Lição de Viola Caipira na Universidade

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Músico, professor de viola caipira na USP e pesquisador incansável da cultura brasileira da roça, Ivan Vilela criou, em Campinas, o 'núcleo da cultura caipira', que, entre muitas atividades, é responsável pelo trabalho da Orquestra Filarmônica de Viola Caipira. Mineiro de Itajubá, radicado em São Paulo, Ivan faz uma ponte cultural entre esses dois estados, considerados berços do instrumento, e luta por um ensino brasileiro de música nas universidades.

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— Fui vizinho de um palhaço de folia de reis, quando criança, e acompanhava algumas festas, catira, jongo. Com cerca de 20 anos ganhei uma viola de presente de uma irmã, mas por já ser violonista não me interessei muito. Um pouco depois, quando estava finalizando o curso de composição musical na UNICAMP, compus uma ópera caipira, sendo necessário o aprendizado do instrumento, assim fui me apaixonando por ela e ela por mim (risos) — conta bem humorado.

A Orquestra Filarmônica de Viola Caipira, um de seus orgulhos, conta atualmente com 23 componentes, utilizando até sete vozes diferentes, com um resultado muito interessante, contrapontístico, que causou a indicação de seu primeiro disco ao prêmio Rival Br. Entre os componentes, a mais velha é dona Izabel, 84 anos, depois o 'seu' Ozório, 66. O mais novo é um rapaz de 19 anos.

— Muitos dos violeiros que hoje têm 20/25 anos, entraram meninos de 14/15, sem saber tocar direito, e hoje são músicos profissionais, inclusive foram fazer bacharelado do instrumento. Fico feliz de ver que essa meninada toda é fruto de um investimento, um trabalho sério em favor da cultura camponesa e continuam tocando conosco, ajudando a elevar o nível técnico da orquestra — constata.

E a partir do 'núcleo da cultura caipira' Ivan foi gerindo não só a orquestra, mas projetos que visam o resgate das culturas locais, muitas vezes pulverizadas com o crescimento das cidades.

— O curso de viola da USP, uma alavanca desses trabalhos, surgiu em 2005. Tenho o prazer de já estar formando a segunda turma de violeiros. O perfil do aluno hoje é muito diverso, porque se outrora o instrumento estava renegado aos meios rurais, agora está presente em todos os segmentos sociais. — relata.

— É um instrumento que já superou esse estigma de classe que lhe foi imputado por conta do êxodo rural dos anos de 1920, intensificado em 40 e 60. Temos vivido um intenso processo de revitalização da viola, talvez em efeito colateral a essa tentativa de 'globalização', de uniformização das culturas a partir do consumo. O próprio pensamento de preservação da diversidade cultural, a desilusão com o sonho da cidade grande e seus valores no que toca a honestidade, solidariedade, tem feito pessoas se voltarem para olhar o campo, onde esses valores ainda permanecem e de onde eles vieram — diz.

Ensino brasileiro de música na universidade

Ivan defende a utilização de método brasileiro de ensino de música na universidade e não o tradicional europeu, que embora tenha qualidade, muitas vezes não se aplica devidamente dentro das manifestações culturais do povo, sendo o artista seu representante.

— Em 2001, por intermédio de Renato Teixeira, recebi um pedido para montar um curso de música popular na Universidade de Taubaté, SP. Existia a necessidade de se tentar trazer para a universidade um pouco dos elementos musicais da cultura popular brasileira, uma vez que a faculdade fica trabalhando somente com a cultura erudita européia, que é muito interessante, mas deixa a desejar no sentido de olhar para dentro do Brasil — explica, ressaltando que a Universidade de Taubaté abortou o projeto, em véspera de execução, depois de uma troca de reitor.

— Temos uma música popular exuberante, riquíssima do ponto de vista harmônico, rítmico, melódico, de textura, de sonoridades, e, no entanto, pouquíssimas faculdades com curso de música popular espalhadas pelo país, públicas somente duas: UNICAMP, que está fazendo vinte anos, e uma na Bahia que abriu este ano — continua.

Segundo Ivan o problema é que os cursos instalados no Brasil não sofreram nenhuma adaptação, a metodologia veio da Alemanha e da França, em se falando de música erudita, e do USA para música popular, de modo que se estuda uma música que em nenhum momento contempla a musicalidade presente no país, ou no máximo a enxerga sob filtros estrangeiros.

— Somos uma cultura de soma, fomos formados por diversas outras culturas, mas temos que perceber que ao longe desses quinhentos anos de existência já criamos uma cultura própria e isso não foi levado em consideração na área educacional, não só na música, mas em outros segmentos do ensino, em que essa visão brasileira é deixada de lado — comenta.

— É descabido não ter curso de música popular no Brasil, sendo que a grande expressão musical do povo é popular e não erudita. É claro que é inegável a grandeza da música erudita, porém não podemos deixar o popular de lado, até porque elas se somam. E para felicidade da nossa cultura, há algum tempo surgiu uma oportunidade dentro da USP de estar começando a estruturar um curso de música popular, acredito, pronto daqui uns poucos anos — declara.

Além de viola, Ivan leciona história da música popular e matérias ligadas a área de musicologia e cultura popular, e tudo isso favorece a realização desse seu projeto de metodologia brasileira, música popular na universidade.

— Juntamente com meus alunos, tenho trabalhado no sentido de criar literatura para o instrumento, porque quase toda ela se fez de forma oral, sendo importante preservar essa atividade, mas ao mesmo tempo ir registrando, passando para o papel, para terem uma dimensão mais perene. Cada violeiro foi desenvolvendo o seu jeito de tocar, mas muitos já partiram: Renato Andrade, Zé Coco (Riachão), Heleno e outros sensacionais, e precisamos registrar esses tocares para que essa 'técnica particular' não se perca — avisa.

Entre outros trabalhos, Ivan acabou de gravar o cd 'Do corpo a raiz', uma trilha que fez para um balé de Ribeirão Preto, composto por jovens da periferia, filhos de migrantes camponeses, e está terminando um doutorado sobre história social da música caipira, além de estar preparando o segundo disco da orquestra.

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