Nélio do 'Boi dos Cajueiros'

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Talentoso letrista, violonista e pesquisador, o poeta paraibano Nélio Torres, é um corajoso combatente em favor da cultura popular da sua terra. Neto de um tocador de realejo e filho de um 'presidente do carnaval de João Pessoa', cresceu em meio a festejos populares. Há quatro anos criou o 'Boi dos Cajueiros', fruto de sua pesquisa sobre 'bumba-meu-boi' de todo o país, reunindo temas de domínio público e de sua autoria.

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Nélio nasceu em João Pessoa, em 1957. Na década de 70/80 morou em Olinda e Recife, onde cursou violão no Conservatório Pernambucano de Música. Em 1987 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu por vinte anos, vindo a estudar no Instituto Villa-Lobos de Música.

Em Maricá, RJ, onde morei por muito tempo, recebi uma incumbência, dada pela Casa de Cultura, de fazer um resgate do bumba-meu-boi. Eu havia participado de uma bienal do livro realizada na cidade, com o trabalho infantil 'boi encantado', e juntando pesquisas que tinha sobre diferentes tipos de 'bois' por todo o país, com idéias novas, surgiu o Boi dos Cajueiros, e logo foi bem recebido pelo povo relata.

Os 'bois' têm características bem diferentes de uma região para outra. Em cada local aparece com nomes, personagens, formas, adereços, ritmos, instrumentos e temas específicos. No entanto, povo é povo em qualquer parte do país e do mundo e onde quer que se desenvolva um trabalho sério, ele abraça — comenta, acrescentando que entre outras, participou do carnaval de Maricá, e esteve apresentando 'seu boi' também pelo interior de São Paulo.

Em 1990, Nélio lançou Tambaú, seu primeiro disco. Em 2000, o CD infantil Em busca da infância encantada. No ano seguinte, Canto Novo. Em 2004, Jardim das canções. Em 2007, Boi dos Cajueiros, e 2009 Girassóis e borboletas. Além dos discos, em 2002 compôs e cantou ao vivo músicas para a peça O casamento suspeitoso, de Ariano Suassuna, que apresentou no Rio.

De volta para a Paraíba, em 2007, não tive nada do que reclamar: já cheguei com uma agenda de shows por seis meses, todos do Boi dos Cajueiros. Entre outras, durante muito tempo fiz um show em uma praça de João Pessoa, todo último sábado do mês, juntamente com um grupo de pessoas da música popular conta.

Tenho participado de muitos eventos importantes para nossa sobrevivência cultural, por exemplo, em agosto passado fiz o caminho do frevo, na Paraíba, e em setembro, o circuito das praças, apresentando o Boi dos Cajueiros na Praça do Caju, aqui em João Pessoa. Me sinto um privilegiado por fazer cultura para o nosso povo — acrescenta.

Nélio diz que seu trabalho tem lhe rendido prêmios nacionais de cultura, e muitas apresentações pelo nordeste e todo o país. Entre outras, no próximo dia 13 de dezembro, as 11 horas, estará se apresentando na Casa dos Cordéis, em Guarulhos, SP.

Atualmente tem dado até para viver disso. Mas durante quase trinta anos tive que 'ralar' no Banco do Brasil, e paralelamente fazer minhas pesquisas e apresentações. Viver da cultura popular, do artesanato, da dança popular, é quase impossível para quem tem família para criar, já que falta apoios institucionais e também do setor privado diz.

— Muitas das empresas privadas apóiam quem já chegou ao topo, mas se esquecem que para se chegar lá o artista tem que ser apoiado antes, no início, quando a batalha é ainda mais árdua. Muito provavelmente existem muitas pessoas com coisas boas para apresentar, valorizando a cultura da sua terra, mas fica tudo nas gavetas, porque não tem quem apóiefala Nélio, acrescentando que se aposentou na primeira oportunidade que teve, e foi cuidar, por inteiro, da cultura dos festejos populares.

O futuro da cultura

Mesmo com a visibilidade do Boi dos Cajueiros, Nélio Torres não abandonou o seu trabalho para crianças, porque as considera peças fundamentais na sobrevivência da cultura de um povo.

— Quando fazemos um trabalho com crianças, envolvendo a música e o lúdico, elas respondem de forma muito positiva, e rapidinho se integram a tudo. Com dois, três anos de idade, meu pai me levava para os eventos carnavalesco de João Pessoa, e eu já tomava conhecimento da existência dos maracatus, os caboclinhos, a ciranda, o coco, enfim, muita riqueza, ajudando para que me tornasse o que sou hoje.

Tenho essa preocupação com a criança brasileira de qualquer parte. Então basicamente meu trabalho é passar para elas a cultura do meu próprio imaginário, através das músicas que faço, que são histórias cantadas, para que a criança de hoje possa fazer uma 'viagem' dentro dessa história, e adquirir, da mesma forma, o conhecimento da cultura do seu povoexplica.

Para desenvolvê-lo me baseio também nas brincadeiras do nordeste: cabra cega, roda pião, e muitas outras. Fui musicando essas e criando outras. Levo um teatro de fantoches, montado por mim, que vão interagindo com as músicas e o meu violão, e ajudando a fazer com que as crianças participem. E como as histórias têm perguntas, em pouco tempo a criança 'entra dentro da brincadeira' explica, acrescentando que apresenta esse trabalho em escolas, bairros populares, praças, ruas, etc.

O trabalho com crianças começou ainda no Rio, quando Nélio lançou o disco Em busca da Infância Encantada, e passou a dar aulas de 'sensibilização musical' para crianças do pré-escolar de escolas cariocas, ensinando-as a tocar instrumentos.

Estive em muitas escolas de comunidades pobres do Rio, e também particulares, de um canto a outro da cidade. Além das aulas de instrumentos, mostrava para elas o que é uma ciranda, uma balada, um coco, um maracatu, um frevo, enfim, ritmos que conheço de perto, e dentro disso cantávamos músicas minhas. E o resultado era incrível: em pouco tempo a criança já estava entendendo cada ritmo, sua poesia, suas rimas conta entusiasmado.

— Esse trabalho com criança é fruto de um pensamento que tenho de que se trabalhamos o seu imaginário com cultura, artes em geral, existirão adultos conscientes, politizados, preparados para a vida — conclui Nélio Torres, aproveitando para divulgar seu site www.neliotorres.com.br onde estão detalhados seus trabalhos, músicas para baixar, e CDs/DVDs para quem quiser comprar.

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