Por que eles não usam black-tie?

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Há exatos 50 anos estreava no palco do Teatro Arena a peça Eles Não Usam Black-Tie escrita por Gianfrancesco Guarnieri. A peça ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo, o que era inédito no teatro brasileiro. Ela aliou temas importantes como o movimento operário da década de 50 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros, traçando um panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos e apontando o cerne do abismo social entre dominantes e dominados.

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Guarnieri e Fernanda Montenegro em cena do filme de 1981

O Teatro de Arena foi fundado na cidade de São Paulo, em 1953, como o objetivo de se tornar uma alternativa à cena teatral da época. A intenção de seus idealizadores e fundadores era nacionalizar o palco brasileiro em contraposição ao tipo de teatro que se via praticado pelo TBC — Teatro Brasileiro de Comédia (um repertório exclusivamente internacional, com produções "sofisticadas" e que pouco ou nada retratavam a realidade nacional).

Esse novo tipo de teatro, voltado para discussões sobre a realidade do país, chamou a atenção de vários segmentos da sociedade (e incomodou outros tantos), já que personagens como operários em greve e moradores das periferias, por exemplo, passaram a ser protagonistas de uma peça de teatro.

Em 1958, o Teatro Arena enfrentava sérias dificuldades econômicas e estava prestes a fechar suas portas quando ingressa no grupo o jovem ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri. Este jovem talento, que tinha sérias convicções sobre o teatro que deveria ser feito no Brasil, contribuiu enormemente para reerguer o grupo, que alcançou um estrondoso sucesso com Eles Não Usam Black-Tie.

Um teatro nacional é possível

Eles Não Usam Black-Tie,escrita por Guarnieri e dirigida por José Renato, um dos fundadores do movimento do teatro de arena no Brasil, trata da greve operária, colocando em cena  trabalhadores (moradores de uma favela) e seus problemas socioeconômicos. O TBC e a grande maioria das peças produzidas no país antes da década de 50 não tratavam da realidade vivida pelo nosso povo, ou seja, era o chamado teatro do entretenimento, muito presente ainda no cenário do teatro nacional. Ademais, esses textos tratavam da burguesia em peças geralmente cômicas, muito distantes da realidade brasileira. Daí o próprio nome Eles Não Usam Black-Tie, uma clara provocação a este velho teatro engessado das classes reacionárias.

A peça escrita por Guarnieri pode ser considerada precursora do movimento por um teatro realmente brasileiro. E por que não dizer, além de uma bandeira nacional, Eles Não Usam Black-Tie também desfraldou uma bandeira antiimperialista e democrática, haja vista o ódio que despertou nos "Generais de 64" a temporada da peça em Salvador.

Dramaturgia da vida operária

Com trilha musical de Adoniran Barbosa, a primeira apresentação em público teve um "elenco de primeira": Eugênio Gusnet, ator experiente do teatro e cinema nacional, viveu o velho Otávio; Lélia Abramo, intelectual, politizada, vinda de experiências junto a grupos operários anarquistas, vive a mãe Romana; Miriam Mehler, recém-formada pela Escola de Arte Dramática, EAD, encarrega-se de Maria, amor de Tião, interpretado pelo autor da peça — o jovem Gianfrancesco Guarnieri. Outros papéis cabem a Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.

A peça tem um roteiro consistente: o jovem operário Tião fura o movimento grevista, pois tendo engravidado a namorada teme perder o emprego na hora em que mais necessita de recursos. As consequências de sua atitude são dolorosas, enfrentando não apenas seu pai, o líder grevista, como sua própria namorada grávida, que o impele a frente da luta e o abandona no final.

Tudo isso tendo como pano de fundo a São Paulo do final dos anos 50, o grande impulso industrial e com isso a carestia que passava o proletariado, o que exigia um movimento operário à altura.

E mais do que isso, a peça é a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes, o que, por sinal, dá a tônica dramática ao texto.

O pai, Otávio, operário de idéias progressistas, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lutas, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se numa das principais lideranças da fábrica que trabalhava.

O filho Tião, que, em razão das prisões do pai grevista, é criado praticamente na cidade, longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Já adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve, pois acha que essa é uma luta inglória, sem maiores resultados para a classe. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros por melhores salários e pela transformação da realidade que viviam.

Com diálogos emocionantes e o bom samba de Adoniran no fundo, todas as contradições vividas por aquela família operária são retratadas, apontando uma realidade que certamente era vivida por outras famílias de trabalhadores pelos outros cantos do país e do mundo.

Riso e dor, alegrias e tristezas...e reflexões!

Foi quase uma década de sucesso em turnês por todo o Brasil. Assistida por milhares de pessoas, dentre estudantes, operários, intelectuais, pode-se dizer que os sessenta minutos de peça provocavam grandes reflexões.

Eles Não Usam Black-Tie é um texto político e social, sempre atual, no qual Gianfracesco Guarnieri trouxe ao público uma peça forte e densa, revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens como Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio. São tais encontros e são esses momentos alegres e comoventes que nos provocam o riso e a dor, alegria e tristeza.

A qualidade da peça fez com que anos depois, em 1981, ela fosse adaptada para o cinema. Coube a Leon Hirszman produzir o roteiro e dirigir o filme. Ele convidou Guarnieri, 20 anos "mais vivido" para encarnar o velho Otávio. Fernanda Montenegro viveu a brava Romana. Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes interpretaram Tião e Maria respectivamente.

O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes e com certeza é um dos clássicos do cinema nacional.

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