Caiçara canta seu povo

A- A A+

Nascido e criado em Paraty, litoral do estado do Rio de Janeiro, o caiçara Luiz Perequê, compositor, cantor e violonista, é um dos mais valentes na briga pela integridade da cultura desse pedaço de Brasil. Criador do Silo Cultural , que gerou a Rede Caiçara de Cultura , Perequê luta para fortalecer a cultura da região e coloca sua música a serviço de seu povo.

— Sou filho de uma família mineira que veio para cá em 1958. Meu pai foi morar na zona rural de Paraty e trabalhar com tropa, fazendo transporte de coisas entre a cidade e Ubatuba. Assim, cresci nesse universo aconchegante de belas praias e povo acolhedor, o que acabou refletindo em todo o meu trabalho de música — revela Perequê.

— Não tive formação musical acadêmica, aprendi vendo as pessoas tocar. Comecei a compor com 18 anos, e fui mostrando para alguns amigos que diziam gostar, o que me animava a continuar. Aos 20, ganhei meu primeiro violão, e dois anos depois estava participando de um festival de música em Angra dos Reis, aqui perto. Foi nesse momento que descobri que esta seria minha profissão lembra.

Perequê diz que não se preocupa em fazer música regional quando vai compor, mas acaba fazendo, porque isso está dentro dele.

Sou daqui, gosto daqui e sigo os costumes do meu povo. É claro que isso tinha que aparecer no meu trabalho — declara.

O título Cultura Caiçara, segundo Perequê, foi dado à cultura da sua região há cerca de vinte e cinco anos, depois que um grupo de pesquisadores dedicaram-se a investigar hábitos e costumes locais.

— Descobriu-se que existe um povo em uma área que abrange a baia da Ilha Grande até Paranaguá, com seus próprios costumes, sua própria música, seu jeito de pescar, de fazer o remo, sua comida, etc. E juntando esses fragmentos deu-se o nome de cultura caiçara explica.

— O Caiçara é o povo do litoral que planta e pesca. É o pescador artesanal, que também tem a sua pequena plantação, servindo para sua sobrevivência. Normalmente tem um mandiocal, para fazer farinha, e uma canoa, que usa para pescar. Vive em uma casa de pau-a-pique, com chão batido e fogão de lenha. É uma espécie de 'caipira do litoral', entretanto, de uma área específicaacrescenta.

— A nossa ciranda, o nosso fandango, só existem aqui. Também a nossa farinha, o nosso peixe com banana só tem aqui. Além do nosso artesanato e tudo mais que representa bem esse pedaço de terra, da mesma forma que vemos em outras regiões brasileiras, cada uma com a sua particularidade, a chamada 'cultura regional', que é a alma do povo de cada lugar continua.

Luiz Perequê lembra que a região fez parte do começo do Brasil Colônia, e nela está bem forte a mistura índio/português/negro.

— Tivemos a chegada dos portugueses por aqui, expandindo depois para o Vale do Paraíba, e a vinda dos africanos. Então se vamos até a ponta do Cajaíba ou da Juatinga, encontramos meninos de olhos azuis. Chega em Ponta Negra e já encontra o índio, anda mais um pouco, em Campinho tem um quilombo fala.

— Essa região sofreu por muitos anos de um total abandono, um verdadeiro isolamento do resto do país. Só com a construção da rodovia Rio-Santos é que o resto do país teve a oportunidade de conhecer. E saiu do zero ao cem: a região passou a ser conhecida como área turística, atraindo gente de todo tipo para cá acrescenta.

Rede em favor da cultura

Mas esse turismo todo também trouxe problemas, com o desrespeito da cultura local, a especulação imobiliária e outras agressões ao povo. Para lutar contra isso Luiz Perequê, juntamente com outros interessados, criou em 2000, o Silo Cultural.

— Dentro do Silo criamos a Rede Caiçara de Cultura, junto com Antônio Carlos Diegues e outros pesquisadores ligados a USP, e começamos a fazer encontros e debates. Por exemplo, colocamos em uma mesma mesa um tocador de rabeca lá do extremo da costeira, do fundo do mato, e um acadêmico, para discutir cultura, ecologia, e falar da questão da sobrevivência. E isso é muito enriquecedorgarante .

Perequê diz que vive em uma região turística onde se fala em respeitar o meio ambiente, fazendo reservas, mas se esquece do povo que mora dentro dessas reservas.

— Na verdade, essas pessoas não foram morar nas reservas, e sim as reservas é que foram morar nas pessoas. Isso porque chega-se em uma vila de pescadores, que já existe há 300 anos e a transforma em reserva. Mas se esquecem das pessoas que moram ali, e passam por cima dos seus costumes e tudo que faz parte da sua existênciaconstata.

— Logo em seguida vem o turismo, que também já não respeita nada do dia-a-dia dessa cultura local, e até insere os seus jeitos. É contra tudo isso que lutamos com a Rede Caiçara de Cultura. O que queremos é fortalecer nossa cultura para poder receber os turistas, sem danos. Até porque ele é uma pessoa que vem para saber como eu vivo e tem que respeitar o meu jeitodiz.

Outro problema são pessoas que chegam atraídas pela ilusão de enriquecer com o turismo, e acabam causando o aparecimento de criança abandonadas no local, mendigos.

— Muita gente vem para cá pensando que aqui é uma 'mina de dinheiro', e não sabem eles que a 'mina de dinheiro' daqui é só para o grupo empresarial que explora o turismo e que, muitas vezes, não está nem um pouco preocupado com a questão cultural, muito menos com o povo fala.

— E quem ganha dinheiro com turismo aqui não entende que existem as baixas temporadas, que é uma espécie de defeso cultural, o momento em que a comunidade trabalha para si própria, para produzir cultura, porque na alta temporada o turista está consumindo essa cultura produzida. — acrescenta.

Segundo Perequê o defeso cultural é exatamente a hora em que a comunidade se volta para fazer o exercício das suas manifestações artísticas, de onde surge os produtos culturais.

— Ele deve ser respeitado. É um momento de criação, de reflexão. Mas o empresário não pode ficar um dia sem ganhar dinheiro e explora o local até esgotá-lo. Costumo dizer que ao não se respeitar esse momento, se está dando um tiro nos próprios pés. As pessoas na verdade não estão 'bebendo a água da fonte', e sim 'tomando banho na fonte'. Automaticamente, essa nascente será prejudicada, começará cair areia e de repente terá uma poça de lama — compara.

— Isso acontece porque o empresário não veio para cá porque se apaixonou por algo aqui, e sim por ser um bom negócio. Ele nem sequer sofre com isso tudo, pois vai embora assim que esgotar toda a fonte, para fazer o mesmo em outro lugar. Com certeza na hora que ele olhar para a nascente e ela for uma poça de lama, ele vende tudo e vai fazer lama em outro lugaracrescenta.

— Basicamente, a minha luta é para que isso não aconteça: canto, denuncio, uso a minha música a serviço do nosso povo. E ao mesmo tempo vou sobrevivendo com ela e com meu trabalho de compositor diz Luiz Perequê, que é bastante conhecido na região, fazendo shows em toda parte, em muitos lugares do país.

Assine já!

Receba quinzenalmente a edição impressa
do Jornal A Nova Democracia no seu endereço
e fortaleça a imprensa popular e democrática.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja
Rafael Gomes Penelas

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait