Os dois caminhos da revolta tibetana

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Os recentes protestos no Tibete e em outros países contra o governo da China têm levantado várias questões sobre a revolução chinesa e como ela chegou àquele lado do Himalaia.

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Membros da Guarda Vermelha Tibetana junto com camponeses,
operários e estudantes durante a Revolução Cultural

As relações do Tibete com a China sempre foram próximas. Desde o século VII de nossa era, quando as dinastias que governavam os dois países se uniram através de um casamento até o século XIII, quando o Tibete passou a integrar o território chinês, sempre com suas classes dominantes autorizadas a continuar administrando a região conforme seus interesses feudais.

Até 1951, ano da libertação, o Tibete tinha 95% da população analfabeta. 90 % eram servos e 5 % escravos. Toda a terra cultivável estava distribuída entre o governo local (30,9%), aristocratas (29,6%) e monges superiores (39,5%). O budismo tibetano consistia na combinação de religião e política, privilégio completo da reduzida casta dominante, opressão da mulher, abuso sexual e psicológico.

Os senhores feudais aplicavam castigos extremamente cruéis aos servos, que incluíam a extração dos globos oculares, o corte de orelhas, língua, mãos, a mutilação de tendões, o lançamento de pessoas às correntes de rios caudalosos e praticavam uma brutal exploração econômica e uma férrea opressão política, além do controle mental dos servos e escravos. O direito à subsistência das amplas maiorias de servos e escravos não era protegido, muito menos os direitos políticos.

A libertação

Em 1º de outubro de 1949, a fundação da República Popular da China pelo Presidente Mao Tsetung pôs fim ao passado colonial e semifeudal da China e criou também as condições para a libertação do Tibete como parte do território chinês. O Acordo do Governo Popular Central e o Governo Local do Tibete sobre as medidas para a libertação pacífica do Tibete foi assinado em 23 de maio de 1951, o que preparou o Tibete para ser tratado como uma região autônoma da China.

O XIV e atual Dalai Lama, de nome Tenzin Gyatso, que sempre fora presa dos serviços secretos imperialistas, principalmente alemães, ingleses e ianques, foi ainda mantido como chefe do Comitê para a Região Autônoma do Tibete até que uma rebelião fomentada pela CIA em 1959 acabou derrotada pelo Exército Popular de Libertação e Tenzin deposto do comitê. Tenzin Gyatso acabou fugindo para a Índia junto com milhares de outros refugiados que compõem seu séquito.

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Manifestação das massas tibetanas durante a
Revolução Cultural em que queimam símbolos feudais

Da Índia, Gyatso continua até hoje fomentando rebeliões com o apoio da CIA, a maior organização terrorista do mundo. Prova disso é que o monge, aclamado como "defensor da paz", acabou recebendo uma medalha de ouro com sua efígie, presente do Congresso do USA, profundamente comprometido com "causa tibetana".

A Revolução Cultural chega ao Tibete

A Grande Revolução Cultural Proletária aportou no Tibete assim como na China, em meio à luta contra o revisionismo restauracionista. A revolução no Tibete enfrentava, além dos mesmos problemas da China, também um desejo de alguns membros do governo tibetano de eliminar os restos feudais, mas desenvolver a economia tibetana através de novas relações de exploração.

Durante a Revolução Cultural os maoístas atacaram os "quatro antigos": as antigas idéias, os antigos costumes, a antiga cultura e os antigos hábitos. Havia uma multidão de coisas antigas para desafiar. Agudas superstições religiosas detinham a luta popular. Eram uma arma central da velha ordem feudal em que os revisionistas também se apoiavam.

Antes da Revolução Cultural, a maioria dos servos nunca havia discutido assuntos que as autoridades religiosas haviam proibido. O dogma lamaísta proibia arar com ferramentas de ferro, curtir o couro, enlatar leite, tosquiar as ovelhas, praticar acupuntura ou cirurgia, usar antibióticos ou trabalhar o metal. As mulheres tinham incontáveis proibições. Muitos animais eram considerados sagrados e não podiam ser comidos.

Foram descobertas novas maneiras de ajudar o povo a se libertar das cadeias da superstição. Audazes servas organizaram equipes para caçar animais sagrados e "brigadas de ferro" (o arado de ferro) para demonstrar que a proibição podia ser desafiada. Em 1966, 100 mil camponeses deflagraram uma campanha para exterminar os "ratos da terra", os roedores que comiam os grãos. No passado, os monges protegiam os ratos dizendo que eram reencarnações dos piolhos do corpo de Buda.

A difusão da ideologia comunista — especialmente os escritos do Presidente Mao — desempenhou papel central nessa revolução das idéias. Altos funcionários revisionistas se opuseram à publicação do Livro Vermelho de Mao em tibetano. Mas em pouco tempo foram distribuídas dezenas de milhares de edições bilíngues, encadernadas com a capa vermelha tradicional do Tibete.

Pastores descreveram como as equipes de propaganda do EPL os ajudaram durante um desastroso inverno. No passado teriam aceitado seu "destino" e muitos pereceriam. Desta vez elaboraram planos para salvar as vidas das pessoas e dos animais. Um velho pastor disse: "Com o pensamento de Mao Tsetung, ousamos lutar inclusive contra Deus!"

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Imagem da Revolução Cultural no Tibete

Os milhares de monastérios inspiravam o maior temor reverencial. Nos tormentosos dias da Revolução Cultural as massas atacaram essas fortalezas feudais. Em um enorme movimento esvaziaram e demoliram muitos monastérios.

Os partidários do feudalismo tibetano amiúde dizem que foi uma "destruição cega" e "genocídio cultural", mas esse ponto de vista oculta a natureza de classe dos monastérios. Eram praças-fortes armadas que regeram as vidas dos camponeses durante séculos. Quando a linha revisionista dominava, o governo manteve os monastérios com subvenções e os reacionários conspiravam incessantemente nelas. Seu desmantelamento não foi nada cego; ao contrário, foram ações políticas muito conscientes para libertar o povo.

Grandes comícios se formaram nos portões e os ex-servos se atreveram a entrar nos santuários sagrados pela primeira vez. Os materiais de construção foram distribuídos para construir casas ou estradas. Houve muitas reuniões públicas onde se destruíram ídolos, textos; rodas de orações e outros símbolos como uma maneira poderosa de fazer em pedaços as superstições.

Outro dado importante era a linha revolucionária do Presidente Mao para as minorias nacionais. Quando aplicada, a cultura tibetana floresceu. Foram fabricadas as primeiras máquinas de escrever em tibetano, facilitando a comunicação e os arquivos. Um dialeto principal foi fomentado para que pessoas de diferentes regiões se comunicassem. Filmes foram dublados em tibetano; milhões de livros foram publicados, muitos sobre a teoria e a prática da libertação; foram publicados contos e obras teatrais tibetanos. Muitos festivais se transformaram para celebrar os novos triunfos populares: as comunas populares e as ricas novas colheitas.

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Tibete antigo: mulher escrava carrega fardo de mais de 100 quilos

Ao contrário do que se diz, a Revolução Cultural não foi exportada pela China para o Tibete, mas desenvolvida pelos próprios estudantes, operários, camponeses e soldados tibetanos, que se lançaram na mais feroz luta de classes contra reacionários feudais e os falsos comunistas que "hasteavam a bandeira de Mao para combater Mao".

As comunas populares foram criadas e em pouco tempo os camponeses tibetanos produziam o dobro do que era colhido antes. Os antigos senhores feudais foram obrigados a trabalhar nos campos. Empresas que atendiam os interesses do povo foram instaladas, escolas foram fundadas e o serviço de saúde foi ampliado com os médicos de pés descalços e a formação de mulheres médicas, o que era proibido pelo regime feudal lamaista.

Os bandos revisionistas revidaram à Revolução Cultural formando também seus grupos de guardas vermelhos e a luta entre os revolucionários e os revisionistas por vezes assumiu a forma de confrontos militares. Por meio de derrotas e vitórias da linha revolucionária, a Revolução Cultural promoveu a melhoria na vida do povo e impediu a restauração capitalista até 1976, quando após o falecimento do Presidente Mao os revisionistas sob a chefia de Teng Siaoping dão o golpe de Estado contra-revolucionário.

A restauração no Tibete

Apenas duas semanas após a morte do Presidente Mao um golpe contra-revolucionário foi desencadeado, tratando logo de aprisionar todos os potenciais seguidores da linha revolucionária. Entre eles figurava a esposa de Mao, Chiang Ching. No Tibete, a restauração capitalista se fez sentir com a volta dos velhos costumes feudais, o reaparecimento da divisão da sociedade em classes e a destruição dos símbolos do socialismo.

O budismo lamaísta — que nunca havia sido proibido sob Mao — voltou a ser estimulado e, junto, todos os mitos e tabus feudais. As autoridades revisionistas frequentemente defendiam o "direito" dos inimigos de classe do proletariado quando alguma questão envolvia os costumes. Muitos templos foram reconstruídos e restituiu-se uma casta de monges que vivem às custas dos camponeses tibetanos.

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Instrumento de punição em praça pública

Mas as mudanças mais drásticas foram aplicadas no campo. Sob a cínica desculpa de "dar aos camponeses mais controle sobre sua vida", foi promovido o desmantelamento das comunas populares, depois das equipes de produção, até que as terras e animais foram divididos entre as famílias camponesas. Em breve verificou-se que muitas famílias haviam perdido tudo e que as antigas famílias aristocráticas recuperavam seu patrimônio e poder feudal sobre os camponeses.

É certo que o que ocorre hoje no Tibete, com a completa restauração capitalista que liquidou a unidade harmônica dos povos da China, é uma brutal opressão de uma minoria nacional por uma ditadura fascista capitalista travestida de socialismo. Em parte as explosões nas ruas de Lhasa que começaram em março obedecem a um desejo legítimo de liberdade para o povo tibetano. A experiência revolucionária, no entanto, assegura aos tibetanos que o caminho para a libertação já começou a ser trilhado desde que a Revolução Chinesa chegou ao Tibete. A volta ao feudalismo lamaísta é que seria um grande atraso para as massas de operários e camponeses que, assim como os proletários chineses alentam a volta da revolução.

A Vida de uma Escrava Tibetana

De Quando os servos se ergueram no Tibete
por Anna Louise Strong
No final dos anos 50, numa altura em que as primeiras vagas de libertação varriam o Tibete, uma ex-escrava de 36 anos de idade, Lando, subiu à frente de uma audiência de antigos servos e escravos para testemunhar.

Quando Lando tinha apenas oito anos de idade, o seu pai foi chicoteado até ficar paralisado. O encarregado veio até a cama dele lhe ordenar que regressasse ao trabalho. Como ele nãoconseguiu se levantar, o encarregado chicoteou-o até a morte por "fingimento" — na sua própria cama!

O encarregado afastou-se do morto, agarrou Lando e levou-a com ele como escrava. Ela dormia no celeiro com as ovelhas que a encarregaram de cuidar. Foi repetidamente violada pelo amo e espancada até à inconsciência pela esposa ciumenta. Acabou por ficar grávida e foi vendida a outro amo para esconder a "vergonha". Durante 28 anos, Lando viveu nesse tormento.

Nunca lhe autorizaram qualquer contato com a sua família. Rezou muitas vezes pela sua morte, mas tinha medo de cometer suicídio porque temia que isso fizesse com que renascesse numa reencarnação ainda pior. Quando chegou a libertação, equipes de revolucionários iam ter com os escravos e os servos para os organizar para dar fim à sua opressão. Mas Lando nunca tinha ouvido a palavra "opressão" e a princípio não entendeu o que queria dizer. Ela sempre tinha pensado que o seu sofrimento era por sua própria culpa — devido ao seu inevitável karma.

Ao ouvir a história de Lando, a reunião de servos libertados lamentou e gritou "Abaixo a servidão!" Nessa altura, Lando já se tinha tornado uma ativista revolucionária e uma líder regional.

O Dalai e seu mentor nazista

O filme Sete anos no Tibete, estrelado por Brad Pitt e aclamado como um libelo pró-independência do território himalaio esconde na verdade uma das passagens mais obscuras da vida de Tenzin Gyatso. O livro de mesmo nome foi publicado em 1953 pelo austríaco Heinrich Harrer e retrata o período passado pelo autor ao lado do 14º Dalai Lama, quando este contava apenas 11 anos. O livro foi traduzido para 43 idiomas.

Após o lançamento do filme em 1997, um jornal alemão revelou que Harrer fazia parte das SS nazistas — tropas de elite de Hitler — desde 1933 e que foi bem acolhido na corte de Tenzin graças às boas relações entre a aristocracia do Tibete e alguns hierarcas nazistas.

Tenzin visitou seu amigo Harrer quatro anos antes de sua morte, e quando seu mentor nazista finalmente faleceu, o monge tibetano reconheceu sua influência escrevendo: "Heirich Harrer foi meu amigo pessoal e aprendi muitas coisas com ele, particularmente sobre a Europa. Sentimos que perdemos um leal amigo do ocidente."

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