Brutalidade policial enlouquece população das favelas

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Nunca a policia matou tanta gente nas favelas do Rio como em 2007. Os banhos de sangue não têm hora para começar nem acabar. De um momento para o outro, a pretexto de combater o tráfico varejista, eles chegam de caveirão, revólver, metralhadora, granada, chutando portas e pessoas, agredindo velhos, mulheres e crianças — que já nem sabem quando haverá aula na escola — e é tiro para todo lado. Esta realidade está levando à loucura centenas de milhares de famílias da periferia.

Além dos mortos e feridos pelas balas certeiras ou perdidas, o terror desencadeado pelos agentes da repressão estatal, fardados ou à paisana, tornou-se o maior problema daquela gente que passa a noite de ouvidos atentos para a chegada dos camburões e os olhos arregalados de medo dos projéteis de calibre 5,56 e 7,62 mm, capazes de varar com facilidade os tijolos usados na construção dos barracos e que vão atingir o bebê adormecido ou o avô que tenta descansar depois de um dia de procura vã por um biscate para comprar mais um quilo de feijão, arroz, ou açúcar.

Casos e consequências

Mas as consequências dessas investidas e do constante cerco policial às favelas não se resume aos mortos e feridos pelos projéteis disparados por policiais ou traficantes. A chamada “Política do enfrentamento” praticada pelas polícias no estado do Rio de Janeiro tem disseminado o terror entre a população e essa situação, não raro, evolui para quadros de doenças psicológicas, como depressão, síndrome do pânico, etc.

Para comprovar, basta ver, nos postos de saúde, a quantidade de pessoas em busca de um médico que possa tratar das suas “doenças dos nervos”. São histórias e mais histórias de gente desesperada com o assassinato de um ente querido, com a invasão de seu barraco no meio da noite e o eterno pavor de uma arma de fogo engatilhada e que dispara até mesmo contra um gato na laje de concreto sobre a qual sempre se sonha em construir mais um cômodo para a filha que vai casar, ou mesmo para alugar.

Vigilante de um condomínio na Tijuca, Walter mudou-se recentemente com a família da Vila Cruzeiro, uma das 19 favelas do Complexo do Alemão, frequentemente tomada de assalto pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Conta que não apenas em sua casa, mas na redondeza inteira, todos estavam a ponto de enlouquecer. Desde maio do ano passado, 25 entradas do conjunto foram ocupadas pela Força Nacional de Segurança e as estatísticas divulgadas em dezembro registraram 58 mortes e mais de 100 pessoas feridas.

Dimensões do massacre

Na realidade, o Estado corrupto e falido necessita conter os imensos contingentes lançados à miséria todos os dias e que vão constituir o excedente do chamado “mercado de trabalho”. Mais que uma vontade, a criminalização e o extermínio da pobreza é uma necessidade para as classes dominantes, com o aval de Luiz Inácio e Sérgio Cabral Filho
— A brutalidade não tem limites — observa Walter — O nervosismo deixa todo mundo desesperado. Começa o tiroteio e o coração dispara, a pressão sobe, as crianças choram, as mulheres gritam, e isto é dia e noite. Eu e minha mulher saíamos para o trabalho às 5 da manhã, deixando as crianças em casa. Creche, escola infantil, nem pensar! Ou não tem creche ou está fechada ou a escola não tem aula porque o professor falta por medo da bala perdida ou da violência policial. Com isso, quem ganha importância é o bandido. E como a tendência da criança é imitar o pai, tem filho de traficante dizendo que mocinho mesmo é o bandido que põe para correr essa polícia selvagem que só sabe maltratar gente inocente. Tive sorte de vender o barraco e sair de lá. Hoje em dia tem tanto barraco para alugar e vender que tudo ficou desvalorizado e ninguém se apresenta mais como pretendente.

Medo, stress e depressão

Este pavor coletivo, que tecnicamente é denominado fobia social, foi debatido no final do ano passado no 25° Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Porto Alegre. Um trabalho apresentado revelou que, em 2 mil pessoas que apresentam distúrbios mentais como ansiedade, depressão reativa —aquela que tem origem em perdas ou tragédias —, fobias e síndrome do pânico, 57% não conseguem nenhum tipo de tratamento na rede pública de saúde.

A Associação Brasileira de Psiquiatria, promotora do evento, estima em 9% da população — 17 milhões de pessoas — os brasileiros que necessitam de cuidados urgentes, mas somente 33% dos que recorrem aos serviços municipais, estaduais ou federais conseguem ser atendidos num prazo de 15 dias. O psiquiatra Josimar França, presidente da ABP, lembra que, para o tratamento de distúrbios mentais, rapidez é fundamental.

Vítimas mulheres e crianças

A grande maioria das vítimas é gente humilde e trabalhadora de perspectivas nulas de qualquer acesso aos mínimos direitos, a despeito de cumprir uma dura rotina de sobrevivência, que começa com a disputa por espaço no trem, ônibus ou metrô — que já saem lotados na madrugada —, deixando para trás a família sem escola, médico e, pior, um prato de comida. Pouquíssimos têm um emprego regular.

Psicóloga do posto de Saúde da Penha, Ana Paula de Mello G. Costa atende moradores da Vila Cruzeiro, Grotão e a Favela Marcílio Dias. Alertando que é impossível generalizar, ela recorda um caso de depressão reativa:

— Uma senhora perdeu o filho que estava no tráfico e teve de passar a cuidar dos netos. Entra na mais profunda depressão quando vê uma das crianças, pois logo lhe vem a lembrança do filho morto.

Ana Paula descreve também o dia em que o pânico tomou conta do posto às 10 da manhã, quando ocorreu um tiroteio:
— Sempre incentivei as crianças a comparecerem, mesmo sozinhas, ao tratamento, mas, diante da violência policial, fiquei sem nada para explicar. Além disso, as crianças não podem brincar, ficam presas nos barracos enfileirados em ruas estreitíssimas. Quando há brincadeiras, são imitações da violência dos adultos. É assim que se processa o seu desenvolvimento psicológico.

A psicóloga considera impossível dar conta da demanda verificada nos dias atuais:

— São 500 mil habitantes para uma psiquiatra, três psicólogos e um terapeuta. Em conseqüência, temos de estabelecer critérios até injustos para equacionar o problema. Os casos relacionados à violência recebem prioridade. Só podemos abrir 12 vagas por mês, o que é insignificante, e as crianças com maiores distúrbios recebem mais atenção: afinal, elas são muito mais vulneráveis.

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