A arte de levar a cultura ao povo

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Ator, humorista, cantor, poeta, declamador e articulador cultural, Saulo Laranjeira é um mineiro preocupado em divulgar a cultura popular de sua região e de todo país, através do programa e da Caravana Arrumação, que define como "cultura brasileira sobre rodas", e ao mesmo tempo, fazer críticas sociais através de seus personagens, levando o povo a reflexões diante de um mundo capitalista e uma sociedade de consumo, influenciada por uma imprensa contrária aos valores culturais brasileiros.

ze pereiraO envolvimento de Saulo com a cultura popular do Vale do Jequitinhonha — onde nasceu — surgiu espontaneamente na infância e adolescência, por vivenciar, identificar-se e absorver as manifestações culturais e folclóricas da sua região.

No começo da década de setenta foi morar no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, sempre desenvolvendo um trabalho em favor da cultura brasileira em geral, principalmente na casa de cultura Fulô da Laranjeira, que inspirou o seu nome artístico.

— A Fulô era um sobradinho que tive perto da Avenida Paulista, onde eu divulgava a cultura do Vale, na área do artesanato, da música, e de todo o Brasil. Além de apresentar-me, mostrava outros artistas, "batia papo" com eles no palco, porque sempre gostei de promover esse encontro e proporcionar ao público conhecê-los. Era inclusive um reduto de músicos emergentes da época, final da década de 70, que desenvolvia um trabalho na cultura regional, como o Renato Teixeira, Diana Pequeno, Dércio Marques, Elomar, Vandré, Xangai e muitos outros — conta Saulo.

No Rio, Saulo trabalhou com crianças, surgindo nesse momento seu primeiro personagem: Véia Messina, uma velhinha de noventa anos, que servia para ilustrar historinhas que contava, levando-as ao máximo da imaginação sobre o ambiente do mundo regional.

— É uma camponesa, que vive nos boqueirões de serra, distante dos grandes centros, mas que fala coisas que mexem com as pessoas da capital, por causa de sua sabedoria, que se assemelha a uma filosofia intelectualizada, e seu linguajar extremamente simples, mas com um discurso poderoso de sabedoria natural, popular, fruto de observação — expõe.

Saulo conta que o personagem foi inspirado em uma velhinha que fez parte do seu convívio até os dezesseis anos de idade.

— Os trejeitos e a personalidade da minha velhinha tem muito a ver com ela, que foi uma das responsáveis por eu ter ficado tão absorvido pela beleza da cultura popular e ter seguido esse caminho como uma meta. Com o tempo me preocupei que o personagem não fosse somente uma cópia dessa velhinha, mas que pudesse representar o poder do idoso que conseguiu potencializar sua consciência e seu conhecimento da vida. Hoje, ela tem características de muitas outras que fui "esbarrando" na vida ou que vi em filmes, no teatro — diz.

ze pereira
Zé da Silva Pereira, inspirado
em um vaqueiro, filósofo popular

Saulo foi percebendo que o humor estava sempre presente em seu trabalho artístico e que deveria colocá-lo a favor de uma crítica social, com um compromisso de fazer o povo refletir sobre as questões culturais, sociais, ambientais. Assim foram surgindo personagens e amadurecendo com a prática, procurando absorver o máximo da psicologia e filosofia de cada um.

— A pessoa se vê na condição do ridículo, frágil diante de um mundo globalizado, onde o consumismo é muito presente, fazendo com que se perca a noção da importância da solidariedade, do amor, da amizade, de preservar a natureza, e outros conceitos nobres da vida. Por mais que os personagens em alguns momentos tenham a pretensão de fazer rir somente, em outros mostram um lado de emoção, de reflexão, mais dramática, procurando levantar polêmica, questionar a sociedade, e isso é o que mais me interessa — confessa.

— Assim surgiu o Zé da Silva Pereira, inspirado em um vaqueiro, filósofo popular por sua sabedoria natural do mundo, ajustado dentro de um universo do Guimarães Rosa, vivenciando um pouco o seu sertão místico. Depois vieram Kelé metaleiro, uma crítica a jovens culturalmente alienados; o bebum, crítica a respeito da pessoa totalmente fragilizada diante da bebida; o deputado João Plenário, inspirado na classe política brasileira em geral, com postura inconsequente e insensível; o João Macambira, um poeta popular que declama poemas fortes do sertanejo, utilizando-me de poesias minhas e de grandes poetas populares como Catulo da Paixão Cearense, Patativa do Assaré, Zé da Luz, Ademar de Paiva e Camilo Jesus de Lima — diz.

— E o tema do meu trabalho sempre foi a cultura popular de Minas Gerais, por mais que eu ampliasse o leque mostrando, por exemplo, o caipira Geraldinho, inspirado em um matuto de Goiás, ou o sambista Juriti, inspirado no sambista carioca do morro — declara.

Hoje são 9 personagens presentes no palco, que nas entrelinhas, através da ironia e do exagero, dão o seu recado, dentro do espetáculo que tem humor, música e poesia interligados: um personagem leva a uma canção que chama outro personagem, que leva a um poema que trás outro personagem.

Arrumação

Há 20 anos no ar, o programa Arrumação, apresentado por Saulo Laranjeira em uma emissora de televisão de Minas Gerais, tem ajudado ainda mais a colocar em prática os ideais em favor da cultura brasileira, com ramificações, como a Caravana Arrumação e o bar Arrumação, em funcionamento, além de outros em fase de estudos e acertos.

— O Arrumação é fruto do Som Brasil, da década de 1980, apresentado pelo Rolando Boldrin, que me fez ficar conhecido nacionalmente como um artista envolvido com a cultura regional, tamanha a minha frequência no programa. E fui convidado para apresentar um no mesmo modelo, aqui em Minas, com artistas daqui, o que topei imediatamente. O nome e trilha sonora foram escolhidos por eu gostar de cantar a música Arrumação, do Elomar — conta.

— Depois veio a Caravana Arrumação, que chamamos de "cultura brasileira sobre rodas", que é um caminhão que chega em uma cidade e faz um espetáculo em praça pública, gratuitamente para o povo, no mesmo estilo do programa. Geralmente, me apresento, levo artistas e convido alguns da localidade. Assim, já passamos por sessenta cidades de Minas, além de Belo Horizonte, onde é filmada e alguns trechos apresentados no programa — acrescenta.

No momento, Saulo tem um novo projeto, já em reta final de acertos, que é o de passar três dias na cidade visitada, fazendo o que chama de "Ação Arrumação", um evento cultural que além do show, oferecerá palestras sobre questões culturais, ecológicas, educação e oficinas voltadas para teatro.

— Queremos discutir com a sociedade, conversar sobre as questões ali em volta, debater questões políticas da região e os eventos culturais locais. Levaremos pessoas preparadas para discutir com jovens a questão da cultura de massa em relação a música popular brasileira, que covardemente faz com que fiquemos em uma posição de resistência, de cultura alternativa, quando na verdade fazemos aquilo que é cultura da nossa gente, do nosso povo — defende.

— Cultura brasileira não pode ser considerada alternativa dentro de sua casa, e sim a outra imposta pela mídia, já que falar, cantar, trabalhar a sua cultura é algo natural, espontâneo, para ser consumido naturalmente. E teria que ser passado para o povo: "esse canta os nossos valores, o nosso ambiente cultural, a nossa região, faz parte da nossa vida", o que não acontece, nos deixando a mercê de um público que sabemos que existe, mas que está envolvido pelo mercado — acrescenta.

Saulo observa que hoje se aglomera uma grande quantidade de pessoas em um local para ouvir axé, pagode, música sertaneja de má qualidade, como se não existisse outra música, e que a Caravana Arrumação é sua pequena contribuição na luta contra isso.

— O nosso propósito é levar ao público o artista da música popular, pessoas talentosas que merecem reconhecimento, desde que o público o conheça. Costumo dizer que atualmente a frase "o artista tem que ir onde o público está" mais do que nunca tem que vigorar. E entre esse público está o universitário que já teve um papel muito importante dentro da música brasileira e hoje, em sua maioria, encontra-se alienado diante dos valores culturais. Vale lembrar que eu, Dércio Marques, e tantos outros artistas talvez não existíssemos se não fosse o apoio que nos deram em São Paulo — fala.

— Costumávamos fazer shows meio dia, três da tarde, de noite, sendo acolhidos totalmente por eles, sempre pré-dispostos a consumir uma cultura diferenciada, de vanguarda, e não o que estava sendo imposto pela mídia. Hoje observamos que o universitário, de uma forma geral, passou a ser um consumidor comum, consumindo o que a mídia vende, perdendo o papel de questionador e a pré-disposição política de envolver-se em uma luta e reivindicar direitos diante da classe política e cultural, como, por exemplo, de querer que os artistas mostrem um Brasil que não é esse que somos obrigados a ver na televisão — continua.

Segundo Saulo, atualmente existem artistas qualificados, talentosíssimos, sem espaço para mostrar seu trabalho nos meios de comunicação. E quando correm para os bares, percebem que eles não estão dando mais uma boa atenção, sem contar que são raros os bares que têm música ao vivo atualmente.

— O bar tinha um papel muito mais poderoso há alguns anos, basta dizer que logo que cheguei em São Paulo trabalhei em um bar do Marcus Pereira, que é um importante divulgador da cultura regional, com mais seis ou sete atrações na noite. Artistas importantes cantaram nessa casa sempre lotada — conta.

— Os bares de Belo Horizonte lançaram e promoveram muita gente, e hoje está mais complicado. Estou fazendo um mapeamento muito sério do que vem acontecendo na prática. Creio que somos super vitoriosos, com muitos artistas talentosíssimos da música brasileira trabalhando, mas também temos que expor os problemas que existem para que as pessoas possam se manifestar, "chegar junto", ajudar a mudar isso — acrescenta.

O bar Arrumação é uma contribuição de Saulo nesse sentido. Apesar de ser uma casa pequena, em seus anos de funcionamento chegou a receber cerca de quinhentos artistas, como: Zeca Baleiro, Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale, Tadeu Franco, fazendo um pouco o que fazia o Fulô da Laranjeira.

— Depois de quatro anos funcionando, como não tínhamos uma estrutura para espetáculos com bandas, sendo rodeado de vizinhos, o bar teve que parar suas atividades por um tempo, e agora está voltando, só com espetáculos solo, um artista e o seu instrumento, mas que é uma forma de manter as pessoas envolvidas com esse ambiente musical — fala.

— Mas tenho o sonho de ter uma casa noturna aqui, e estamos trabalhando para isso. Será o "Arrumação Casa de Espetáculo", cheia de verdade e com uma infra-estrutura profissional da melhor qualidade. Já fiz uns cinquenta shows pelo Brasil este ano e vejo que as pessoas estão com vontade, com sede de vivenciar esses momentos, quando a nossa música vence as barreiras e vêm à tona. Recebo cerca de cinquenta e-mails por dia de gente elogiando o programa Arrumação, o que nos mostra que estamos tendo um retorno fabuloso — acrescenta.

— Na verdade, estamos sempre procurando produtos para poder viver mais dignamente e ampliar nosso mercado, não só para mim, mas também para outros artistas que aproveitam desse nosso movimento para exporem a sua arte e colherem frutos para si e para cultura brasileira. Não é que eu seja "bonzinho", mas sim que tenho a oportunidade e o prazer de ser um divulgador da cultura, da música brasileira, ajudando alguns artistas a aparecerem, enquanto eles também me ajudam a montar a minha história de vida — conclui Saulo.

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