Sou brasileiro e canto samba

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Aos 48 anos de idade, o carioca Marcos Sacramento aparece em destaque no cenário da música brasileira como um sambista nato, coisa que costuma desmentir, já que não se considera de fato por ter começado a cantar esse gênero há pouco mais de uma década, nos seus muitos anos tentando “um lugar ao sol” no mundo da música. Atualmente gravando pela Biscoito Fino, Marcos tem conseguido finalmente viver do que mais gosta na vida: cantar.

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Marcos Sacramento começou sua carreira no início dos anos oitenta, e em 1986 conseguiu gravar seu primeiro disco, fazendo parte do grupo Cão sem dono, um quarteto de teclado, baixo, bateria e voz, que fazia músicas sem muita definição de gêneros, cantando nas noites, fazendo shows.

— A busca da sonoridade do Cão sem dono era algo bem experimental, com composições próprias. Escolhemos este nome porque achamos que era curioso e por ser o nome de uma canção do repertório da Elis Regina, que gostávamos muito. O grupo acabou, e eu continuei batalhando para mostrar meu trabalho — Conta.

Marcos procura desfazer a imagem de sambista que lhe é dada pela crítica, porque não teve uma infância, adolescência e juventude voltada para o gênero, coisa que acha fundamental para que alguém receba esse título.

— Não sou, mas entendo que o povo me considere sambista pelos meus vários trabalhos marcantes no gênero e também por ter sido ligado ao reaparecimento da Lapa, um bairro da boemia cultural carioca. Entre outras, toquei por três anos no Rio Scenariun, com o Silvério Pontes e o Zé da Velha — explica.

Marcos gravou seu primeiro disco solo em 1994, Modernidade da tradição, com um repertório de sambas clássicos. Pouco antes havia participado, a convite da Funarte, de um disco chamado Projeto almirante em homenagem ao compositor Custódio Mesquita.

— Em 1998, gravei o Caracane, que tem sambas meus e com parceiros amigos, como Antonio Saraiva, Sérgio Natureza e Paulo Baiano — conta.

Ele também fez um trabalho com Clara Sandroni que rendeu três cds, frutos de uma pesquisa de Fernando Sandroni sobre a obra de Sinhô, compositor da famosa Jura, que viveu na década de vinte no Rio, considerado como um dos pioneiros do samba.

Marcos diz que sempre dá a sua leitura particular, o seu tratamento quando vai cantar um samba, esse gênero que considera brasileiro por excelência, e representante do povo carioca.

— O Brasil é muito rico culturalmente. Um país gigantesco, sendo que cada estado tem a sua característica particular de cultura popular, com a sua riqueza musical. E aqui no Rio ninguém pode negar que o samba é marcante, desde Ary Barroso, faz parte da nossa vida de alguma forma, do nosso cotidiano — declara.

— Costumo dizer que samba é para ser dito e para ser cantado, e se subdivide em vários estilos maravilhosos como samba canção, de roda, enredo, sincopado, partido alto, enfim, várias formas que dão liberdade para o artista se expressar e essa liberdade na arte é fundamental para se quebrar barreiras, acrescentar novas leituras, ousar e criar — acrescenta Marcos, que além de cantor é letrista.

Na corda bamba

Marcos conta que lutou com muitas dificuldades no início de sua carreira pela sobrevivência, mas, que apesar da sua situação ter melhorado, a luta continua e não pára nunca, por conta de um mercado que não dá um lugar de estabilidade para artistas que fazem trabalho dentro da cultura popular brasileira.

— Tenho conseguido viver de música desde 2002, antes estava em uma corda bamba, com a vareta e o prato rodando lá em cima, em malabarismo total, sem poder descer da corda e nem deixar o prato cair, agora a corda bamba continua, o prato está lá, mas já tem uma rede em baixo, porque antes era sem rede (risos) — brinca Marcos, que fazia trabalhos paralelos para sobreviver.

— É muito difícil viver de música com um mercado estrangulado, muita concorrência e em muitos casos desleal, porque são coisas que não se sabe de onde vieram; como chegaram e simplesmente te “jogam para escanteio”, longe do que se está precisando trabalhar para seguir o seu caminho, defender seu dia-a-dia com dignidade — fala.

— Essa cultura de massa que está aí é um negócio muito complicado. Ela ocupa quase todos os espaços nas comunicações, e faz com que a luta para se manter continue forte. Vamos conquistando alguns espaços, vitórias, mas sempre lutando. Hoje percebo que cada vez mais as pessoas gostam daquilo que faço, conseguem reconhecer o meu trabalho, e geralmente vêm falar isso comigo — acrescenta.

Marcos diz que em meio a tanta dificuldade se considera um privilegiado por já ter tido duas vezes seus projetos aprovados por lei de incentivo, ter conseguido patrocínios para viajar pelo Brasil inteiro fazendo shows, e desde 2003, viajar todos os anos para a Europa, tenho inclusive uma carreira em andamento por lá, com discos vendendo muito bem.

Na Europa Marcos não é identificado como um cantor de samba e sim como um cantor brasileiro somente.

— Uma coisa é alguém chegar com um grupo tocando samba, duas mulatas de biquíni, e um homem jogando capoeira, isso facilmente é identificado como samba/carnaval, mas desde que fui à França pela primeira vez lançar o Memorável samba, meu segundo disco pela Biscoito Fino, não tive essa postura — conta.

— O samba que canto é visto como de música brasileira somente, porque associam o samba com o carnaval de uma maneira geral, escolas de samba. Sinto que isso é um pouco confuso para eles. Mas, mesmo sem entender, a nossa música é muito bem recebida e aceita, por ser bonita, melodiosa, ritmada, rica musicalmente — acrescenta.

O quarto cd, Sacramentos, gravado pela Biscoito Fino, também com repertório de sambas, incluindo obras de Noel Rosa até composições próprias, é o que está sendo trabalhado por Marcos em shows pelo país e exterior. O disco tem arranjos do Jayme Vignoli e de um grupo de músicos.

Em março entra em estúdio para gravar o próximo, também pela Biscoito Fino, com um repertório que prefere manter surpresa. O disco deve sair em junho.

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