Chacina de Vigário Geral - Quinze anos depois, multiplicam-se os massacres

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O tempo passou e, uma década e meia após a chacina de Vigário Geral, a imensa maioria dos assassinos segue solta e, por todo Brasil, novos banhos de sangue continuam sendo promovidos por representantes do Estado, apoiados na garantia de que crimes contra o povo estarão sempre na ordem do dia e fadados ao esquecimento.

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Os corpos das vítimas assassinadas por policiais em Vigário Geral no dia seguinte à chacina

Há quinze anos, no dia 29 de agosto de 1993, mais de cinquenta policiais integrantes de um grupo de extermínio conhecido como os Cavalos Corredores, invadiram a favela de Vigário Geral, assassinando 21 pessoas. Eles se dividiram em três grupos e espalharam o terror pelas vielas da comunidade.

Foram assassinados o estudante Fábio Pinheiro Lau, 17 anos, o metalúrgico Hélio de Souza Santos, 38 anos, Joacir Medeiros, 69 anos, o enfermeiro Guaracy Rodrigues, 33 anos, o serralheiro José dos Santos,47, Paulo Roberto Ferreira, 44, motorista, o ferroviário Adalberto de Souza, 40, o metalúrgico Cláudio Feliciano, 28, Paulo César Soares,35, o gráfico Cléber Alves, 23, Clodoaldo Pereira, 21, Amarildo Baiense,31, o mecânico Edmilson Costa,23 , o vigia Gilberto Cardoso dos Santos, 61, o casal Luciano e Lucinéia, 24 e 23. Em seguida executaram Dona Jane, 58, sua nora, Rúbia, 18, o marido e a filha Lúcia, 33. Lá, morreram também, Luciene, prestes a completar 16 anos e Lucinete, 27. As crianças, com idades entre 9 e 5 anos, conseguiram fugir, pulando para a rua de uma altura de dois metros. Uma delas saltou com uma criança de seis meses no colo.

No dia anterior, policiais que haviam matado o irmão de Flávio Pires da Silva, 23, conhecido como "Flávio Negão" — chefe do tráfico na favela — foram até o principal ponto de venda de drogas da comunidade para pegar o dinheiro da propina, paga para aliviar a repressão. Chegando à Praça Catolé da Rocha, a viatura foi surpreendida por um cerco de Flávio Negão e seus comparsas, que executaram os quatro PMs que estavam nela. Como vingança, no dia seguinte aconteceu a chacina.

Cavalos corredores

Os Cavalos Corredores eram policiais do 9º batalhão — na época sob comando do coronel Emir Laranjeira — e tinham esse apelido porque entravam nas favelas correndo e atirando a esmo. As ações criminosas do grupo tinham total apoio do coronel, um dos idealizadores da gangue. Em 1990, Laranjeira se elegeu deputado pelo PSDB e pouco depois, em 1991, pronunciou-se em defesa dos policiais, integrantes dos Cavalos Corredores, acusados de sequestrar e executar onze meninos do bairro de Acari. A blindagem que o coronel-deputado dava ao grupo nunca teve limites e em um episódio, uma das mães de Acari, Edméia Eusébio, foi intimidada por Laranjeira ao comparecer à delegacia para reconhecer um dos assassinos de seu filho, o cabo Paulo Roberto Borges da Silva. Depois dessa intimidação, Edméia desistiu do reconhecimento e foi para casa. Seis meses depois foi assassinada.

Apesar de idealizador dos Cavalos Corredores e de ter seu nome envolvido em diversos processos criminais, como a lista do jogo do bicho, Laranjeira até hoje está na Assembléia Legislativa, assim como outro acusado de ter relação com o grupo de extermínio, o ex-deputado Guilherme Godinho "Sivuca".

Quinze anos depois

Essa foi só mais uma forma de violência praticada pelo Estado contra o povo de Vigário Geral e de várias outras comunidades pobres pelo Brasil. Em Vigário, são precárias as condições de educação, saúde, saneamento e moradia oferecidas aos trabalhadores. Não existem postos de saúde na comunidade. De quinze anos pra cá, a população de Vigário quase dobrou, mesmo assim o número de escolas de ensino fundamental continua o mesmo e com uma estrutura mais desgastada. Não existem escolas de ensino médio na comunidade. Sendo assim, adolescentes precisam sair de Vigário para estudar, correndo um imenso risco de vida, devido às constantes trocas de comando no tráfico da comunidade vizinha, Parada de Lucas e, recentemente, lá mesmo, em Vigário Geral.

O advogado João Tancredo, que defende seis famílias de vítimas da chacina, disse que "Até hoje somente as vítimas e seus familiares foram punidos. Dos presos, 50 acusados envolvidos no evento, somente sete foram condenados e dois morreram por razões diversas. E as famílias sequer receberam alguma indenização".

Em 1993, a chacina de Vigário Geral chocou os brasileiros. Passaram 15 anos e, de lá pra cá, nada mudou. Diversas outras chacinas continuam acontecendo no Rio e por todo Brasil. No campo, famílias inteiras de pequenos agricultores são agredidas, saqueadas e torturadas. A cada ano que passa aumenta tenebrosamente o número de camponeses executados pelo latifúndio, com o total aval do Estado corrupto e falido. No Rio de Janeiro, a chacina da Candelária, a de Vigário, a de Acari e recentemente as chacinas da Baixada, do Alemão — coordenada diretamente pelo Estado — e do Barbante, provam que, qualquer que seja o gerenciamento, o Estado brasileiro, lacaio do imperialismo, principalmente ianque, sempre reprimirá o povo a ferro e fogo e, sendo assim, não haverá comissões de direitos humanos ou medidas judiciais que irão frear esse processo de criminalização e extermínio da pobreza, em curso e à todo vapor.

A cada ano, uma nova chacina

Mesmo depois de Acari, de Vigário Geral e da Candelária na década de 90, nesse novo século, as coisas não estão diferentes. Nos últimos anos, o povo brasileiro presenciou massacres nas mesmas proporções, ou piores.

Na noite do dia 31 de março de 2005, em diversos pontos de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, cerca de 10 homens, na sua maioria policiais, atiraram a esmo contra trabalhadores que andavam pela rua e que bebiam em bares da região. No total, 29 pessoas foram mortas. Uma das vítimas foi decapitada. Pouco mais de um ano depois, em Duque de Caxias, também na Baixada, integrantes de um grupo de extermínio, composto na sua maioria por policiais, atiraram contra um grupo de pessoas que bebiam em um bar, matando cinco delas e ferindo outras três. O crime aconteceu no bairro Parque Fluminense.

Em maio de 2007, uma operação da polícia no Complexo do Alemão envolvendo mais de mil homens de várias delegacias, deixou um saldo de 19 mortos. Grande parte das vítimas apresentou sinais de tortura e execução, porém as acusações foram ignoradas pela justiça burguesa, fazendo jus aos interesses da classe que representa.

Na noite de 22 de agosto de 2008, membros da milícia Liga da Justiça, formada por policiais que tinham representação na Câmara de vereadores e Assembléia Legislativa do Rio, invadiram a favela do Barbante, Campo Grande, e começaram a atirar contra os moradores. Sete pessoas morreram e, de acordo com as investigações preliminares, o crime teve motivação eleitoral.

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