Quem é que agora pede socorro?

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http://www.anovademocracia.com.br/49/16b.jpgOs industriais e gerentes do setor automotivo estão entre os maiores especialistas em detonar empregos. Costumam fazer isto em larga escala, e periodicamente, depois de moer os operários em suas fábricas por meio das modernas técnicas de "gestão de pessoas" e racionalização da produção. As montadoras estão entre os palcos onde a luta de classes é travada de forma mais nua e crua, seja pela histórica bravura dos metalúrgicos, seja pelo fato de empresas como General Motors e Ford representarem verdadeiros ícones capitalistas. Onde há ações mais aguerridas do mundo do trabalho, há também reações mais truculentas do patronato mancomunado com as gerências políticas dos Estados burgueses.

A forma mais comum desta truculência é chantagear os trabalhadores, principalmente em tempos de crise, ameaçando direta ou veladamente retirar-lhes seu sustento. É cartilha dos patrões: em caso de emergência, a primeira providência é colocar a rapaziada no olho da rua. É curioso como agora as montadoras, duramente castigadas pela profunda crise atual, correm aos cofres públicos para pedir ajuda, alardeando a necessidade de garantir os empregos dos trabalhadores de suas fábricas. Tentam salvar a própria pele dizendo que estão salvando a pele de quem trabalha para eles, omitindo o fato de que as demissões, afinal, já estão agendadas para os próximos meses e anos, independente do quanto consigam arrecadar junto ao governo do USA, do Brasil e de outros países.

Usam as massas como álibi. Exatamente elas, as fabricantes de carros, um setor que foi fundamental para o processo de acumulação capitalista, e cujos modelos de produção em massa — fordismo e toyotismo, cada um a seu modo — levaram ao limite a exploração dos operários na linha de montagem.

Do outro lado do balcão — o lado de Bush, Obama, Luiz Inácio, etc. —, quem costuma criticar as montadoras por não demitir o suficiente agora também usa a desculpa do emprego, ou do desemprego, para lhes repassar dinheiro do povo. Ou seja, neste momento de agravamento da crise do capital nos quatro cantos da terra, é curioso como o patronato e seus cúmplices instalados nas administrações nacionais enchem a boca para falar do perigo do desemprego, como se fossem os maiores aliados da classe trabalhadora.

Algo semelhante vem acontecendo no socorro aos bancos falidos. Dizem que eles não podem quebrar porque são o sustentáculo do sistema financeiro, o que deixa muito claro a quem os Estados burgueses estão aí para servir. Como se alguma dúvida restasse.

Com tanta "ajuda", agora sabemos que fim levou o butim economizado com anos e mais anos de austeridade e cortes nos gastos dos governos, de sucateamento dos serviços públicos, de negligência com saúde e a educação do povo: economizavam para fazer caixa de socorro a banqueiros e fabricantes de carros!

Não se pode perder a luta de vista!

Com pacote ou sem pacote de socorro, a Ford já anunciou que pretende fechar 14 fábricas e botar 30 mil operários na rua. Isto ao longo dos próximos quatro anos e só no USA. Providências como estas, de tamanha magnitude, costumam ser noticiadas como planos de "reestruturação" ou de "racionalização", em geral levados a cabo pelas empresas multinacionais. Trata-se de chamar por nomes pomposos, técnicos, o que não passa de covardia sumária, caracterizada pela eliminação de milhares de empregos como parte do esforço para preservar as altas taxas de lucros e para manter o capital em plenas condições de se reproduzir a todo vapor.

Tudo com a anuência dos oportunistas que ocupam as gerências políticas nacionais que, ao invés de punir quem tenta usar e abusar das massas ao seu bel prazer, premia a ajuda os grandes acionistas e os capatazes travestidos de executivos.

Casos de "reestruturação" ou "racionalização" via de regra são apresentados com a maior naturalidade do mundo pelo monopólio dos meios de comunicação, com direito à bênção de especialistas que se apresentam como neutros na luta entre o capital e o mundo do trabalho, mas que na verdade são comprometidos até os cabelos com o patronato industrial. Quem descarta mais gente recebe as maiores congratulações. Assim caminha a "racionalidade" capitalista: castigando os trabalhadores com a incerteza, o medo, o divisionismo e, por fim, o desemprego.

Em um primeiro momento, os comunicados das diretorias de cada empresa aos acionistas dão conta de como os altos-executivos pretendem fazer jus aos seus salários astronômicos. Preocupados em assegurar os dividendos de quem tem a maior parte das ações, os paus-mandados mais bem pagos do mundo anunciam intenções de reduzir os gastos cortando os salários dos mal-pagos: o proletariado.

Instaura-se a incerteza entre as massas trabalhadoras que botam as fábricas para funcionar. Depois das primeiras demissões, a ansiedade acaba se transformando em um natural medo de perder o salário com o qual o trabalhador se vira para sustentar sua família. Colocados contra a parede, tendo o meio de sobrevivência ameaçado, o chão da fábrica se transforma em terreno fértil para o divisionismo, que os patrões não tardam em semear. Por fim, o olho da rua.

Para piorar a situação, no Brasil, os sindicatos ligados à CUT e Força Sindical, em conluio com as montadoras, realizam manobras para escamotear sua venda para os patrões. Quando a empresa tenciona mandar 3 mil operários para o olho da rua, em acordo com os sindicatos divulgam o plano de demitir 6 mil. Seguem-se negociações, viagens de sindicalistas às sedes das montadoras nos países imperialistas e, enfim, os pelegos posam vitoriosos, dizendo que conseguiram reduzir as demissões para "apenas" 3 mil. Tal farsa se repetiu incontáveis vezes, tendo inclusive como protagonista o operário-padrão do FMI, Luiz Inácio.

O resultado é o aumento substancial do desemprego, fragilização da classe trabalhadora e aumento do poder de chantagem do patronato.

Ora, cabe aos próprios trabalhadores romperem com este círculo vicioso, especialmente neste momento de crise do modo capitalista de produção. Cabe ao proletariado radicalizar as ações que cabem à sua classe, enquanto força política destinada a destruir o capital opressor e a construir uma democracia de fato, direta e internacionalista. A luta contra a burguesia não pode ser perdida de vista diante das urgências que o trabalhador enfrenta em seu dia-a-dia — da insegurança no trabalho à insegurança quanto à saúde, educação dos filhos e quanto ao próprio futuro.

Mas um futuro sem a rotina de exploração, incerteza e medo só será possível com a vitória das massas unidas contra os poucos que comandam um mundo marcado pela injustiça, como a de premiar ou socorrer os maiores algozes do povo com recursos que pertencem ao próprio povo.

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