das luzes de 2007, a rede inglesa BBC divulgou uma pesquisa de opinião [ver box] como parte das comemorações de seu 75° aniversário. Realizada em 14 países pelas empresas GlobeScan e Synovate e abrangendo um total de 11.344 pessoas, a consulta chegou à conclusão de que os brasileiros são os mais preocupados com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de "um pequeno número de grandes empresas do setor privado". Nada menos que 80% dos entrevistados no país acreditam que esse controle "pode levar à exposição das visões políticas dos donos no noticiário". Em segundo lugar vem o México (76%), seguido por Estados Unidos (74%) e Grã-Bretanha (71%).
Outro dado importante. Apenas 37% dos entrevistados consideram "boa" a cobertura dos meios de comunicação privados. Os 63% restantes a classificam como "pobre" ou "mediana".

Credibilidade afetada

A desconfiança do público em relação às notícias veiculadas pelo monopólio dos meios de comunicação incide diretamente sobre sua credibilidade. Em lugar da auto-apregoada imparcialidade, fica cada vez mais evidente que a imprensa privada busca satisfazer os interesses dos patrões imperialistas — e os seus próprios — antes do interesse público. Para o jornalista e coordenador do curso de Comunicação da PUC-SP, Hamilton Octávio de Souza, essa perda de confiança do público nos meios de comunicação é um processo que vem se aprofundando há bastante tempo:

— A credibilidade da imprensa brasileira tem sido — há muitos anos — muito baixa, às vezes inspira menos confiança do que o Congresso Nacional, os partidos políticos e os políticos. Na verdade, a imprensa brasileira deixou de expressar as demandas da sociedade e do povo há muito tempo, expressa principalmente os interesses das corporações e das correntes ligadas ao neoliberalismo. Por isso mesmo é que a imprensa brasileira tem sido colocada no mesmo balaio das demais instituições desmoralizadas. Só raramente, em momentos específicos, a imprensa ganha alguma simpatia mais forte quando denuncia os desmandos dos poderosos, quando expressa o sentimento do povão. Fora desses momentos, a imprensa brasileira é vista com desconfiança, apenas como mais um braço do sistema político-econômico dominante.

O professor Dênis de Moraes — do programa de mestrado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense — concorda com esta avaliação, mas ressalta que essa percepção pode estar mais presente nas classes sociais com maior acesso à educação e à cultura:

— Sintomas da crise de confiabilidade das empresas de mídia vêm sendo identificados em várias sondagens de opinião. A meu ver, isso decorre da percepção — que espero se aprofunde — de que essas organizações costumam colocar suas conveniências políticas e seus interesses políticos acima dos critérios éticos na definição e no tratamento das informações divulgadas ao conjunto da sociedade. Claro que são sintomas provenientes das camadas sociais com maior capital educacional e cultural, capazes de discernir melhor o jogo de pressões e contrapressões que, muitas vezes, se oculta nos espaços visíveis de jornais e telejornais. Porém, se pensarmos que nessas camadas atuam os formadores de opinião, podemos imaginar uma irradiação relativamente maior de tais juízos críticos sobre a falta de imparcialidade do noticiário. Não creio, todavia, que as organizações de imprensa se deixem abater com facilidade diante de pesquisas desfavoráveis. Elas demonstram confiar em sua capacidade de persuadir o grosso da sociedade de que refletem a vontade geral, a partir da pressuposição, evidentemente falsa e mistificadora, de que captam e reprocessam aspirações da coletividade.

A concentração no mundo

O Brasil não é o único país a possuir um sistema de comunicação ideologicamente concentrado e a serviço da exploração dos povos. Nos Estados Unidos, os cinco maiores conglomerados controlam a quase totalidade de emissoras de TV, estações de rádio, grupos de entretenimento, revistas, jornais e até empresas de componentes militares.

A Viacom possui 39 emissoras de tevê e 185 estações de rádio. As tevês a cabo incluem a MTV, a Nickelodeon e a BET. Outros negócios: CBS, UPN, Paramount Pictures, Simon & Schuster e 80.4% da cadeia Blockbuster. A News Corporation é dona de 80.6% do Fox Entertainment Group, que inclui a 20th Century Fox, rede Fox, e FoxCable (canais de esportes, filmes e o National Geographic Channel). A rede Fox tem 60 emissoras de tevê e 188 afiliadas. Rupert Murdoch, dono da News Corporation, é o maior publisher do mundo em mídia escrita em inglês. Em Nova York, controla o tablóide New York Post. É dono da editora Harper Collins. Politicamente, foi o grupo mais ligado à ascensão da turma de George W. Bush, dando espaço a críticos ferozes que calaram ou pelo menos tentaram calar vozes independentes. O terceiro grande conglomerado é a AOL Time Warner, dona da America Online, CNN, Time Warner Cable, Warner Bros, Turner Networks e HBO. A Warner Music é dona das gravadoras Elektra e Atlantic. As publicações são reunidas no grupo Time Inc, das revistas Time, People, Sports Illustrated, Fortune e Money. A General Electric controla a rede NBC, que fornece programação a 220 estações afiliadas, opera 28 emissoras próprias, quatro redes de tevê a cabo e por satélite e tem investimentos em produção de conteúdo para a internet, tevê a cabo e multimídia. Também é dona da Telemundo, a segunda maior rede hispânica de tevê dos Estados Unidos. Ganha dinheiro fabricando componentes militares para o Pentágono. Por fim, há o grupo Walt Disney, dono da rede ABC, que tem 226 emissoras afiliadas nos Estados Unidos. A rede ABC de rádio fornece programação para mais de 4.600 afiliadas. A rádio Disney é transmitida por 51 estações, 32 delas de propriedade da companhia. A rede ABC de rádio produz programação esportiva para mais de 700 emissoras — é a maior dos Estados Unidos no ramo. A Disney também tem 10 emissoras de tevê, 44 emissoras de rádio AM e 18 de FM.

Como contraponto existem as inúmeras iniciativas da imprensa popular e democrática, rádios comunitárias, jornais populares e sítios livres espalhados pela internet. De modo que cabe aos movimentos sociais organizados aproveitarem os sinais da pesquisa divulgada pela BBC para combater os conglomerados e apoiar os meios de comunicação comprometidos com o interesse público e com as classes populares.

Brasil lidera pesquisa de preocupação

Os brasileiros se mostram os maiores preocupados com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de um "pequeno número de grandes empresas do setor privado", revelou uma pesquisa de opinião sobre liberdade de imprensa feita em 14 países.

A sondagem — encomendada pelo Serviço Mundial da BBC e feita pelas empresas de pesquisa GlobeScan e Synovate — avaliou a opinião de 11.344 pessoas por meio de um questionário. Segundo o levantamento, 80% dos brasileiros se mostram preocupados com a propriedade das companhias de mídia e acreditam que esse controle pode levar à "exposição das visões políticas" de seus donos no noticiário.

Entrevistados de outros países também compartilham da mesma opinião, como no México (76%), nos Estados Unidos (74%) e na Grã-Bretanha (71%).

A sondagem mostrou, no entanto, que ao mesmo tempo em que são os mais preocupados com o controle e a concentração privada na mídia, os brasileiros também fazem a pior avaliação sobre o desempenho dos meios de comunicação financiados pelo governo.

Nessa parte do questionário foi considerada a opinião das pessoas em relação à "honestidade" e à "precisão" com que os órgãos de comunicação, públicos e privados, tratam a notícia.

De acordo com o estudo, 43% dos entrevistados acreditam que a cobertura do noticiário pelos órgãos públicos brasileiros é "pobre"; 32%, mediana; e 25% dizem que ela é "boa".

Em contrapartida, os brasileiros tiveram uma opinião mais positiva quando foram indagados sobre o desempenho das empresas privadas: 37% acreditam que elas fazem um "bom" trabalho, 38% afirmam que ela é mediana e 25% dizem que sua atuação é "pobre".

Voz

Os brasileiros também se mostraram os mais interessados em participar do processo de decisão sobre o que é noticiado: 74% dos entrevistados disseram que gostariam de "ser ouvidos" na escolha das notícias. Nessa pergunta, em seguida vieram os mexicanos, com 63%. Os russos, com 29%, foram os entrevistados que se mostraram menos interessados em influenciar na escolha do que é noticiado.

A pesquisa ainda avaliou que os brasileiros parecem "divididos" sobre a questão da liberdade de imprensa e estabilidade social.

Enquanto 52% opinaram que a liberdade para informar os fatos de forma honesta e verdadeira é importante para garantir uma "sociedade justa" — mesmo que isto implique em "debates desagradáveis ou efervescências sociais" —, outros 48% acreditam que "a harmonia e a paz social são mais importantes" e, portanto, o eventual controle do que é noticiado seria aceitável para o "bem comum".

Curiosamente, avalia o relatório, a Venezuela foi um dos países cuja população mais priorizou a liberdade de imprensa em detrimento da estabilidade social (64%).

Entre todos os pesquisados, os americanos (70%), britânicos (67%) e alemães (67%) foram os que mais opinaram a favor da liberdade de imprensa como instrumento para garantir uma sociedade justa.

A pesquisa ouviu os entrevistados entre os dias 1º de outubro e 21 de novembro. A Oceania foi o único continente não incluído no levantamento. Na América Latina, o estudo foi realizado no Brasil, México e Venezuela.

O reacionário monopólio de comunicação
da Redação
Não há nada que ele não pontue. Cumpre com denodada acuidade seu papel na luta de classes, marcação cerrada. Seja um acontecimento numa pequena cidade do interior, um fato acontecido em outro país ou continente, um ato da burocracia, uma manifestação reivindicativa, tudo vira alvo de sua esgrima reacionária. Seus editoriais ou os artigos assinados por seus escribas pretendem sempre ser a última palavra ou verdadeiros éditos imperiais. Seus epítetos são definidores do bem e do mal aos quais vão alocando pessoas e instituições conforme seu rigoroso filtro ideológico.

São sete famílias que "produzem" a informação no Brasil e algumas dezenas de deputados federais e senadores que as reproduzem nos estados e centenas de chefetes políticos que o fazem nos municípios. Todos ligados intimamente às quatro grandes redes internacionais de comunicação que exercem o monopólio a nível mundial, buscando a todo custo estabelecer o pensamento único no planeta.

A manipulação da informação, dando-lhe o caráter de sua classe é a marca do monopólio de comunicação: os camponeses pobres são taxados de bandidos; os latifundiários são empreendedores do agro-negócio; os patriotas da resistência iraquiana são terroristas; Bush é paladino da luta pela paz; as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são narcotraficantes; O Papa é santo; o comunismo morreu e o capitalismo é o fim da história.

Por todos os meios de propaganda o imperialismo ataca para fomentar o conformismo e a idéia de que não é possível mudar nada. O monopólio dos meios de comunicação se esmera para encobrir a grande crise que enfrenta a economia imperialista e conjura o perigo de um grande levantamento das massas que o derrubaria e a seus patrões.

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