Benedetti: escritor uruguaio, resistente latino-americano

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http://www.anovademocracia.com.br/54/22b.jpgCom a saúde bastante debilitada desde 2007, e após várias internações ao longo de 2008 e no início deste ano, o escritor uruguaio Mario Benedetti por fim não resistiu a uma doença intestinal crônica e morreu aos 88 anos de idade no último dia 17 de maio, em Montevidéu, em casa, enquanto dormia.

Benedetti nasceu no dia 14 de dezembro de 1920 na cidade de Paso de los Toros. Foi vendedor, taquígrafo, contador, funcionário público e jornalista. Ao lado de Juan Carlos Onetti e de Idea Vilariño — que morreu em abril também aos 88 anos de idade —, foi expoente da chamada Geração 45, o mais importante movimento da literatura uruguaia do século XX. Foi autor de mais de 80 livros. Escreveu poemas, romances, contos e ensaios, além de letras de músicas e dois roteiros para o cinema. Suas obras mais importantes são o livro de contos Montevideanos, de 1959, e o romance A trégua, de 1960. Entre as honras que recebeu, destaca-se o prêmio Iberoamericano José Martí.

Nos anos da repressão dos milicos no Cone Sul, a revista Veja chegou a classificar os militantes de esquerda como simpatizantes de Che Guevara e leitores de Mário Benedetti. Vindo de quem veio, foi uma referência de intenção obviamente depreciativa, mas que só faz depor a favor do uruguaio. Em razão de sua militância política, Benedetti viveu no exílio entre 1973 e 1983, quando morou na Argentina, Peru, Cuba e Espanha. Os dez anos de distanciamento da sua pátria foram particularmente duros em razão do fato de que sua esposa teve que ficar em Montevidéu para cuidar dos seus pais e dos seus sogros.

Benedetti foi, acima de tudo, um intelectual comprometido com as massas de toda a América Latina, e do Uruguai em particular, ainda que nunca tenha se convertido em uma liderança de fato. Ficou famoso o debate que travou em 1984 com o escritor peruano reacionário Mário Vargas Llosa nas páginas do jornal espanhol El País. Atacado por apoiar a Revolução Sandinista na Nicarágua, Bennedetti respondeu com a dignidade e a contundência de quem não arreda pé de suas convicções. Vargas Llosa o incluíra em um suposto rol de intelectuais respeitáveis que recorriam a mentiras para não serem triturados por um hipotético mecanismo de difamação controlado pela esquerda latino-americana:

"Entendo que o próprio Vargas Llosa não é uma prova aceitável de sua teoria, já que há anos vem se distanciando com prazer de algumas de nossas mais firmes convicções, e, no entanto, não parece haver sido triturado: além de não me lembrar de ele ser chamado de "corrupto e feliz", nem tampouco de "cão de Pavlov", foi na verdade promovido, elogiado, editado, premiado e traduzido como poucos escritores deste mundo. Talvez seu caso poderia ser um exemplo do extraordinário apoio que um escritor pode conseguir quando, além de produzir excelentes obras, ataca as posições e atitudes da esquerda".

A referência ao "cão de Pavlov" remete a um outro insulto desferido por Mario Vargas Llosa contra Benedetti. Ivan Petrovich Pavlov foi um cientista russo que no final do século XIX desenvolveu a teoria do reflexo condicionado a partir de observações sobre como os cães reagiam a estímulos paladares.

http://www.anovademocracia.com.br/54/22c.jpg"Tenho a impressão de que a teoria dos reflexos condicionados tenha condicionado Vargas Llosa. Graças a Pavlov, sabemos agora que o subdesenvolvimento não é uma consequência do imperialismo desenvolvido e sub-desenvolvimentista, nem das intocáveis transnacionais, nem do analfabetismo generalizado, mas sim do alfabetizado e maligno intelectual. É toda uma revelação, ainda que seja difícil imaginar, de que [o poeta chileno] Neruda ou [o poeta cubano] Carpentier têm mais culpa pelas nossas misérias do que a United Fruit ou a Anaconda Copper Mining".

A discussão terminou com a saída de Mario Benedetti das páginas de opinião do El País. Afinal, a linha editorial determinada pelo Grupo Prisa e resguardada pelo então diretor do jornal, Juan Luis Cebrián, alinhava-se — e ainda se alinha — com as posições de direita de Vargas Llosa, e não com as idéias comprometidas com as perspectivas dos povos latino-americanos.

À Benedetti também não faltava a consciência de suas próprias limitações enquanto escritor. Quando completou 80 anos, ele confessou ao jornal argentino Clarín: "Me sinto muito inseguro se saio do montivedeano de classe média. Muitas vezes, inclusive, me reprovam porque não trato da classe operária. Mas nas vezes que tentei, os personagens me pareceram falsos. Meus trabalhadores nunca falam como trabalhadores, então não insisti mais".

Não obstante, conhecia muito bem as injustiças do seu pobre Uruguai, bem como os meandros dos processos de exploração levados a cabo pelo imperialismo na América Latina, e agenciados pelos Estados corruptos e burocráticos da região. O escritor também não embarcava nos apelos nacionalistas que tentam mascarar a opressão das massas com a mentira de que o patronato de casa é melhor do que o estrangeiro — apelo que costuma encontrar muita receptividade em certo meio artístico. Até o fim de sua vida, foi um homem empenhado em confrontar a hegemonia imperialista na América Latina, sempre como um firme denunciador das manobras do USA em nosso vasto continente.

Logo após a morte de Benedetti, o governo do Uruguai decretou luto nacional e determinou que o funeral do escritor fosse realizado com honras no Salão dos Passos Perdidos, no Palácio Legislativo, sede do parlamento do país. Em entrevista concedida a um jornal argentino, o gerente semicolonial uruguaio, Tabaré Vázquez, mostrou-se comovido com o falecimento do compatriota, dizendo que "homens como Mario nunca morrem, se semeiam".

Sim, semeiam-se. E os frutos vindouros hão de rechaçar a semeadura do oportunismo e a hospitalidade ao imperialismo ianque, marcas registradas do próprio lambe-botas Tabaré Vázquez, algoz do bravo povo uruguaio, a despeito de suas loas demagógicas aos verdadeiros grandes homens. Aqui, vale registrar a lembrança feita por Marcos Roitman Rosenmann no jornal mexicano La Jornada: "Hoje os hipócritas choram sua morte. Por sorte, Benedetti foi claro: em tempos de globalização, o que se globaliza é a hipocrisia".

Letra escrita por Mario Benedetti para uma música composta pelo catalão Juan Manuel Serrat:

O sul também existe

Com seu cerimonial de aço
suas grandes chaminés
seus sábios clandestinos
seus discursos grandiloquentes
seus céus de néon
suas vendas natalinas
seu culto ao deus pai
e aos galardões
com suas chaves do reino
o norte é quem manda

Mas aqui embaixo, embaixo
a fome disponível
colhe o fruto amargo
do que outros decidem
enquanto o tempo passa
e passam os desfiles
e se fazem outras coisas
que o norte não proíbe
com a sua firme esperança
o sul também existe

Com seus predicadores
seus gases venenosos
sua escola de Chicago
seus donos da terra
seus trapos de luxo
e sua pobre ossada
seus gastos com defesa
sua gesta invasora
o norte é quem manda

Mas aqui embaixo, embaixo
cada um em seu esconderijo
existem homens e mulheres
que sabem a que se agarrar
aproveitando o sol
e também o eclipse
afastando o inútil
e usando o que serve
com sua fé veterana
o sul também existe

Com seu chifre francês
e sua academia sueca
seu molho americano
e suas chaves inglesas
sua guerra de galáxias
e a sua sanha opulenta
com todos os seus louros
o norte é quem manda

Mas aqui embaixo, embaixo
perto das raízes
é onde a memória
nenhuma lembrança omite
e há quem se recuse a morrer
e há quem se esqueça de viver
e assim entre todos se consegue
o que era um impossível
que todo o mundo saiba
que o sul também existe

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