Poesia nos trilhos

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Com 12 anos de intensas atividades, o Trem das Gerais é um grupo musical genuinamente popular. Atuante em Araguari e todo o Triângulo Mineiro, é tido por seu público como um grupo defensor da cultura popular e do Cerrado Mineiro. Formado por quatro integrantes da mesma família, o grupo compõe belas canções que exaltam temas como a cultura, preservação do Cerrado e as lutas cotidianas do nosso povo.

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Adolfo e família numa apresentação do Trem das Gerais

Uma vida misturada à cultura popular, nadando sempre contra a corrente. Assim podemos resumir um pouco da história do casal Adolfo e Vânia Figueiredo. Adolfo tem toda uma vivência na música popular e tocando na noite na década de 80 conheceu Vânia, filha de Cantadeira do Vale São Francisco. A música e o gosto pela verdadeira cultura de nosso povo uniram o casal e envolveram os filhos antes mesmo de suas chegadas.

— Na barriga da mãe os meninos já conviviam com música — afirma Adolfo.

João Paulo e Pedro Lucas cresceram ao som da viola, dos batuques e dos passarinhos.

— A nossa casa sempre viveu cheia de gente, cantadores de todas as partes da região se reuniam aqui, não tinha hora para terminar — conta Vânia.

Em 1996, de forma espontânea, a família se formou como um grupo musical. Assim começa a História do Trem das Gerais: Adolfo (violão e voz), Vânia (voz e percussão), João Paulo (percussão) e Pedro Lucas (viola caipira e violão de aço).

— Tudo em Minas é trem, faca é trem, bola é trem, caneta é trem. Como cresci em meio a trilhos e vagões e queremos passar a idéia de movimento, optamos por esse nome — explica Adolfo, que é filho e neto de ferroviários.

Em 2003 o grupo lançou seu primeiro álbum chamado Cantos Gerais.Três anos depois veio  Embornal de Cantoria, um belo trabalho que faz jus ao seu título. Embornal, entre outras definições, é o nome que se dá a uma pequena sacola confeccionada em tecido grosso, usada a tira-colo, também chamada de matula. No caso do segundo disco do grupo, é o local onde se encontram preciosidades da cultura brasileira, as manifestações existentes no Cerrado mineiro, ao mesmo tempo em que o próprio Cerrado também é um embornal, guardador das tradições.

Influências, parcerias e resistência

— A nossa influência musical vem muito daqui do Cerrado Mineiro. Esse grande palco cultural. São inúmeros cantadores que têm na sua estrada e história uma identificação com a nossa história e o que pensamos sobre cultura popular —  diz Adolfo.

— A nossa infância, a nossa vivência na beira dos rios, as cantadeiras, as lavadeiras, pessoas simples do povo, essas são nossas grandes influências. Além de estímulo para continuarmos a luta —  afirma Vânia.

O grupo não esconde a referência também em grandes artistas da música brasileira. São vários nomes, uns menos conhecidos, outros já reconhecidos, mas que definitivamente marcaram a trajetória do grupo.

— Como não falar em João Bá, grande músico brasileiro que produziu o primeiro álbum do Almir Sater e tem inúmeras parcerias com Rubinho do Vale e Dércio Marques. João Bá é nossa grande referência, pois é um músico popular que se identifica com seu povo. No que diz respeito à harmonia musical, não podemos deixar de falar do bem que faz aos nossos ouvidos a música de Villa Lobos e do Clube da Esquina — declara Adolfo.

A vida do povo... nossas canções

— A nossa música surge do simples. Ela surge da labuta diária do povo que almeja dias melhores e procura viver em um meio ambiente melhor. Voltar as pessoas para a simplicidade. Este é um de nossos grandes objetivos — diz Vânia.

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Adolfo em sua oficina de instrumentos musicais

Ao longo dos anos, o grupo foi percebendo que o cotidiano do povo estava sempre presente nas rodas de conversa e em suas mentes e corações e que, nesse sentido, deveriam colocá-lo a favor de uma crítica social, com um compromisso de fazer esse mesmo povo refletir sobre as questões políticas e culturais. Assim foram nascendo canções que procuraram absorver o máximo do dia-dia de luta dos trabalhadores.

— O artista é como uma antena, ou seja, ele capta para seu universo a realidade do povo. Os músicos têm que ter sensibilidade, não dá para fazer música alheia às contradições do mundo em que se vive — explica Adolfo

— Por isso, dizemos que fazemos música para alertar, música de militância. É uma arma que temos para lutar contra a destruição do nosso Cerrado e da cultura popular — acrescenta.

Empurrando goela abaixo!

Além de compor e cantar música popular de qualidade, o grupo é bastante politizado. Participa ativamente das discussões sobre os rumos da música nacional.

— Não cantamos só meio ambiente. Nossas letras e canções são contra as imposições, falamos das dificuldades dos artistas que lutam por valorizar a verdadeira cultura popular. Cutucamos sempre os donos do poder — argumenta Adolfo.

— A nossa luta diária é contra o que chamamos de grande mídia. Ela é uma grande farsa, é impositiva. Falam em mídia democrática, mas não é nada disso. São esses meios de comunicação que provocam essa situação em que qualquer porcaria é considerada cultura. Não apresentam outras possibilidades, empurram essa podridão goela abaixo — aponta Vânia.

No entanto, o grupo é ciente de que apesar das dificuldades é preciso continuar levantando as bandeiras de luta.

— O artista popular hoje tem quase que mendigar apoio, ou então bancar de seu próprio bolso. Resistimos ainda por que somos apaixonados por música e entendemos que não podemos deixar apagar a chama da cultura popular, embora saibamos que o investimento por parte do poder público é bem irrisório e a iniciativa privada tem sempre seus interesses — diz Vânia.

— Por isso, nadamos contra a corrente, apoiamos em nossas próprias forças e na solidariedade do nosso povo. Não descartamos os patrocínios, mas não aceitamos nenhum tipo de financiamento de empresas ou governos que queiram impor uma linha a seguir. Somos coerentes com nossos ideais — explica Adolfo.

Cantar, ensinar, aprender e trabalhar!

Adolfo é um poeta, violonista de mão cheia. Vânia é dona de um timbre especial de voz. João é percussionista de ouvidos atentos e Pedro, embora tenha apenas 16 anos, domina uma viola como "gente grande".

Com qualidades musicais e artísticas tão marcadas, o grupo não monopoliza esses dons, se assim podemos dizer. Eles têm a concepção que a cultura e arte devem ser transmitidas não só através das apresentações, mas também por meio do contato com as pessoas, no ato de ensinar e aprender.

O Trem das Gerais confecciona seus próprios instrumentos. São violas, violões, rabecas, instrumentos de percussão. Estes são utilizados nos espetáculos, nas apresentações de outros grupos da região e nas oficinas realizadas com crianças e adolescentes de Araguari. É uma oficina de musicalização e confecção de instrumentos, e dura cerca de 2 meses.

— Nesse trabalho temos depositado um enorme carinho e atenção. Recebe o nome de Nas Trilhas de Minas e tem o objetivo de proporcionar a crianças e jovens uma visão cultural, sonora e social da música popular, além criar espaço de debates e reflexões com essa criançada para assim perceberem a realidade que vivem e com muita luta transformarem essa situação — explica o grupo.

E, segundo Adolfo, a militância é o que não pode faltar ao grupo em 2009.

— Continuaremos realizando as oficinas, discutindo política e cultura, e esperamos a oportunidade de poder apresentar em alguma atividade do movimento camponês aqui da região.

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