Monsanto expande monopólio no Brasil

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Quem se der ao trabalho de procurar num sebo o documento "Metas e Bases para a Ação do Governo", publicado pela gerência militar (General Garrastazu Médici) no início da década de 70, vai encontrar como prioritário um programinha de sementes melhoradas — o furo na cerca que permitiu a Monsanto apoderar-se inteiramente da agricultura brasileira. Durante o regime militar, iludiu, penetrou, forjou e dominou. Agora, comprou, a preço vil, a Alellyx e a CanaVialis, duas das mais promissoras empresas de tecnologia agrícola.

http://www.anovademocracia.com.br/49/9a.jpgA Monsanto é a maior vendedora de sementes na América Latina, Ásia, Estados Unidos e Canadá, e entre "grandes conquistas" está a fabricação do "agente laranja", um devastador pesticida utilizado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. No Brasil, sua mais recente façanha foi enfiar 290 milhões de dólares goela abaixo do grupo Votorantim, que na prática mantinha a Alellyx e CanaVialis com dinheiro da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), BN DES e outras agências governamentais.

Não se trata apenas de uma bagatela econômica, porém uma das mais autênticas malandragens científicas. As duas empresas, com sede em Campinas (SP), foram criadas por pesquisadores acadêmicos que participaram dos primeiros grandes projetos de genômica no País, financiados em sua totalidade por recursos públicos. Sua história, na verdade, é indissociável dos resultados de investimentos públicos em pesquisa, e tem origem na esteira do primeiro sequenciamento genético de um organismo vivo no Brasil, em 1999, anunciado como o "maior feito científico brasileiro dos últimos tempos".

Barganha

Tratava-se da finalização do mapeamento genético da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora da praga conhecida como "amarelinho", que ataca os laranjais paulistas. Naquela época, o projeto Genoma-Xylella custou aos cofres públicos US$ 13 milhões, parte financiados pelo governo Federal, parte pelo governo paulista, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Em seguida, o Ministério da Ciência e Tecnologia aprovou mais de R$ 49,4 milhões para pesquisas. Há unanimidade entre os cientistas de que o preço de venda — US$ 290 milhões — foi ridículo.

A partir do conhecimento gerado pelo sequenciamento do "amarelinho", foi fundada em 2002 a empresa Alellyx Applied Genomics e, no ano seguinte, a Cana-Vialis S.A., voltada para o melhoramento clássico de variedades da cana-de-açúcar. A Votorantim Novos Negócios logo aderiu a ambas, para no ano passado anunciar uma "parceria tecnológica" com a Monsanto, e o que teria sido um dos maiores feitos científicos brasileiro dos últimos tempos, e que provavelmente se tornaria também um dos mais lucrativos negócios do século 21, deixou de ser brasileiro, em que pesem os recursos públicos, o engenho e o esforço nacionais nele empenhados.

A curta trajetória da Alellyx e da CanaVialis sob controle nacional assume caráter emblemático do que vem a ser o destino dos resultados da pesquisa em países que ainda não acordaram para a dimensão estratégica de Ciência e Tecnologia como elemento central do poder nacional.

Mais produtividade

A CanaVialis tem contratos com 46 usinas de cana no Brasil que produzem em uma área de 1,1 milhão de hectares. Segundo a Monsanto, com o negócio a empresa tem o objetivo de introduzir a tecnologia Bt e aumentar a produtividade da cana, ao mesmo tempo em que reduz o volume de recursos necessários para o cultivo.

Quando os produtos melhorados geneticamente estiverem sendo utilizados, as empresas prevêem redução dos custos de produção nos canaviais, uma vez que vários agroquímicos deixarão de ser aplicados, tanto para o controle de ervas daninhas como para o controle de insetos.

A cana com tecnologia Bt seria resistente à broca (Diatraea saccharalis), um inseto cuja larva se alimenta da gramínea. Essa é uma das principais pragas da planta, que atualmente é combatida por meios químicos e biológicos. O mesmo gene poderia combater também a cigarrinha, outra "praga" da cultura, insetos esses que tendem a aumentar com a gradativa redução das queimadas da palha, com o avanço da colheita mecânica.

Mesa envenenada

Milhares de brasileiros alimentam-se todos os dias de alimentos transgênicos, produzidos com intensa participação da Monsanto, sem nem saber o que isso significa. Transgênicos, ou organismos geneticamente modificados (OGM), são seres vivos criados em laboratório a partir da mistura com genes de outros organismos. A ciência é capaz de fazer cruzamentos entre espécies que jamais aconteceriam em um ambiente natural, como uma bactéria com um vírus, um animal com um inseto, uma planta com uma bactéria. Desta forma, é possível criar seres completamente novos, que não existem na natureza.

Os OGM começaram a ser utilizados em larga escala a partir de 1997, mas apenas três tipos são comercializados: os criados para resistir a um determinado agrotóxico, os que possuem propriedades inseticidas e os que combinam essas duas características. O mito criado de que os transgênicos comercializados são mais produtivos, possuem mais nutrientes ou resistem a secas e chuvas é falso. Eles acarretam uma série de impactos no meio ambiente e na saúde humana, que vão desde alergias ao aumento da utilização de agrotóxicos e a contaminação genética da natureza.

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que acompanha sistematicamente a situação dos transgênicos na Europa, adverte que os países detentores de maior grau de conhecimento sobre o assunto, como Suécia, Dinamarca, Reino Unido e França são os mesmos que não permitem a utilização agrícola destes produtos nem reconhecem benefícios nestes alimentos. Em contrapartida, países com menor grau de conhecimento, como Portugal, Espanha e Itália são os que possuem maior produção e venda de transgênicos para a população.

No Brasil, a produção de alimentos transgênicos começou de forma ilícita: até o final de 2003 os produtores de soja não estavam autorizados a plantar soja transgênica — apesar de já o terem feito em safras anteriores. Porém, uma medida provisória do gerente Luiz Inácio autorizou o plantio e comercialização da soja Roundup Ready, da Monsanto, até o dia 31 de dezembro de 2004. A empresa foi liberada pelo CNTBio para a produção das sementes de soja mesmo sem um estudo dos prováveis impactos ambientais causados pelo cultivo. Como a Monsanto é a detentora dos royalties desta variedade de sementes de soja, cada sojicultor teve de pagar uma taxa para utilizar a nova tecnologia, conforme anúncio divulgado pela própria Monsanto, muito antes de ser assinada a medida provisória do governo.

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