Senhora da cultura da viola

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Uma brasileira apaixonada pela sua terra, pela viola e pela verdadeira arte de seu povo, Inezita Barroso está sempre interessada em conhecer melhor, vivenciar e divulgar a cultura popular brasileira, sendo o principal motivo de há 22 anos lecionar "folclore brasileiro" em universidades de São Paulo, e a 29 apresentar o programa Viola, Minha Viola, que divulga a música caipira autêntica. Aos 84 anos de idade, essa grande cantora, instrumentista, atriz, folclorista, professora e apresentadora de rádio e de TV é um símbolo da resistência da música popular cultural brasileira.

http://www.anovademocracia.com.br/53/23A.JPGIgnez Magdalena Aranha de Lima, a Inezita Barroso, nascida em uma família tradicional paulistana e formada em biblioteconomia pela USP, seguiu um destino diferente do traçado para ela e já na infância mostrava traços dessa sua personalidade, quando optava por ficar ouvindo os peões tocando viola nas fazendas de seus tios a participar da vida social da família nas férias.

— Comecei na música aprendendo violão, mas percebi que não gostava muito ou que não era bem o que eu queria, e fiquei buscando o que realmente me agradaria até o dia que olhei uma viola pela primeira vez. Ainda bem pequena viajava, todos os anos nas férias, para as fazendas dos meus tios, aí pelo interiorzão, e ficava só ouvindo viola a tarde inteira, os peões tocando aquelas violas maravilhosas, o que muito me encantava — lembra Inezita, que também estudou canto e piano.

— Eles não me deixavam tocar, porque diziam que 'menina não toca viola'. Uma bobagem e machismo sem sentido, mas um dia eu 'bati o pé', já com uns dez anos de idade e disse que queria tocar de qualquer jeito. Então um deles falou 'então toca aí, você não sabe tocar mesmo', mangando, e eu falei 'me dá aqui então, porque já aprendi só de olhar vocês tocando', peguei a viola toquei e cantei, e eles se renderam, dizendo: 'ué, pode tocar sim' (risos) — fala.

— Mesmo sabendo tocar e gostando muito, só fui poder comprar minha viola com dezesseis para dezessete anos, porque aqui em São Paulo era feio tocar viola, aquele velho preconceito contra o caipira, e eu fiquei muito chateada com isso. Nunca gostei de ver pessoas xingar caipira, dizendo que pessoa mal vestida é caipira, pessoa doente é caipira, então falei 'é por aí mesmo que eu vou (risos). Agora mesmo que eu vou defender o caipira, tocar viola e levá-la para a televisão' — continua.

A partir da década de 50 iniciou sua carreira no rádio, chegando a receber prêmios de melhor cantora, gravou muitos discos e documentários e viajou para vários países com seu repertório cheio de cultura brasileira. Também participou de filmes e televisão. A partir da década de 80 passou a se dedicar ao estudo do folclore brasileiro ministrando aulas em universidades, e tornou-se apresentadora do programa Viola, minha viola', pela TV Cultura de São Paulo.

— Levei a viola para a boate e toquei em casa noturna com Adauto Santos, um grande sucesso. Junto com outros defensores da nossa cultura fomos plantando cada vez mais para agora colhermos os frutos, e um deles é o fato de hoje ninguém mais xingar o outro de caipira, porque não é mais uma xingação, já que ninguém fica ofendido e sim tem um baita orgulho de ser caipira (risos), o caminho é esse — constata com alegria.

— E essa cultura maravilhosa está cada vez expandindo mais. Antigamente se dizia que só as pessoas mais velhas gostavam da viola, e hoje vemos muita gente moça tocando e aprendendo viola. As orquestras de viola, por exemplo, tem muita criança, uma delas, no Rio Grande do Sul, tem 60 % de crianças, e isso está se espalhando — acrescenta.

Viola ganhando espaços

Inezita lembra que a viola ganhou espaço nas universidades, já existindo a opção 'viola' na USP, algo inacreditável há algumas décadas.

— Aqui em São Paulo nós temos grandes solistas de viola que estão tocando por partituras, é o caso do maestro Ruy Torneze que com sua Orquestra Paulistana de Viola Caipira está ajudando para que isso aconteça. Antes era tudo na base do 'aprender de ouvido', de olhar o pai tocando. As partituras ajudam a documentar essa nossa música e desses violeiros novos têm muitos que se destacam tocando por partitura pelo mundo inteiro, fazendo um sucesso 'danado' — comenta.

— Na Europa tem festivais de viola. Portugal é apaixonado por esse instrumento que veio de lá, e nós desenvolvemos aqui usando o 'nosso jeito'. Agora ela volta para lá, mas muito diferente (risos). Existe uma maneira de tocar a viola, por exemplo, que qualquer um jura que se trata de guitarra portuguesa, e eles amam. E fico contente com todo esse movimento, principalmente de ver todas essas crianças tocando — fala.

— E já foram muitos e bons artistas que eu tive o privilégio de ajudar a começar sua carreira. E é raro quando eles largam a viola, podem até parar um pouquinho de tempo para fazer uma faculdade ou se ocuparem de algo, mas logo voltam, porque a viola e sua cultura são fascinantes — fala.

Inezita gravou o cd Caipira de Fato, cantando "eu sou do mato/sou caipira verdadeira", e diz que esses modismos que se dizem sertanejos não passam de invenções da indústria cultural, nada têm dos verdadeiros caipiras brasileiros e não conseguem destruir a imagem da verdadeira música da terra.

— Raiz é raiz, ela permanece e jamais foi destruída ou transformada. Esse tal 'sertanejo romântico' é um gênero novo, inventado, nem ao menos usam viola (risos) e sim bateria, teclado, enfim, não é o gênero sertanejo, só leva o nome. E se fazem sucesso é porque estão sendo muito bem promovidos pela mídia. Mas nós não precisamos disso, sabemos ser nós mesmos, com toda a riqueza que temos dos muitíssimos ritmos e jeitos de tocar viola, afiná-la — declara.

E pela música caipira autêntica Inezita briga com toda força, sendo uma das figuras mais importantes desse gênero, um símbolo de resistência.

— Brigo e brigo mesmo pela viola, de verdade, e vejo que tem valido a pena. Em todo esse tempo ensinando folclore brasileiro, por exemplo, já deu para muitas pessoas, alunos e familiares, entenderem o que é música da terra, tradicional. Creio que as pessoas precisam saber de onde veio tal aspecto da sua cultura, porque veio e quais foram as influências, isso tudo é muito importante — finaliza Inezita Barroso.

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