Viola: esteio na música brasileira

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Homem do povo, violeiro renomado e um lutador convicto pela cultura popular, mineiro do Vale do Mucuri, Pereira da Viola produz a arte pensando no povo, cantando sua vida, sua experiência e seus anseios. Pereira é um violeiro atuante, inquieto. Entre outras atividades, foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Serra dos Aimorés e atualmente é presidente da Associação Nacional de Violeiros, que em 2007 realizou o primeiro Seminário Nacional de Viola Caipira, em Belo Horizonte.

http://www.anovademocracia.com.br/52/24a.jpgPereira costuma dizer que já tinha a responsabilidade de ser artista desde o útero de sua mãe. Ela sim, conta o violeiro, sonhava ser artista, mas abriu mão desse desejo para cuidar dos 13 filhos. Aos onze anos de idade, por não ter escola no lugarejo onde morava, saiu do Vale para estudar no norte do Espírito Santo, hospedando-se na casa de seus tios.

— Meus irmãos me deram um violão e me ensinaram os primeiros acordes no momento em que saí de casa, depois fui aprendendo como autodidata, o que também aconteceu com a viola mais tarde. Fiquei quase dez anos fora do vale do Mucuri, e essa distância fez brotar em mim um desejo grande de reencontrar minha identidade cultural. Meus pais são do Vale do Jequitinhonha e cresci em contato com tudo que há de manifestação cultural de lá e também do Mucuri — conta.

De volta para casa, em Serra dos Aimorés, juntou-se com amigos que tinham forte ligação com a cultura popular local e eram sumos conhecedores da obra de Elomar, Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale e Renato Andrade.

— Esses artistas e outros grandes violeiros serviram de espelho para mim. Até então só tocava violão, mas quando voltei para o Mucuri ganhei uma viola de um amigo, ficando uns dois meses sem poder tocá-la, porque não sabia sequer afiná-la (risos), até que um amigo conterrâneo, que mora e ensina música brasileira no USA, esteve na minha casa e a afinou. Depois de suar para decorar a afinação, comecei a desenvolver meu jeito próprio de tocar — lembra.

Para Pereira é algo espetacular uma pessoa que nasceu em um lugar pobre, um cantinho das Minas Gerais, tornar-se um profissional de música respeitado.

— Isso se deu de uma forma muito consciente, sem nunca abrir mão dos meus princípios. No final da década de oitenta fiz uma viagem com Josino Medina, um grande compositor e parceiro, para  a região de Rondônia, onde passamos mais de um ano. Não tínhamos discos gravados, só algumas fitas k7, caseiras, mas éramos muito bem recebidos — declara.

— Depois Josino revolveu ficar morando por lá e eu segui caminhada. Fui para o Mato Grosso e lá fiz algumas atividades culturais junto a universidades e seus DCEs, e órgãos que trabalham com tribos indígenas. Em Cuibá conheci uma professora que lecionava na mesma universidade que Inezita Barroso, e através dela Inezita conheceu minha música e me convidou para fazer uma série de trabalhos em São Paulo, isso em 1990/91. A partir daí começou oficialmente minha carreira de violeiro — continua.

Pelas andanças de Pereira pelo país, sua viola mineira também ganhou outras influências.

— Fui acrescentando traços culturais diversos desse imenso Brasil, os ritmos de origem africana e indígena, e todos os estilos de músicas que passei a ouvir, por exemplo, toda a coleção Marcus Pereira, que considero uma das mais importantes no sentido de mapeamento da música brasileira — explica.

— De um modo geral não tenho interesse em ouvir aquilo que é sucesso na mídia, e nem esses discos entram em minha casa e em ambientes que estão sob a minha orientação. Porque infelizmente toda essa estrutura mercadológica está no "quanto pior melhor" constata.

Festivais como festa do povo

Para Pereira o bom festival é aquele que serve de "praça" para o músico mostrar sua arte e o povo poder escolher o que mais gosta e se identifica, elegendo sem imposição de concorrência, em uma espécie de seleção natural, onde é a arte a vencedora.

— Participei de alguns festivais concorrendo, mas por pouco tempo, hoje toco somente como convidado, porque não gosto de festivais com sentido de concorrência, por entender a arte como um processo muito mais de convivência, de inter-relações, crescimentos mútuos. Gosto de festivais em outros moldes, como os de feiras de músicadeclara convicto.

— A festa do festival em si, o ajuntamento do povo e dos artistas, é maravilhosa, mas os moldes de concorrência estão falidos, ultrapassados. Funcionou bem nas décadas de 60/70, quando as músicas tinham duplo sentido, um cunho político para driblar a censura, mas hoje é outro momento. Com a mídia massacrando, creio que é preciso nos unir, fazermos feiras de músicas, dar espaços, oportunidades para mais pessoas aparecerem e mostrarem mais músicas — acrescenta.

— Além disso, o ambiente de festival de concorrência faz com que um músico veja o outro como um rival, um adversário, enquanto teriam que se ver como parceiros de caminhada, soldados na luta pela nossa cultura. E esse novo modelo, onde são muitos os melhores, já está acontecendo no país afora. Claro que tem um processo de seleção para participar, mas, uma vez selecionados, todos serão contados como vencedores. Porque creio que o povo não está precisando aplaudir um vencedor, e sim a arte — continua.

Pereira acredita que atualmente os artistas chamados "independentes" têm uma condição mais favorável que antigamente, com acesso a vários meios de registro de sua arte, sem, contudo, ter acesso aos maiores meios de difusão.

— Temos conseguido colocar os nossos trabalhos para serem ouvidos em algumas rádios que estão surgindo, tocando música popular cultural brasileira. Da mesma forma tem alguns bons programas de tv — comenta.

O mundo do disco neste momento está bastante interessante, porque com a história da pirataria nós, independentes, acabamos ganhando, porque o público quer comprar o disco original da nossa mão e acompanhar os textos, as letras, o que tem de encartes, a arte de um modo geral. Mas, pessoalmente, amo que o povo copie meus discos e saia por aí distribuindo (risos), não tenho nada contra essa pirataria — fala Pereira da Viola, que grava independente e tem sua distribuição feita pela gravadora mineira Sons & Sons, na internet e em suas apresentações.

No mês de abril Pereira esteve no Encontro Nacional de Violeiros, que acontece todos os anos em Ribeirão Preto, SP.

Toda a 'violeirada' aparece por lá desde a primeira edição, só Renato Andrade e Zé Coco do Riachão nunca foram, porque morreram antes (risos). Minha preocupação é fortalecer a identidade brasileira a partir do eixo da viola, que é hoje esteio na música brasileira, sem virar modismo, cada vez mais encontrando a nossa 'cara brasileira' — finaliza Pereira da Viola.

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