Os choques e outras violências do capital

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São 590 páginas de jornalismo investigativo. Não desse tipo ensinado por associações ou por professores frustrados, mesmo porque a denúncia contida em A Doutrina do Choque não está ao alcance de qualquer caneta. Para desconstruir o Capitalismo de Desastre, subtítulo do novo livro da canadense Naomi Klein, há uma premissa fundamental: o rumo da investigação considera a existência da luta de classes.

Para tanto, Naomi produziu extensa pesquisa sobre a utilização de choques elétricos e econômicos em favor do capital, especialmente nos países sul-americanos. O que há em comum com os gerenciamentos militares do cone sul? A implantação e o fortalecimento das transnacionais ianques, sob o mantra difundido por Milton Friedman e seus "Chicago boys", a turma que enganou e/ou comprou meio mundo para difundir as diretrizes imperialistas batizadas de "neoliberalismo" a partir da década de 1960.

Como muitas das semicolônias viviam épocas de prosperidade e governos relativamente progressistas, como é o caso do Chile de Salvador Allende, seria muito difícil, se não impossível, atender às demandas imperialistas de completa desnacionalização das economias de maneira pacífica. Somente um choque muito intenso poderia abrir o caminho da mudança. A escritora faz uma analogia com os métodos praticados pelo governo ianque:

— A tortura é um conjunto de técnicas destinadas a colocar os prisioneiros em estado de profunda desorientação e choque, de modo a obrigá-los a fazer concessões contra a própria vontade. A lógica que norteia os procedimentos foi elaborada em dois manuais da CIA que se tornaram públicos na década de 1990. Neles, está explicado que o melhor modo de quebrar as "resistências" é promover rupturas violentas entre o prisioneiro e a sua habilidade para compreender o mundo à sua volta. Em primeiro lugar, privando-o de qualquer tipo de contato (utilizando capuz, tapa-ouvidos, algemas, total isolamento), e depois bombardeando seu corpo com estímulos exagerados (luz estroboscópica, música estridente, pancadas, eletrochoque).

Logo no primeiro capítulo está relatada a entrevista realizada com Gail Kastner, uma mulher que sobreviveu aos experimentos realizados por um médico chamado Ewen Cameron, que esteve a serviço da CIA. O "monstro eminente", como é chamado pela sobrevivente, desempenhou papel importante no desenvolvimento das técnicas contemporâneas de tortura no USA. Cameron acreditava que a sucessão de eletrochoques no cérebro humano poderia desfazer e apagar as mentes, para que depois elas pudessem ser reconstruídas a partir do zero.

Klein projeta a teoria do eletrochoque para os grandes desastres e mostra como o sistema capitalista na sua fase superior, o imperialismo, vem trabalhando para aumentar ao máximo seus lucros: Furacão Katrina, ataque às Torres Gêmeas, golpes nas Américas e por aí vai. Assim, o livro adota como figura central o laboratório, ou melhor, os laboratórios criados pelo sistema capitalista ao redor do mundo. A regra é simples (e funciona assim até hoje): em primeiro lugar, os governos devem abolir todas as regras e regulamentações que pudessem limitar a acumulação de lucros. Em seguida, devem vender todos os ativos que possuem para as corporações transnacionais e, por fim, precisam cortar progressivamente os fundos destinados aos programas sociais.

Observando esta configuração, o sindicalista argentino Sergio Tomasella declarou:

— Os monopólios internacionais impõem cultivos, empregam produtos químicos que poluem a nossa terra, impingem tecnologia e ideologia. Tudo isso por meio da oligarquia que controla a terra e a política. Mas nós devemos nos lembrar que a oligarquia também é controlada pelos mesmos monopólios, Ford Motors, Monsanto, Philip Morris. É a estrutura que precisamos mudar.

No caso do Chile, que viria a ser convertido no primeiro laboratório de Friedman, o governo da Unidade Popular – apesar de sérias concessões – contrariava ainda alguns interesses imperialistas e das classes dominantes lacaias. As transnacionais não aceitaram a idéia de perder qualquer margem de lucro. Assim que Allende venceu as eleições, as corporações ianques declararam guerra contra sua administração. Washington criou um escritório para planejar sua derrubada. Faziam parte do comitê: International Telephone and Telegraph Company (ITT), Purina, Bank of America e Pfizer Chemical. Quando o golpe foi deflagrado, a gerência do Estado foi entregue ao general Augusto Pinochet, enquanto a economia pousava nas mãos dos garotos de Chicago. Nas palavras da autora:

— O choque do golpe preparou o terreno para a terapia de choque econômico; o choque das câmaras de tortura horrorizou qualquer um que pensasse em reagir contra os choques econômicos. De dentro desse laboratório vivo, surgiu o primeiro Estado da Escola de Chicago, e a primeira vitória de sua contra-revolução global.

Em visita ao Chile, Milton Friedman defendeu a necessidade de um "tratamento de choque", tendo usado o termo três vezes. Na prática, o que aconteceu no Chile com o tal choque foi o seguinte: os 10% mais ricos aumentaram a renda em 83%, enquanto o país era o 116º mais desigual do mundo (numa lista de 123 países divulgada pela ONU). Essa ingerência de Friedman fez Orlando Letelier, ex-diplomata chileno, afirmar:

— Como arquiteto intelectual e conselheiro informal da equipe de economistas que agora dirigia a economia chilena, Milton Friedman deveria dividir a responsabilidade pelos crimes de Pinochet.

A doutrina do choque denunciada por Naomi Klein pode servir de alerta para o povo brasileiro se insurgir contra a violência capitalista que o mantém escravo de uma meia dúzia de corporações. No Rio de Janeiro, a presença do capitalismo de desastre é tão evidente que a mais recente política voltada contra os interesses da maioria se chama "Choque de Ordem". Pra completar, Rodrigo Betlhen, secretário municipal de Ordem Pública, quer que a Guarda Municipal faça a repressão com tasers– aparelhos que paralisam o alvo através de uma potente descarga elétrica. Sintomático?

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