Crescendo na China revolucionária

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Entrevista com Bai Di por Li Onesto, correspondente da Revista Revolución

Bai Di cresceu na China socialista (antes da restauração capitalista, após a morte de Mao em 1976) e participou na Revolução Cultural (1966-1976). É co-compiladora do livro Some of Us: Chinese Growing Up in the Mao Era (Algumas de nós: Mulheres chinesas que cresceram na época de Mao) e diretora de Estudos Chineses e Asiáticos na Universidade de Drew. AND publica trechos de uma longa entrevista encontrada na revista Revolución, do USA.

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Detonar uma nova revolta contra o criticismo de Lin Piao e Confúcio

Como era ser mulher na época da Revolução Cultural?

Bai Di: Quando éramos adolescentes reinavam os ideais revolucionários. Sentíamos que nossas vidas significavam muito, não só por nós mesmas, mas por todas as metas sociais maiores. Isto era o que discutíamos naquele momento. Com 15 anos me graduei na escola preparatória. Na maior parte do tempo estudava as obras do presidente Mao, como também matemática, química e física. Posteriormente fazíamos túneis no pátio de recreação prevenindo o perigo de um ataque soviético. Tratávamos de proteger nosso país.

Aquele ano havia mais de mil alunos e nos juntamos quatro alunas e decidimos escrever um poema épico da história dos Guardas Vermelhos. Queríamos documentar nossos feitos com o intuito de educar os demais nos ensinamentos do Presidente Mao. Organizamos a primeira "Equipe de Propaganda do Pensamento Mao Tsetung" na escola.                          

A maioria de nós quando escuta o termo "equipe de propaganda", não sabe do que se trata ou considera algo negativo, como se se tratasse de obrigar a pessoa a pensar de certo modo, que se opõe ao pensamento crítico.

Bai Di: As equipes de propaganda de Mao Tsetung organizaram os Guardas Vermelhos revolucionários no começo da Revolução Cultural, para que as pessoas instruídas, os estudantes, armados com todas as canções e poemas, levassem conhecimento aos bairros urbanos e em seguida ao campo. Se dedicavam a ensinar as pessoas ditas "menos instruídas" sobre as diretivas do Partido e as idéias do presidente Mao. Nossa equipe de propaganda ensinava canções revolucionárias ao povo e líamos sobre os acontecimentos do dia que saíam nos jornais. Organizávamos os estudantes para limpar os bairros, depois apresentávamos danças e canções e convocávamos a mantê-los limpos pela importância de zelar pela saúde coletiva. Sentíamos que era parte da construção de uma sociedade melhor.

Como vocês viam isso na relação com seus ideais?


Bai Di: Era a missão da minha geração porque vivíamos numa época muito especial: as grandes décadas de 1960 e 70. Falávamos daquele momento que era o amanhecer do comunismo. Trabalhávamos para construir essa grande sociedade. Como nós sabíamos ler e escrever, aproveitávamos para inspirar outras pessoas, ensinávamos a cantar, as lições das obras do presidente Mao. Não se pode ensinar as palavras simplesmente, é necessário explicá-las num contexto.

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Cartaz da ópera "Destacamento vermelho de mulheres"

Preste atenção no conto do velho Yukong: Trata de um senhor já idoso que pede a seus filhos para escavar duas grandes montanhas e removê-las porque obstruía o caminho. Muitos riam dele dizendo que era impossível remover essas duas enormes montanhas apenas a enxadadas. E o Sr.Yukong respondeu: "Depois que eu morrer seguirão meus filhos, quando eles morrerem, ficarão meus netos e logo seus filhos e os filhos dos seus filhos, e assim sucessivamente". Essa resistência impressionou tanto aos céus que mandaram dois anjos, que removeram nas costas as duas montanhas. Mas o Presidente Mao esclareceu e disse que o povo trabalhador foi quem removeu as montanhas. Disse também que agora nós comunistas e o Partido somos como o velho Yukong. Trataremos de remover estas três montanhas — o imperialismo, o feudalismo e o capitalismo burocrático — mas não podemos. Então temos que impressionar o povo chinês: ele é os céus.

Por isso temos que envolver as massas, temos que entender o que estamos fazendo. Temos que educar as pessoas politicamente, essa também era a nossa tarefa.

Sobre a condição da mulher, qual era o efeito da Revolução Cultural?

Bai Di: Um exemplo, as garotas mudavam seus nomes. No início da Revolução Cultural em 1966, o presidente Mao recebia os guardas vermelhos em enormes concentrações de massas na Praça Tienanmen. Durante uma dessas concentrações, uma jovem subiu até onde estava o presidente Mao e lhe presenteou com uma braçadeira dos Guardas Vermelhos. Ele perguntou como ela se chamava e ela respondeu: Song Binbin. Mao então falou que era um nome muito confuciano, completou afirmando que Binbin significava prudência e modéstia. E indagou: ‘Por que ser prudente, por que ser modesta? Deves ser Aiwu, deves amar essa combatividade nas mulheres’. Então ela mudou o nome de Binbin para Aiwu, que significa amar a combatividade, a luta. Daí em diante se estabeleceu um estímulo geral: as jovens com um nome feminino como Flor, ou Jade, ou algo parecido, mudavam seus nomes.

No período em que foi restaurado o capitalismo, algumas mulheres retomaram seus nomes originais. Tenho uma amiga que é chefe de uma editora em Pequim, que se chamava "Vermelha" e mudou para o original, "Florzinha".

É possível comparar a situação da mulher antes de 1949, com a situação de 1949 até a Revolução Cultural e durante a Revolução Cultural e agora sob o capitalismo?

Bai Di: a minha família, as duas avós nasceram no início do século XX e se casaram bem cedo. Ambas tinham os pés enfaixados e cada uma teve 14 filhos. Foram casamentos combinados (arranjados). As duas eram analfabetas. Em toda vida não fizeram outra coisa além de ter filhos. A vida da minha mãe era muito diferente, nasceu nos anos 30, já próximo à fundação da República Popular da China em 1949. Nessa época ela estava na escola e no começo dos anos 50 ingressou a universidade para estudar o idioma russo com o sonho de ser diplomata.

Meus pais foram a primeira geração de suas respectivas famílias a se graduar na universidade. Minha mãe era tradutora e pesquisadora de literatura russa antes de se aposentar. Finalmente penso em minha geração; sou professora universitária com doutorado. Viajei o mundo todo ensinando e escrevendo. Em comparação com minhas avós e minha mãe, sou mais ambiciosa, mais idealista e tenho mais confiança. Sou muito agradecida por ter crescido num momento extremamente especial da história chinesa. A ideologia dominante na revolução era que as mulheres sustentam a metade do céu, o que os homens podem fazer as mulheres também podem. Naquele período vivi acreditando de verdade em mim mesma, na minha capacidade de fazer mudanças em minha vida e na vida de muita gente. Penso agora na quarta geração da família. Não tenho filha, mas dou o exemplo de minha sobrinha. Ela tem hoje 26 anos, é licenciada na China e tem um trabalho muito bem pago e aparentemente só se interessa por bolsas e roupas de marca. Tem o prazer de falar de quem tem dinheiro, que tipo de esposo terá. Eu a observo agora e vejo que se trata de outra geração, na China se diz "post 80": uma geração que investe a maior parte de sua energia nessa cultura consumista. Quando eu era jovem, o ideal social era fazer algo bom para os demais, trabalhar para mudar o mundo para que existisse um sistema melhor. Todos acreditávamos na distribuição justa e igualitária da riqueza social. Mas para os jovens que crescem na China de hoje é puro "eu, eu, eu". E toda cultura apóia isso. Fundamentalmente sobre o papel da mulher hoje, estão inculcando o papel da boa esposa, na cultura popular de agora está cheia desse tipo de discurso.

Uma coisa que se fez durante a Revolução Cultural foi combater o pensamento confuciano e falar de por que o pensamento feudal e patriarcal é opressivo, particularmente para as mulheres. Você pode falar sobre isso e fazendo uma comparação com a situação atual?

Bai Di: Já se fazia esse tipo de crítica ao feudalismo no movimento 4 de maio no começo do século XX. Mas a verdadeira reforma legal começou nos anos 30 nas áreas vermelhas soviéticas sob o controle do Partido Comunista da China. Depois da fundação da República Popular da China, a primeira lei que o governo comunista aprovou, em 1950, foi a Lei do Matrimônio. Pela primeira vez foram abolidos o sistema de concubinato e o matrimônio arranjado, dizendo que o homem e a mulher deviam ser companheiros no matrimônio e a mulher devia ter direito igual à herança e ao divórcio. Foi proibida a poligamia, o casamento de homens com meninas (menores) e também o conceito de filhos "ilegítimos". Aquele foi um grande momento na história. Pense no enfoque que o governo deu ao papel que desempenham as questões de gênero, em mudar a mente e a vida da gente. Para construir um mundo novo a mulher tem que se libertar. Como disse Marx sobre a libertação, todos devem se libertar. E senão se liberta a mulher, não se pode dizer que o país está liberto. Isso demonstra o quão progressista era o Partido Comunista da China.

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Proletários de todo o mundo, unam-se em marcha (1971)

A segunda lei, um mês depois, foi a Lei da Reforma Agrária. Duas leis representam em essência o programa central do novo governo. Primeiro está a mudança na superestrutura: as famílias estavam tão imbuídas da hierarquia familiar confuciana — tão arraigada na cultura chinesa — que era preciso mudá-la. Logo, na minha opinião, esse foi um símbolo da mudança na cultura.

Em seguida está a mudança na infra-estrutura da base econômica, ou seja, os camponeses pobres e a posse da terra. Não só estava mudando a estrutura econômica, tinha que mudar a superestrutura: mudar os dois aspectos e não somente a economia. Por outro lado, os que queriam restaurar o capitalismo, como Deng Xiao-ping, disseram que simplesmente ao mudar a economia, todo o resto iria mudar. No entanto, desde o começo o Partido Comunista da China percebeu que tinha que abolir os velhos costumes opressores.

No momento da fundação da China Popular em 1949, o novo governo enfrentava bastantes desafios: a prostituição, o concubinato, o problema das drogas. E maravilhosamente, dentro de dois ou três anos, todas as prostitutas saíram desse estilo de vida e todos os dependentes de drogas receberam o tratamento adequado. Minha avó me disse que em Harbin existia um bairro da prostituição que se transformou em uma área residencial normal. Infelizmente, hoje este bairro voltou à sua "tradição" de prostituição.

Por que foi tão revolucionário o que fizeram com as óperas modelo?

Não podemos idealizar a Revolução Cultural, no entanto ela cuidou do prolema de 600 milhões de pessoas que carregavam muitas bagagens do passado. O Presidente Mao disse que não era possível fazer a revolução em uma só geração. Se requer uma segunda e uma terceira geração, talvez ainda haverá alguém que guarde bagagem do passado. Os que estudam a Revolução Cultural dizem que as óperas modelo criaram todo tipo de imagens e estereótipos falsos. E daí? Qualquer obra artística cria e promove certas imagens. O Lago dos Cisnes expressa certa visão da beleza feminina. E há o Destacamento vermelho de mulheres, onde se usa a mesma forma de ballet, mas com uma imagem diferente da mulher. Chiang Ching usou a ópera de Pequim, que é uma forma bastante abstrata e a utilizou para apresentar certa mensagem e certa imagem. Alguns dizem: "não, essas mulheres não são reais porque não têm família". Porém é disso que se trata. As mulheres interpretadas não carregam a responsabilidade de uma família. E nesse sentido cultural Chiang Ching foi mais do que avançada.

Fale mais sobre as conquistas da Revolução Cultural e o significado de crescer numa sociedade socialista?

Bai Di: Cresci aí e para mim sempre tinha uma razão de ser. Para isso servia a educação. E não tínhamos que nos preocupar com situações do tipo crise financeira que sempre existirá no capitalismo. Nunca tivemos muito: uma troca de roupa a mais que a que tínhamos no corpo, mas jamais pensamos que deveríamos ter mais. Não tivemos esse desejo louco por qualquer coisa, por exemplo, a necessidade de ir às compras todo tempo. Acredito que o capitalismo é muito bom para criar vazios na psique das pessoas. Ensina-lhe que a única maneira de se sentir bem é querendo ter sempre mais. Na minha infância, não prestei muita atenção às coisas materiais. Por isso tivemos energia para fazer outras coisas para o bem de todos. Estudamos toda espécie de matéria e acreditávamos que nossa presença era um elemento importante do futuro. Sim, olhávamos muito para o futuro e mais ainda, focalizávamos num plano mais amplo do que só a China. Focalizávamos em toda humanidade. Isso era o que nos inspirava. Na minha opinião é pra isso que a educação deve servir.

Algumas pessoas acreditam no individualismo. Mas se pensar que é o que mais importa, então terás uma vida sem graça, porque sua existência não tem transcendência para os demais, assim eu acredito. Não poderás sobreviver muito. Você tem que se colocar na história humana. Assim sua vida, sua existência terá uma transcendência. Essas são as palavras do presidente Mao.

No capitalismo há muitos desejos de ter toda espécie de coisas. Agora quando volto à China, todo o mundo se queixa e é somente dinheiro, dinheiro, dinheiro. No entanto, no socialismo, o propósito da vida não foi o dinheiro. Como disse Lei Feng de forma sucinta: Não podemos viver sem comida, mas o propósito de nossas vidas não é a comida. É criar uma sociedade melhor. Isso sintetiza aproximadamente o espírito. Lei Feng era um soldado raso do Exército Popular de Libertação que morreu defendendo o seu posto. Passou os 22 curtos anos de sua vida ajudando a sua gente. E em 1964 o presidente Mao estimulou a toda nação a "Seguir o exemplo do camarada Lei Feng".

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