Niquelândia: retrato da crise do capitalismo

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Os noticiários insistem em dizer que a crise não está afetando o Brasil. Os noticiários não conhecem Niquelândia, norte de Goiás. Lá, até o engraxate sabe explicar que a crise chegou ao país.

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O Supermercado teve seu movimento reduzido em mais de setenta por cento

A crise, para muitos, não afeta o Brasil. Afinal, está nos jornais, o país conseguiu manter sua economia sólida, lançou suas reservas de dólar no mercado para garantir que o preço não subisse exageradamente e preservou o país da crise. Mas os jornais não conhecem Niquelândia. A cidade de 40 mil habitantes não foi visitada pelos repórteres dos jornais especializados em economia nem dos grandes jornais do eixo Rio-São Paulo.

Para os moradores de Niquelândia, a crise existe e isso é visível numa simples caminhada pela cidade. As lojas anunciam grandes promoções, mas continuam vazias. Os bares, em quase todas as esquinas, estão às moscas. Os sotaques dos operários que vieram de várias partes do país se misturam, mas a palavra é uma só: crise.

Os maiores porta-vozes do capitalismo burocrático do país aparecem constantemente na TV para explicar o significado da crise. Em Niquelândia, qualquer operário, mesmo que não saiba ler, consegue explicar rapidamente o seu significado. A esperança de um futuro melhor, o desejo de investir, de trabalhar duro e juntar algum dinheiro, que outrora reinava na cidade, caiu junto com a cotação na bolsa do níquel, que é a base da economia da cidade, e com as ações do Grupo Votorantim, maior empresa de extração do minério na cidade.

O Grupo Votorantim havia iniciado a construção de uma nova planta da empresa, que possibilitaria a extração de um novo tipo de níquel. Com a queda do preço do minério na bolsa de valores e a desvalorização das ações da empresa no mercado, as obras foram canceladas, 400 funcionários que estavam sendo treinados para trabalhar na nova unidade e 150 da usina em funcionamento foram demitidos. Os contratos com várias empresas que estavam trabalhando na construção da nova unidade foram rompidos. Em um único dia, mais de dois mil operários foram demitidos e deixaram a cidade.

Medo, há

Cheguei à cidade numa sexta-feira à noite, 21 de novembro. O bar "Sabor e Drink’s", ponto de encontro da juventude e dos operários, técnicos e engenheiros estava vazio.

Pela manhã, dirigi-me ao Supermercado Baratão, um dos maiores da cidade. Das outras vezes em que estive no estabelecimento, mal se podia andar pelos corredores. A sessão do açougue estava sempre cheia, afinal, sábado e domingo eram dias de churrasco na cidade. Após uma extenuante semana de trabalho, e trabalho pesado, na mina, na construção civil, terraplanagem ou sondagem geológica, tanto operários quanto engenheiros queriam se divertir um pouco.

Expliquei a José Carlos Machado, o gerente do supermercado, que estava fazendo uma reportagem sobre a crise capitalista. Ele me olhou com um ar desconfiado, que rapidamente se tornou triste. Há coisas que não se precisa perguntar. O supermercado estava vazio. José Carlos me explica que mais de setenta por cento das empresas que estavam na cidade pelo Projeto Ferro-Níquel haviam partido no mês de novembro.

O supermercado foi afetado diretamente. As vendas caíram vertiginosamente. Oito das mais de 30 empresas que chegaram à cidade para trabalhar no Projeto Ferro-Níquel faziam compras no supermercado, setenta por cento delas já haviam deixado a cidade.

Se antes a cidade exportava níquel, agora exporta medo. O desemprego é um fantasma que tem assombrado a cidade.

— Antes você ouvia muita gente dizer "vou sair do supermercado para trabalhar nas empresas". Hoje é o contrário, muita gente quer vir trabalhar no supermercado — conta José Carlos.

José Carlos afirmou que não tinha medo de perder o emprego, mas temia a falência do estabelecimento. Ele calculou que, somente em vale-alimentação fornecido aos funcionários pelas empresas, deixaram de circular R$ 200 mil mensais na cidade, desde setembro, quando começaram as demissões.

Edislene Ferreira é secretária executiva. Ela trabalha numa empresa que foi aberta justamente para atender a demanda do Projeto Ferro-Níquel e do novo boom da mineração em Niquelândia. A Calmonte — Caldeiraria e Montagem Industrial foi aberta no segundo dia de 2008. O proprietário, tio de Edislene, encarou o desafio de deixar um emprego onde ganhava relativamente bem e montar o próprio negócio.

— Meu tio conseguiu um contrato com a Votorantim Metais e hoje temos 50 funcionários trabalhando para a empresa. O contrato vai acabar em dezembro e se não houver novos contratos teremos que demitir — conta Edislene.

A Calmonte não atuava no Projeto Ferro-Níquel, mas estava sendo afetada da mesma forma. A caldeira que a empresa estava construindo para a Cia. Níquel Tocantins deveria custar R$ 400 mil, mas a empresa aceitou fazer a obra por R$ 256 mil.

— Eles estão pagando menos e a gente tem que pegar por quanto eles pagarem. Quase não teremos lucro, mas não podemos ficar sem trabalho — explica Edislene.

Lojas vazias

Cheguei à Avenida Brasil, onde se concentrava a maioria das lojas da cidade. Dirigi-me à Só Colchões. A loja é grande e tem à disposição dos clientes todo o tipo de móveis e eletro-eletrônicos.

Régia Maria trabalha na loja há dois anos. Saiu de Brasília para viver na cidade e ficar mais perto dos pais. Ela era uma das melhores vendedoras do estabelecimento. Mas nem ela tem conseguido vender por causa da crise.

— No final de outubro, começou a cair. No ano passado, nessa mesma época, eu já tinha vendido 90 mil reais. Agora só vendi 40 mil. A loja está fazendo aniversário, é final de ano e temos várias promoções, mas nada adianta — explicou a vendedora.

Régia não temia perder o emprego, mas esta não era a mesma situação do vendedor Átila, de 24 anos, que trabalha há apenas quatro meses na loja. Ele veio de Goiânia. O sorriso simpático, não escondia o medo.

— Bom, medo eu tenho. Não vou falar que não tenho medo. Quem não tem? As empresas estão demitindo! — exclama Átila, preocupado.

Átila afirma que as vendas caíram 40% nos últimos dois meses. Ele temia o aumento da inadimplência nos próximos meses porque agora, segundo ele, as pessoas ainda estão recebendo o "acerto" das firmas e algumas pagam tudo o que devem antes de partir da cidade. Mesmo na crise, com salário menor que nos meses anteriores devido à queda nas comissões, Átila não perde o bom humor:

— Para quem chegou aqui e viu cinco mil homens lotando a cidade, é muito estranho ver a cidade assim. Passava uma mulher, olhavam 50 homens. Agora a concorrência melhorou. Já consigo até arrumar namorada. Tudo tem o lado bom e o lado ruim.

250 carros por mês

Em Niquelândia, existem 10 lojas de carros, entre novos e usados, e uma exclusiva de venda de motos.

Numa rua que faz esquina com a Avenida Getúlio Vargas, a principal da cidade, dezenas de carros eram expostos. A loja Center Veículos fechou a rua para fazer um "feirão" de carros. Os carros, de várias marcas, brilhavam sob a luz do sol que se intercalava com a chuva. Me aproximei dos vendedores e expliquei, mais uma vez, que estava fazendo uma reportagem. Eles riram, se entreolham e fizeram a conhecida exclamação: "ixi!".

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Alojamento de operários abandonado

Érica Ribeiro, uma das vendedoras, me atendeu, como se eu fosse uma cliente em potencial. Ela explicou que eles financiavam os carros por sete bancos diferentes e que é muito fácil comprar um carro, bastava ter emprego. E isso era — repito, era — o que não faltava na cidade.

— A venda de carros diminuiu muito. A taxa de juros era 1,5%, agora é 1,9% ou 2,0%. Houve uma queda nas vendas de mais de 60%. Vendíamos tanto para funcionários de empresas quanto para pessoas da cidade. Vendíamos de 20 a 25 carros por mês. Este mês vendemos cinco — explica Érica.

O gerente explicou que todas as dez lojas da cidade vendiam uma média de 25 carros por mês, ou seja, 250 carros todo mês (!), numa cidade de 40 mil habitantes. Mas que agora as lojas só são procuradas por quem quer vender o carro. E o pior é que os lojistas começavam até mesmo a temer a efetivação da venda, uma vez que a inadimplência estava em alta na cidade.

Acabou o casamento

Hosilene Oliveira é técnica em Segurança do Trabalho da Engefort, empresa responsável pela construção civil e terraplanagem do Projeto Ferro-Níquel. Douglas Ferreira é noivo de Hosilene e auxiliar de qualidade na Montecalm, empresa responsável pela construção de uma caldeira na Cia. Níquel Tocantins. Os dois pretendiam se casar em 2009. Mas agora, o casamento estava cancelado e todo e qualquer plano que envolva alguma despesa.

Em um mês, Hosilene não terá mais emprego. Douglas deve perder o emprego em fevereiro.

— Nós tínhamos 325 funcionários em setembro, agora são 150. Na terça-feira, todos os funcionários assinarão o aviso-prévio. Vai ser meu aniversário, grande presente que eu ganhei...— explica, indignada, Hosilene.

— Havia 875 operários trabalhando na Caldeira, agora somos 120 e só 30 ficarão até fevereiro, quando todos serão demitidos. Antes da crise, quando terminássemos essa Caldeira, seríamos transferidos para o Projeto Ferro-Níquel, mas agora não há previsão para continuar na empresa — conta Douglas.

O casal se olhou tristemente. Os planos que tinham foram todos desfeitos. Nos olhos era possível ler a frase mais falada na cidade: "com essa crise?".

O Projeto Ferro-Níquel

Niquelândia foi fundada em 1735. É o maior município do estado. Com uma população de cerca de 40 mil habitantes, a principal atividade econômica da cidade é a extração mineral. O PIB per capita chegou a R$ 14.805, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2005.

O níquel foi descoberto na cidade em 1938, pelo minerador alemão Helmut Brooks. As reservas da cidade estão entre as maiores do mundo e atualmente são exploradas por duas empresas: Grupo Votarantim Metais e Anglo American. As pesquisas começaram na década de 50 e trinta anos depois as empresas começaram a funcionar. Centenas de operários chegaram à cidade. Novos bairros foram abertos, sem a menor infra-estrutura. A cidade cresceu e se tornou um dos maiores arrecadadores de ICMS do estado.

Niquelândia vivia um novo boom de crescimento, comparado ao do início da exploração do níquel, devido ao Projeto Ferro-Níquel. O Projeto foi iniciado em 2003, apresentado à sociedade em 2007 e deveria ser concluído em 2009. Previa a construção de uma planta para a produção de 42,6 mil toneladas de Ferro-Níquel por ano. Os investimentos deveriam chegar a R$ 558 milhões. A expectativa era de que, com a conclusão da usina, cerca de 2.500 empregos fossem criados.

Com o projeto, milhares de operários se mudaram para a cidade, vindos dos mais diversos cantos do país. Eles chegaram com as empresas que prestariam serviços para a Níquel Tocantins, conhecidas como "gatas". Os mais graduados, técnicos e engenheiros vinham do Sul, da Alemanha, Bélgica e Japão. Os operários sem qualificação vinham de São Paulo, Minas Gerais e do Nordeste, principalmente.

Em pouco tempo, a feição da cidade mudou. De cidade pacata, onde os vizinhos se sentavam nas calçadas no fim do dia e trocavam acenos pelas ruas, a cidade passou a exibir ruas cheias de desconhecidos, que lotavam os hotéis e os restaurantes da cidade.

O salário médio da cidade girava em torno de R$ 600, com a chegada dos operários a média dobrou. Uma casa simples podia ser alugada por um salário mínimo. Após o início do Projeto Ferro-Níquel, nenhuma casa era alugada por menos de dois.

Mas o progresso gerado pelo Projeto Ferro-Níquel seria efêmero. Com a crise na economia, o preço do níquel na bolsa de valores despencou. Em julho, o minério era cotado a US$ 22 mil por tonelada, em novembro passou a valer US$ 10,7 mil. A queda da cotação é significativa quando avaliamos que o níquel tem um custo de produção de cerca de US$ 6 mil a US$ 10 mil por tonelada.

A empresa, mais do que depressa, tomou as atitudes que afetariam menos o seu bolso: demitiu os funcionários, rompeu os contratos e agora paga menos a quem quiser prestar serviço ou trabalhar para eles. A empresa se resguarda e os moradores que se virem para saudar dívidas e resolver os problemas que o desemprego está causando. Afinal, esta é a lógica do capitalismo e suas crises cíclicas.

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